Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

26 de mai de 2017

Baed - Capítulo 17

Quando volto para casa, já noite, Rima está retirando os pratos da mesa de jantar, em seu uniforme e sua máscara facial de empregada da casa.
Ela é cozinheira, mas ajuda as moças a levar os pratos de uma ostensiva mesa, com mais talheres, travessas sujas, taças e todo tipo de bugiganga da copa que seja além do usado no dia-a-dia. A saudita lança um olhar sobre mim, e sua indiferença é quase cômica.

“Olá, senhora.” – É o que ela diz. – “Deseja que eu prepare seu jantar imediatamente?”

Não consigo conter um sorriso.
Ameera faz parecer que nada aconteceu hoje de manhã.

“Vou querer jantar sim, Rima, mas não precisa sair correndo para preparar um prato pra mim.”
 – Murmuro.
“Apenas leve-o para o meu quarto quando estiver pronto. O que são todos esses talheres?”

“O senhor Mohammed fez um jantar para membros da empresa.” – Responde. – “Ele perguntou pela senhora.”

Praguejo internamente.
Quando Ameera diz “membros da empresa”, ela está na verdade dizendo “membros da família que trabalham na empresa”. Apesar de não gostar do nepotismo escancarado, tive que manter alguns. E esse tipo de jantar serve justamente para manter a família “unida”.
Além de minha ausência causar uma má impressão – um eufemismo –, eu disse a Mohammed que ele me veria no jantar, o que significa que ele está ainda mais frustrado e chateado comigo.
Depois que acertar 5% dos lucros de Andrade na Europa para mim, eu pensei que seria um desperdício de tempo voltar para casa. Os membros da família Albandak não podem reclamar de mim, no final das contas, já que passei o dia inteiro resolvendo questões da empresa.
Eu geralmente evito Mohammed propositalmente porque não temos o que conversar. Mas não desta vez.
Suspiro.



“Onde ele está agora?” – Pergunto, minha voz saindo mais cautelosa do que eu gostaria.

“Em seu quarto.”

Subo as escadas, afastando de minha mente o peso imaginário em avançar cada degrau.
Quando chego ao corredor, meus olhos inevitavelmente param na porta do quarto de Mohammed, entreaberta.
Ele está sentado em sua mesa de trabalho, é o que minha visão consegue alcançar, com muitos papéis e alguns livros de bolso espalhados sobre ela. Sua mão esquerda, espalmada sobre a testa, oculta parte do seu rosto preocupado.
Afasto o olhar, abrindo a porta do meu quarto.

Quando então, minutos depois, Ameera traz o meu jantar sozinha, eu tenho a oportunidade de tratá-la como realmente é.

“Como está Mohammed?”
– Pergunto. Minha pergunta é de teor pessoal, mas faço parecer que minha preocupação é apenas profissional.

“Ele não sabe o que aconteceu.”
– Ela responde. Há uma mudança em seu tom de voz e expressão, como se uma máscara quase física lhe fosse retirada.
“Os homens soltaram a todos depois que você saiu. Kinski mandou que voltassem a suas atividades normais e nenhuma palavra fosse dita sobre o ocorrido. Seu irmão só voltou pela noite com o pessoal da empresa, jantou, fez sala e se fechou no quarto quando acabou. Quem eram aqueles homens?”

“Uma informação muito interessante, mas não sei se devo revelar agora.”
  – Murmuro.
“Fale para Kinski organizar minhas coisas o mais rápido possível, e dar um jeito de contatar Shaofeng. Eu vou para a China ainda essa semana.”

Ela faz um sinal de aprovação com a cabeça e eu penso que ela sairá do quarto.
Então Ameera abre a boca novamente, e suas palavras me pegam de surpresa.

“O que devo dizer a seu irmão?”

É uma pergunta muito simples, para ela, mas necessária, e eu não sei como responder.
Eu gostaria de não dizer nada, seria uma alternativa mais fácil, mas Mohammed merece que eu lhe dê satisfação.

“Diga a verdade. Que eu vou para China.”
– Murmuro, com minha mente completando: meia verdade. É claro que a natureza dessa viagem não será revelada.
“Diga que será por poucos dias, e logo estarei de volta.”