Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

26 de mai de 2017

Baed - Capítulo 16

Como visto, ainda não estou morta.
O homem que me pôs a insípida pulseira me guia pela varanda de uma casa isolada das intensas avenidas do centro de Abu Dhabi, com aspecto externo reto e neutro, murada, com um vasto campo de poeira e pedrinhas soltas ao seu redor.
A área é extensa o suficiente para caber um shopping, mas tem um aparência de abandono, como se alguém pensasse em iniciar uma construção aqui, mas desistisse no primeiro mês. Há apenas uma ou duas árvores próximas e esta casa, com um andar erguido, é compatível com uma família simples de três filhos.
Em seu interior, tudo é tão desinteressante quanto as paredes de fora, pintadas de branco.
Sinto o suor gerado pelo calor do dia escorrer por debaixo da blusa; de um cômodo mais distante, uma silhueta avança em nossa direção, tornando suas feições mais visíveis a cada passo dado.
Quando a entidade para a minha frente, o sorriso satisfeito de Henrique Andrade detém toda a minha atenção.
Esta é uma genuína surpresa.

“Pode tirar a pulseira dela.” – Ele ordena, ainda encarando meu rosto.

O homem que esteve estático ao meu lado avança e remove o contorno de metal.

“Então não vou ser assassinada por alguma carga elétrica alta?”
  – Solto, fitando por um segundo meus pulsos livres.

“Meus planos para a presidente da ALSSU passam longe de homicídio, eu garanto.” – Declara. – “Deve imaginar que a pulseira foi apenas uma medida preventiva. Senhorita Albandak, meu nome é…”

“Henrique Andrade.”
– Completo. Ele ergue uma sobrancelha.
“Eu sei algumas coisas sobre a América Latina, afinal.”



Andrade é um grande nome na rede de narcotráfico que funciona do outro lado do Atlântico.
O pouco que sei é que se trata de um líder jovem, não tão alinhado politicamente quanto eu gostaria, que fez seu caminho desde as famigeradas favelas brasileiras até sua hegemonia na América do Sul. Parece que as coisas já foram mais propícias para esse tipo de negócio por lá, e talvez seja por esse motivo que ele esteja aqui.

“Fico feliz que ao menos meu nome tenha vencido o “quase-embargo” dos oceanos e chegado até a Ásia.” – Murmura. – “Nós sabemos algumas coisas sobre o outro, mas posso apostar que ambas as informações não são suficientes, verdade? Sente-se, Ali Albandak, imagino que ainda não tenha tomado o café-da-manhã.”

No centro dos sofás, uma baixa e farta mesa nos aguarda.
Ele me serve suco numa taça pequena, derramando o líquido de uma graciosa jarra de vidro fino.
Apesar de tudo ser visivelmente tentador, e eu estar, de fato, com fome, não toco em nada. Meu olhar ainda está posto sobre Henrique.
Ele mordisca uma e outra coisa, até largar a expressão de “nada está acontecendo” e focar sua atenção em mim.

“Eu planejava ter algo em meu estômago primeiro, senhorita Albandak.” – Diz. Apesar de detestar o modo formal como as pessoas me tratam, ainda não estou amigável o suficiente para pedir que ele me trate pelo primeiro nome. Ele suspira derrotado ao ver que meu rosto sério não se alterou. – “Pois bem, eu proponho que façamos um acordo.”


“Fico feliz que esteja sendo direto.” – É a única frase que solto.

“Não gosta de formalidades, não é?” – Conclui. – “O quanto sabe sobre a América?”

“Pouco.” – Admito. Não gosto de declarar ineficiência em algum ponto, mas não há como negar. – “Nada além de informações básicas que chegam até aqui.”

“Estamos em situações parecidas.” – Murmura. – “A única informação relevante que recebi foi você. Sua empresa cresceu tanto e tão rápido que é impossível que não chame atenção. Disso até sua ligação com a China foi uma fácil dedução. Algum tempo por aqui só serviu para confirmar minha tese.”

“O que você quer?”

“Um acordo, como eu disse.”
– Repete.
“Tenho ambições das quais o embargo não permite concretizá-las, e acredito que você também as tem. Pois então, estou proponho uma ajuda mútua que viabilizaria as duas coisas.”

“Não há um embargo.”

Ele descarta a frase num gesto.

“É como se tivesse.” – Diz. – “Toda aquela fiscalização no Meso-atlântico e no Pacífico leste, a pressão política dos americanos, dos chineses, dos russos, a prova disso é que até mesmo você não sabe muito do que acontece na América.”

“E você quer que eu deixe sua carga entrar na Europa e Ásia, acertei?” – Rebato. – “Antes que ouse propor que eu use os navios da ALSSU pra transportar suas toneladas de cocaína do Brasil para o outro lado, deixe-me adiantar que não vou envolver o nome da minha empresa nisso. Pode esquecer.”

“Não desejo seus navios, Albandak.”
  – Murmura, imperturbável.
“A senhorita me subestima. Sei que não se arriscaria a esse ponto. Se dependesse apenas de meios de transporte, minha carga já estaria na Ásia há muito tempo; o problema é político, meu bem. E você pode resolvê-lo sem danos para o seu nome.”

Paro por um instante, em silêncio.
A Europa está falida e estressada, um campo fértil para o mercado de drogas. A China, entretanto, não gosta de narcóticos; especialmente se depender de Chen Yinan, o primeiro ministro de Shaofeng.
De qualquer forma, se houver uma boa oferta, não será os resmungos de Yinan, por mais influente que ele seja com o presidente, que irá impedi-lo de abrir espaço para Andrade.

“O que eu vou ganhar com isso?”
– Pergunto finalmente.

Então ele abre um sorriso. Não o sorriso enviesado de antes, mas um largo e franco, o primeiro de toda essa conversa.

“Pensei que fosse óbvio, minha querida.” – Diz. – “Terá quantas informações confidenciais da América desejar.”