Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

29 de abr de 2017

Baed - Capítulo 8

LONDRES, 10 DE MAIO DE 2050, 4H26
Luto contra o sono, sentada na sala do apartamento de Dario Zorn.
Depois de dois anos indo de um lado para o outro, viajando de país a país como uma constante fugitiva, esta é a primeira vez em que tive uma boa noite de sono. Eu estava na Somália, distante de tudo o que conheci, vivendo escondida numa temporada que duraria no máximo dois meses, quando Zorn me encontrou.
Eu achei que ele queria me matar. Essa era a tendência padrão.
Me matar ou me prender. Meu nome também está na lista negra da polícia europeia, provavelmente da Interpol também, e sabe-se lá quantas outras organizações do tipo. Eu não sei até onde eles sabem sobre mim, mas depois que Zorn explicou suas razões para me procurar, cogito que ele tenha essas informações.

Pelo visto, não há tempo a perder, já que ele me acordou tão cedo.

“A polícia sabe menos sobre você do que você pensa.”
  – Ele diz, como se estivesse lendo meus pensamentos.
“Basicamente a única coisa que eles possuem de você é o seu nome. Sidney Basner. Incrível, não é? Parece que eles focaram demais nos chefes e te deixaram escapar.”

“Mas eles podem ter uma foto…”

“Não tem.” – Afirma. – “Segundo minhas fontes, a Interpol não faz ideia de como é seu rosto.”

Olho para a paisagem parcialmente escondida pelas cortinas.
Apoio meu rosto no braço esquerdo, tamborilando meu queixo com os dedos.

“Esse nome é falso…” – Murmuro, num fiapo de voz, como alguém que deixa um pensamento escapar. Então, me desligo de minha própria mente e volto meu olhar para Dario. – “Meu nome verdadeiro não é Sidney Basner. É…”

“Ali Albandak.”
– Ele completa, com um sorriso. Ergo uma sobrancelha.
“Eu não cometi o erro da polícia em te subestimar, Ali. Ali ou Sidney, como eu devo te chamar?”

“Como for mais conveniente.”

E esta é a palavra que dita toda essa conversa. Conveniência.
Posso enxergar as intenções de Zorn em seu entusiasmo; eu não sou um bandido em sentença de morte. A Interpol só tem o meu nome falso como informação, o que significa que minha ficha está praticamente limpa. Sidney Basner é uma suspeita de envolvimento com organizações criminosas, dentre outros crimes. Ali Albandak é só uma herdeira, uma filha perdida que virá a luz.


“Então, Ali…”
– Ele continua, confirmando meus pensamentos.
“Sabe quantas pessoas restaram dos Hansson?”

“Não.”

“Menos de 40.” – Diz. – “Tinhamos um exército antes. Homens em diferentes países, na Europa, na África, no Oriente Médio… Todos se dispersaram. Não sobrou nada além de uns poucos na Europa. Não há perspectiva, e estamos trilhando o mesmo caminho que trilharam os Vaccari, rumo ao desaparecimento. Mas isso aqui, pode reverter isso.”

Esfrego os olhos pesados, tentando raciocinar com mais clareza.

“Isso o que?”

“Você.” – Diz. – “Escute, não há mais espaço para nós no tráfico humano. O mercado que antes era nosso, foi tomado por outros grupos. É uma nova configuração, uma renovação de comércio onde nós não cabemos mais. Os Vaccari tentaram insistir nisso, mas desapareceram. Nós não, Ali. Os Hansson são mais versáteis, menos ligados às raízes do que eram os Vaccari, e é isso que vai nos fazer sobreviver.”

“Ok.” – Murmuro, apertando os olhos sonolentos. – “Onde eu entro nisso?”

“O fundador dos Hansson se chamava Thomas, assim como o tio de James.” – Diz. – “Ele esteve numa situação parecida com a sua, fugitivo, nomes falsos. Casou-se com uma mulher chamada Maria Ahlgren. Sabe o que eles fizeram no início, quando não havia nenhuma perspectiva de negócio? Não foi o tráfico humano que deu riqueza aos Hansson. Foi um mercado que volta e meia é sempre interessante: tráfico de informações.”

Meu sono de repente vai embora.
Meus olhos se mantém estáticos em Dario, esperando que ele continue.

“O mundo geopolítico está instável, Ali.” – Ele declara. – “Temos uma grande potência em ascensão que não vai desperdiçar informações. Uma outra potência inimiga, uma amiga e adjacente, nenhuma delas pode dizer um não para alguém que tem informações a revelar. Você é uma Albandak. A única herdeira de um império no Oriente Médio, que por sinal é uma área de interesse dessas potências. Você tem a chave. E minha intuição diz que você pode se sair bem. Prove ao restante dos Hansson que nem tudo está perdido e todos eles obedecerão suas ordens.”

Eu me levanto, caminhando de um lado para o outro no cômodo.
Zorn está me propondo a chefia dos Hansson, um pedido anterior de James, mas impossível de ser atendido dada minhas circunstâncias. Mas elas mudaram. Podem mudar. Eu só preciso assumir a família que me vendeu como escrava.
Eu só preciso me revelar. Eu estarei na mira de quem quer me matar, mas se eu for mais rápida que eles?
Eu preciso de algo público.
A arriscada aposta de um acordo público.

“Eu vou para Abu Dhabi.” – Digo para ele. – “E eu preciso da imprensa comigo.”