Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

29 de abr de 2017

Baed - Capítulo 7

Arjean está sentado numa posição desconfortável quando entro no quarto de hotel.
Seu tronco está torcido para o lado enquanto seu braço esquerdo serve de apoio para sua cabeça; de qualquer forma, ele parece estar concentrado demais no papel aleatório que lê, em cima da minha cama.

“O serviço de quarto entregou isso.”
– Ele diz, sem olhar para mim.
“Acredita que aqui tem um spa completo? Até tratamento para envelhecimento eles estão oferecendo.”

“E pelo visto, você está interessado.”
– Murmuro, com uma ponta de deboche na voz, enquanto meus pés jogam os tortuosos saltos para longe.

Seus olhos azuis se focam em mim, numa expressão de falsa ofensa.

“Eu estou muito bem com a minha idade, obrigado.” – Diz. – “Só não imaginei que o hotel tivesse estrutura para isso.”

“Sim, ele tem.”
– Murmuro no meio de um cansado suspiro, arrancando o papel de sua mão.
“Você tem assuntos mais importantes para tratar.”

Ele me observa amassar a folha com uma sobrancelha arqueada.
Quando volto do banheiro anexo, com o anúncio já no lixo, ele pergunta:

“Como foi o almoço?”

“Como é qualquer evento do tipo.”
  – Respondo, erguendo a escultura em minha mão com um sorriso.

“Mitologia chinesa?”

“Mais do que isso.”

Abro a caixa secreta, voltando seu conteúdo na direção de Arjean, com cuidado.
Ele se levanta.  
Suas mãos tocam a superfície de porcelana, e eu afasto a escultura por centímetros, o suficiente para recapturar seu olhar.

“São 3.5 milhão em yuans, aqui.”
– Declaro.
“E eu quero manter esses diamantes.”

“Certo.” – Ele murmura, e sua voz, expressão e comportamento se tornam profissionais.

Eu observo seus movimentos no quarto branco, monocromático como um típico quarto de hotel, em silêncio.
Arjean disca algum número em seu celular e caminha em direção a janela; ele soa como outra pessoa, um alter ego completamente oposto ao Arjean que vi sentado na minha cama, lendo um anúncio qualquer.
Ele está sério, não autoritário, mas agindo como um negociador. Escuto as palavras ditas por ele no telefone.

“Contate Marion Bardot, Udo e Kfouri.” – Diz. – “Avise que eles devem estar no estúdio amanhã à noite. Sim, Edith… Você conhece os procedimentos de segurança.”

Minutos depois, ele desliga.

“Em duas semanas, seus diamantes estarão numa pulseira arrematada por você num leilão na França.” – Afirma. – “Essa pulseira estará guardada no cofre de um banco na Arábia Saudita. No período, um associado meu lhe entregará as informações de acesso.”

Suas mãos acomodam a escultura, já fechada, dentro de sua mochila preta.
Ele guarda o celular no bolso da calça e caminha para a porta.
Então, lançando um último olhar para mim, consigo enxergar um vislumbre do velho Arjean…

“Adoraria usar do serviço de quarto e pedir uma coisa bem cara, mas tenho trabalho a fazer.”
  – Murmura, com um sorriso enviesado estampando o rosto.
“De qualquer forma, vou ter uma viagem com despesas pagas quando terminar.”

“Espero que seu maldito navio naufrague.” – Devolvo o cumprimento, sorrindo de volta.

O som de sua risada é a última coisa que escuto.
Uma viagem confortável e livre de censura para a América, algo que ultimamente se tornou artigo de luxo, é o pagamento de Arjean pelo serviço.
Forma inteligente de remuneração, é o que eu penso quando me deixo desabar na cama macia.
Corro alegremente em direção às nevoas do sono.