Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

29 de abr de 2017

Baed - Capítulo 6

PROVÍNCIA DA JEOLLA, COREIA, 7 DE JUNHO DE 2054, 14H52

Quando um empregado impecavelmente vestido abre a porta do carro, Yeon Dae-sung é o primeiro rosto que encontro.
Seu rosto é imóvel como porcelana, sério e implacável, mas seus olhos escuros se tornam mais amigáveis quando ele me vê; o uniforme preto, perfeitamente alinhado em seu corpo, exibe – além das várias e invejáveis medalhas –, uma curiosa faixa cor-de-vinho, que capta minha atenção toda vez que a vejo, costurada, em sua base, à manga esquerda de seu uniforme, e presa, em sua ponta em forma de seta, por um botão da mesma cor.
É um daqueles detalhes que passariam despercebidos para alguém que não enxerga o significado.
O “adereço” em questão é encontrado em todos os uniformes militares da Coreia, desde sua recente unificação; a guerra, em fevereiro de 2042, trouxe o símbolo, o lembrete contínuo e interminável da revolução: não somos o governo inepto do norte, tampouco os subservientes nada patrióticos do sul.
Somos algo diferente. Algo novo.

“Senhorita Albandak.” – Ele me cumprimenta, fazendo uma mesura. – “É uma honra recebê-la.”

Eu devolvo a mesura, inclinando-me em sua direção.
Há alguns anos, as circunstâncias me forçaram a assumir o sobrenome; foi um processo em que meus ressentimentos e meu orgulho foram deixados de lado por uma questão muito maior. A natureza do que eu faço é sigilosa, nada parecida com o que acontecia com os Vaccari, e em situações como essa, é mais conveniente ser Ali Albandak, a filha perdida e herdeira de um patrimônio bilionário no Oriente Médio.
Esta, em teoria, é uma reunião de negócios lícitos, algo normal e necessário para qualquer grande empresário da Ásia, África ou Europa, um evento muito distante da medonha lista da polícia europeia que abriga “Sidney Basner” como uma das procuradas, suspeita de ligação com organizações criminosas.

Minha posição de “persona non grata” pelos Albandak só me ajudou, no final das contas.
A polícia europeia sabe muito pouco sobre Sidney Basner, nada além de seu nome citado em conversas e outros rastros de atividade da máfia. Minha venda como escrava é um assunto proibido entre os familiares do meu pai, o que faz com que a ponte que ligaria os Albandak à figura de um dos membros da lista negra da Europa, seja escondida e abafada ao máximo.
Obrigada Hayat, murmuro o cumprimento em minha mente, contendo o riso de escárnio.

“A honra é toda minha, governador.”
 – Murmuro, formal, enquanto o carro se afasta da alameda principal.

Yeon me oferece o braço, guiando-me em direção à exuberante residência ministral.
A construção é larga, plana, repleta de colunas e um telhado imenso, no estilo oriental, de duas pontas; a mansão, com sessões e compartimentos separados, é a reparação de um edifício antigo, parcialmente demolido durante a guerra. Com exceção da faixa frontal e as hastes do telhado, que se encontram num pico redondo, todos em tons de dourado, toda a construção é de um branco translúcido.

“Espero que a viagem tenha sido agradável.”
– É o que ele diz, enquanto caminhamos pelo corredor lateral, arborizado.
“Meus associados ficaram interessados em saber quem era a mulher que salvou a Jeolla de uma guerra civil. Insistiram por sua presença no almoço.”

Lanço um olhar acusador para ele, alarmada.

“Pode ficar tranquila.” – Ele sorri. – “Eles são de inteira confiança. E você vai adorar conhecê-los.”


O lugar para o qual Dae-sung me leva fica no jardim, aos fundos da propriedade.
Uma pequena elevação em pedra se ergue no meio da vegetação; O piso de concreto forma uma faixa de acesso a pequena escadaria, de onde vejo uma extensa mesa, convidados e um palco simples onde uma banda de violoncelistas tocam uma melodia suave. O telhado de duas pontas, um aspecto que acostumei a ver em minhas viagens ao extremo oriente, tem, desta vez, suas extremidades encurvadas para baixo.
Sua esposa, Choi Dae-sung, é a primeira figura que vejo.
Ela está num vestido azul escuro, na altura dos joelhos, de tecido leve, decote raso e mangas soltas. Choi conversa coisas rápidas com outros convidados, mantendo-se próxima a entrada, e eu noto que a recente gravidez de gêmeas lhe concedeu quilos a mais, suavizando a magreza convencional.
Pela forma como se comporta, vejo que não está satisfeita com isso, entretanto.

“Aí está nossa convidada.”
– Ela murmura quando entramos, disfarçando a insegurança com desempenho admirável.
“Meu nome é Choi Dae-sung. Seja bem vinda.”

Acompanho a mesma mesura trocada com Yeon, minutos atrás.

“Ali Albandak.” – Murmuro. Afasto o insistente desconforto ao dizer a palavra.

“É sempre um prazer receber um Albandak.” – Ela continua, evitando o olhar do marido. – “Sempre notei que os membros de sua família são muito semelhantes, fisicamente. A senhorita me parece uma exceção.”

Compreendo a mensagem imediatamente, esboçando um calmo sorriso em seguida. Bastarda.

“Uma feliz exceção, eu espero.”
– Respondo, bem humorada, engolindo a farpa. Sinto o desconforto de Yeon e penso se seu rosto estático é capaz de fazer uma careta.

 
Ela sorri de volta.

“É claro que sim.” – Diz. – “A senhorita é muito bonita.”

Não tão bonita quanto a cantora, é o que eu noto segundos depois.
Seu cabelo tipicamente escuro está enrolado num coque frouxo, o tipo de penteado que demora horas para fazer, mas que soa ter sido feito despreocupadamente, em pouco tempo. Os brincos longos, mas finos e sutis, realçam o formato oval do rosto e o longo pescoço; superficialmente, ela me parece como todos os outros, mas há algo que a diferencia, um aspecto que não consigo notar com nitidez que faz com que sua aparência se destaque.
E pelo comportamento corporal do casal Dae-sung, suas relações com o governador vão além do profissional.
E pelo comportamento de Choi, ela não é a única.

Eu sou apresentada a diversos nomes e rostos, muitos deles membros influentes da Assembleia local, ou Assembleias de outras províncias. Guardo, em especial, a fisionomia e informações de Bae Keun-suk, o governador da província de Gyeongsang, a vizinha ao leste de Jeolla.
Há uma heterogeneidade compreensível entre as povíncias da Coreia. Os confrontos de 42 trouxeram tanta confusão cultural e ideológica que as antigas províncias do Norte e Sul se realocaram, reestruturaram-se e assumiram vozes independentes que gritavam interesses próprios. Na antiga Coreia do Sul, Jeolla e Gyeongsang eram divididas em duas, mas com os dois governos centrais desfeitos, norte e sul, e os prédios ainda fumegando pelos bombardeios, famílias impuseram sua dominação através da força militar nessas áreas, colocando as duas extensas faixas de terra ao sul nas mãos de famílias “militares” diretamente ligadas à China.
Puro jogo político. Estas são províncias litorâneas, na extremidade do país, e com Jeolla e Gyeonsang em mãos amigas da China, a potência assegura seus domínios de navegação no Mar Amarelo e no Mar do Japão.
E como eu sou uma das amigas da China, nós temos ligações em comum.

“Senhores.”
– Yeon murmura, pondo-se de pé na mesa, cerca de meia hora depois.
“Eu gostaria de agradecer pela presença de todos neste encontro, homens e mulheres que considero, além de colegas de assembleia, amigos íntimos da nossa família. Gostaria também de cumprimentar aos músicos pela excelência no trabalho.”    

Todos os músicos, sentados em seus bancos no palco, fazem mesuras às palavras do governador.

“Gostaria especialmente de salientar e agradecer pela presença de Ali Albandak,” – Inclino o tronco para frente numa mesura, estampando um sorriso, em movimentos mecânicos, como alguém que já o fez inúmeras vezes. – “Que demonstrou grande preocupação, interesse e colaboração em manter a paz e ordem em nossa província. Ali não é uma cidadã coreana, mas agiu como uma.”

Palmas e sorrisos condescendentes se seguem ao discurso.
Eis o verdadeiro motivo da minha estada na Coreia: Fui contratada por Dae-sung, cerca de dois meses atrás, para abafar e destruir, de dentro para fora, a articulação de uma revolta de cunho trabalhista. Uma alteração aprovada pela Assembleia na legislação trabalhista de Jeolla, uma alteração que afetava especialmente trabalhadores de classes baixas – como sempre –, gerou insatisfação, protestos e até mesmo atentados em diferentes cidades da província. Como Jeolla é cheia de estrangeiros de classe baixa, não foi difícil infiltrar um dos Hansson no seio da revolta, que depois de intrigas, calúnias plantadas e divisões ideológicas, foi enfraquecida até se dispersar e desaparecer.
E agora, com o governador desfrutando de plena estabilidade, eu vim buscar o que me cabe.

Minutos depois, com todos fora das mesas, Choi volta a se aproximar.

“Senhorita Albandak, poderia me acompanhar, por gentileza?”

Ela me guia pela saída do jardim até uma das entradas laterais da mansão.
No fim de um extenso corredor com janelões de vidro, sua mão gira a maçaneta de uma larga porta de madeira nobre, revelando um escritório.
Eu me mantenho parada, próxima à saída, enquanto ela move numerosas gavetas no canto esquerdo da saleta.

Nem todas as províncias são como Jeolla. Algumas delas, situadas nas regiões de centro do território coreano, são comandadas por empresários liberais ou até mesmo governadores eleitos diretamente.
Em K-Gangwon, a província ao nordeste que abriga territórios que pertenceram a Coreia do Norte e Sul, o palácio real faz a mansão de Yeon Dae-sung parecer um barraco.

“Meu marido mandou te entregar isto.”
– Ela diz, estendendo uma superfície envolta num tecido preto.

Uma escultura em cerâmica da deusa Guan Yin se revela por baixo do pano.
Fito o rosto sério de Choi por um segundo. Pressiono o dedo indicador na lateral da comprida escultura, suavemente, e como esperado, ela se abre.
Lá dentro, sobre um forro de camurça, diamantes.

“É um presente do governador.” – Murmura. – “Algo que com certeza não levantará suspeitas.”

Fecho cuidadosamente a “caixa secreta”, ouvindo o suave clique no final.
Não há mais nada a ser dito, então me dirijo para a saída da mansão.
Porém, lembro-me de uma coisa.
Com o olhar subitamente voltado para Choi, que permanece no mesmo lugar, eu digo…

“Está enganada sobre mim.”
  – Minha voz sai firme, inquestionável.
“Não sou uma das amantes do seu marido.”

O som dos meus saltos contra o chão liso é a única coisa que preenche meus ouvidos.
Na saída, descendo as escadas da residência ministral, encosto o celular em meu ouvido, logo depois de discar um específico número.

“Arjean.”
 – Murmuro, assim que ele atende.
“Estarei aí em 20 minutos.”