Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

29 de abr de 2017

Baed - Capítulo 4

BERLIM, 1º DE JANEIRO DE 2054, 0H05
O som dos fogos acima de mim se mistura aos gritos felizes das ruas.
As pessoas se abraçam, no típico rompante de amabilidade geral enquanto me embrenho pelas laterais das avenidas da capital alemã. O chão está totalmente coberto de neve, resultado de uma surpreendente nevasca, e apesar dos casacos, sinto meu corpo inteiro gelado.
Um xale de tom amarronzado, espessa lã, envolve e esconde meu cabelo e parte do meu rosto; com a mão envolta na luva de couro, sustento o tecido em meu nariz e boca, sentindo o aconchegante calor do agasalho.
Ninguém me nota, obviamente, quando viro a esquina.
A multidão dispersa ainda está entretida demais em seus falsos cumprimentos, nas bebidas, nas promessas vazias de ano novo e nos fogos de artíficio que explodem e colorem o céu sem estrelas. O metal gelado, proveniente da pistola que oculto no cós da calça, me gera calafrios a cada fricção.
Empurro a porta de um dos bares da rua.
Há música, som de vozes e risadas, copos trincando e outros barulhos mais suaves, como os das cartas de um baralho deslizando sobre a mesa. Da mesma forma silenciosa, me movo até o anexo aos fundos, drasticamente mais escuro do que o salão da frente, o local com ares de abandono onde Jurgen Schock me pediu para vir.
Ainda no corredor, sua figura surge.

“Sidney” – Ele diz. Capto o nervosismo em sua voz. – “Que bom que veio.”

“Você tem sorte de me achar com horário livre.”
  – Solto, com a voz leve.

Ele sorri enviesado, se permitindo relaxar por um instante.

“É ano novo.”

Jurgen me guia por outro corredor, com seus lentos passos, os passos que sua avançada idade de 75 anos lhe permite. É certo que os idosos atuais já não são limitados como os convencionais, mas Jurgen é um homem pobre, que viveu a vida para trabalhar e não teve acesso aos procedimentos que manteve gente como Beth e César Vaccari fortes por tanto tempo.
Vaccaris.
Já se passaram anos desde que deixei essa família para trás, mas ela nunca me abandona realmente.
Enxergo canos de plástico e metal, a maioria desgastados e soltos, sucata e restos de alguma ração estragada para animais no caminho à meia luz. No fim do corredor, a flácida e alva mão de Jurgen agarra a fechadura da porta.
O receio retorna ao seu rosto, e eu arqueio uma sobrancelha.
Ele lança outro olhar de hesitação sobre mim antes de abrir o cômodo.

Na quase completa escuridão da sala, enxergo apenas algumas largas prateleiras nas paredes. Ouço os passos arrastados do velho alemão por segundos até que a luz se acende.
Então, consigo observar com nitidez a imagem a minha frente.
Meu quase sorriso morre antes mesmo de nascer.

“Sidney”
– Ele diz, receoso, numa reação a minha mudança de expressão.

A minha frente, um garoto de cerca de 16 anos olha para mim com os olhos duros.

“O que significa isso?” – Pergunto, e minha voz já não soa leve.

“Sidney.”
– Jurgen se encoraja, dando um passo a frente. Meus olhos ainda estão fixos no menino.
“Este é Maik Fries. Fries, Sidney. É o irmão mais novo de Jorn Fries, lembra?”

Eu me lembro, e isso só piora as coisas.
Jorn Fries foi um dos que lideravam o grupo de rebeldes que tentou assassinar um dos Hansson. A nossa identidade é algo tratado no mais rígido sigilo, mas a informação sobre um de nós vazou. Os outros homens que estavam no ataque morreram lá mesmo, mas Jorn fugiu. Foi meu trabalho caçá-lo e silenciá-lo para sempre.
E agora Jurgen trás seu irmão aqui, para ver o meu rosto, sedento por vingança.

“Eu quero entender,” – Murmuro, entre dentes, voltando meu olhar para o homem idoso ao meu lado. – “Como uma pessoa tão inteligente como você fez uma estupidez como essa.”

“Sidney, por favor…”

“Eu insisti.”
– O garoto se pronuncia. Total altivez.
“Queria olhar o rosto da mulher que matou meu irmão.”

“Para contar para os seus amiguinhos rebeldes?” – Solto, e minha voz transparece o misto de desprezo e raiva. – “Jurgen, você…”

“Se tem alguém para acertar as contas aqui, esse alguém é comigo.”
  – O garoto ergue a voz.  

Observo o menino.
É muito jovem, muito magro, uma criança se aventurando num mundo no qual não conhece a magnitude, mas há dignidade, e até mesmo um senso de justiça em seus olhos. Ele é um daqueles garotos muito jovens e idealistas que são facilmente recrutados por grupos rebeldes espalhados pela Alemanha, para morrer no primeiro ataque armado no qual participam.
Se não morrem, começam a se tornar resistentes. Começam a se tornar homens.
Suspiro.

“E o que pretende?” – Questiono. – “Me matar?”

Ele aparenta, pela primeira vez, estar incerto.
Observo suas mãos, atenta ao qualquer puxar de uma faca ou arma de fogo.

“Não.”
– Ele finalmente responde. Passa-se um longo tempo antes que ele volte a falar…
“É verdade o que dizem? Que está com os asiáticos?”

“O que você poderia saber sobre os asiáticos?”

“Eles estão destruindo nosso país.” – Diz. Ele pisca algumas vezes, tentando formular as palavras. Sua voz está quase trêmula quando ele completa: – “E matando nossa gente.”
 
“Os rebeldes te ensinaram a dizer isso?”

Ele não responde.
Jurgen observa a cena com hesitação. Ele limpa as mãos suadas nervosamente no casaco.
Esse é um daqueles momentos em que o que restou da minha consciência entra em cheque. Ele é um garoto. Ele nem sequer veio armado, tamanha a sua ingenuidade. Eu me faço ainda mais cruel por ceifar sua oportunidade de se tornar um adulto.

“Não sente nada?” – Ele murmura novamente. – “A morte do meu irmão não significa nada para você?”

Significa.
O fantasma das pessoas em que eu matei são empurrados para um canto esquecido da minha mente a cada tiro dado. De vez em quando, eles aparecem nos meus sonhos. Geralmente os que saem da penumbra são meninos. Meninos como ele.
Mas esta é uma selva, no final das contas.
E neste caso, assim como em todos os outros, não posso deixar que ele viva, nem que veja minhas feridas sem colocar minha vida em risco.

Então, eu minto, antes de disparar o tiro…

“Não.” – Minha voz soa dura e apagada, como a vazia voz de um robô. – “Não significa nada.”

O impacto de seu corpo caindo gera um susto maior do que o tiro.
O silenciador evita que o som do disparo ecoe em todo o edifício, mas seu sangue se espalha pelo piso, gritando a existência de um assassinato.
Olho para o rosto assombrado de Jurgen.

“Eu te ajudo a levar o corpo.”
– Ele diz, minutos depois do silêncio sepulcral.

Idosos também costumam passear em meus pesadelos.