Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

29 de abr de 2017

Baed - Capítulo 3

ANCARA, 20 DE FEVEREIRO DE 2048, 7H
Eu não estou enganada.
Esse era o lugar perfeito para me esconder, e eu tomei todas as precauções necessárias. Ninguém me acharia aqui. Haviam vasculhado toda a Itália atrás de mim, depois que Liza morreu, e eu fiz o caminho contrário.
A Turquia é relativamente próxima dos Emirados Árabes, o lugar de onde vem os homens que desejam minha morte. Eles estiveram aguardando por um longo tempo, circundando os Vaccari como o urubu circunda a presa próxima da morte, observando-a agonizar; eu estava protegida pelos Vaccari, como um membro próximo à chefe, e eles observaram a máfia ser estraçalhada até o último obstáculo: Liza.
Agora que ela está morta, não há nada que impeça seu avanço.
A prova de que minha aposta estava certa é a notícia de que eles estiveram na França, e até mesmo na Inglaterra. Eles não sabem que estou próxima. Não sabem que eu arriscaria me aproximar estando sozinha.
Eles acham que eu estou com os Hansson, em algum lugar da Europa Central e Ocidental, mas não na capital da Turquia.
Eles ainda me subestimam, e isso é o que me manteria segura por tempo suficiente.

Corro até minhas pernas arderem, em busca da primeira aglomeração que me esconda.
Eles estão destruindo cada cômodo da casa onde eu estava, e talvez já estejam atrás de mim.
Eu posso escapar, é o que eu repito para mim mesma, incessantemente. Não é a primeira vez que a família do meu pai me quer morta.

“Sidney.”
– A voz de Nicolas me atinge, e eu paro tão bruscamente que perco o equilíbrio.

Ele se materializa em minha frente, em péssimo estado; roupas amassadas, cabelo desgrenhado, olheiras. Mas nenhum arranhão. Nenhuma respiração ofegante.
Ergo a arma em sua direção. Ele levanta as mãos.

“Calma.” – Ele começa. – “Vamos conversar, eu posso…”

“Você trouxe esses malditos.” – Murmuro, entre dentes.

“Eu não tinha escolha.”

“Nós éramos aliados!” – Grito. – “Nós éramos fiéis um ao outro!”

“Nós não somos, Sidney!” – Ele grita de volta. – “Nós éramos os Vaccari, mas eles não existem mais. Escuta, vá com eles. Eles vão te mandar assinar documentos antes de assassiná-la. Assine e eu te tiro de lá. Nós fugimos juntos. Vamos ser sócios.”

Eu emudeço, incrédula.
Meu esforço em perceber o ambiente ao meu redor é grande demais para que eu forme uma resposta.

“Sidney, é sua única chance.”
– Ele continua.
“Se não for agora, em algum momento eles vão pegar você. E você não vai ter a quem te ajude. Você sabe que eu sou bom, não sabe? Eu vou te tirar de lá, só faça o jogo. Faça o jogo deles.”

Meu dedo se move sobre o gatilho.
Ele se ajoelha, com as mãos no ferimento, a camisa larga recém tingida de sangue.
Seus olhos, de um castanho comum, estampam a incredulidade quando ele fita meu rosto. Nicolas me olha como se eu fosse a traidora, como se eu tivesse jogado sua confiança no lixo.
Avanço, encostando o cano da arma em sua testa.

“Eu pensei que…”

O som da bala atravessando seu crânio me faz tremer.
Me afasto de seu corpo inerte, olhando para os lados, incerta, tentando colocar os pensamentos em ordem.
Seu olhar acusador me segue por toda a rota de fuga.
Minha consciência denuncia o quão prematuro soou isso; ele poderia estar falando a verdade. Poderia não ser a melhor forma de resolver as coisas, mas se ele estiver certo? Se eu não tiver chances? Se eu não escapar dessa vez?
Afasto essas perguntas num gesto involuntário, e o tumulto mental me faz querer gritar.
Eu não poderia assinar os documentos.
Eu não posso ceder aos desejos dos Albandak. Eles me tiraram tudo.
O que Nicolas exigiu está além do que eu quero dar.