Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

29 de abr de 2017

Baed - Capítulo 2

BERLIM, 1 DE JANEIRO DE 2054, 3H11
O eco dos tiros ainda zune em meus ouvidos.
Minhas mãos, cobertas pelas luvas de borracha, esfregam a escova sobre o chão de madeira, enquanto minha mente repassa as palavras ditas há alguns minutos.
O produto que manuseio com cuidado é um limpador de piscinas, um líquido transparente que, além de seu declarado fim, possui a maravilhosa capacidade de remover todo e qualquer vestígio de sangue. Nem sequer um exame com luminol será capaz de dizer que houve um assassinato quando eu terminar.
Dois assassinatos, minha memória me corrige.

Meu esforço não é pela polícia, apesar de que uma ficha limpa não seja algo a se rechaçar em minha posição. Nos últimos anos, Berlim se tornou um grande campo de vigilância, onde todos possuem um luminol para detectar o que você fez, se você for relevante;
e eu, para o bem ou para o mal, estou na lista de alvos dos olhos invisíveis da cidade.
Olho para o cômodo fechado a minha volta, deixando escapar um longo e cansado suspiro.
Eu poderia ter acertado algum lugar onde não saísse tanto sangue de uma vez.
     Retorno ao trabalho, com o galão azul turquesa ao meu lado e uma dor nas costas, em meio ao escuro, ignorando o quão horrível soou meu último pensamento. Eu tento evocar doses controladas de compaixão em meio ao rompante de irritação pelo dono de todo este sangue, uma morte não premeditada, porém necessária, mas neste momento, não consigo sentir nada além de insatisfação.
Eu poderia ter passado um reveillon em relativa paz, sem correr riscos, silenciosa e discreta, bebendo qualquer coisa que espantasse o frio fadigante que penetra através de minhas grossas roupas. Foi uma morte estúpida. E diferente do que pensa o senso comum, atirar na cabeça de pessoas é algo que não me gera prazer algum.
Maldito Jurgen.
Acabo de perder um aliado. Não um influente, mas alguém que conhecia essas ruas e sabia caminhar sobre o campo minado. O odor enjoativo do sangue, já limpo, mas com seu cheiro e sua digital ainda impregnadas sobre o piso, se dissolve ao frescor do líquido. O galão achado numa de suas prateleiras me faz pensar se ele já teve cenas de crime para apagar.

Jurgen me ajudou a levar o corpo até um vala.
Era suficientemente profunda para os dois.

Berlim é como uma savana, com animais mais fortes e mais fracos, uma teia alimentar e um cardápio diferenciado para cada espécie, e num único passo em falso, você pode estar morto. Por mais que ele seja um dos poucos que conheceram minha história, a história dos Vaccari e dos Hansson, a história do James e de quase todas as pessoas com as quais me importei um dia, não posso me dar ao luxo de ter amigos. Se eu começar a fazer concessões e tolerar falhas, cairei numa armadilha.
Lembro-me do que foi dito por Beth, há longos anos.
Eu sou uma sobrevivente.
É meu último adjetivo restante, o único no qual posso pronunciar com interna firmeza.

Enquanto isso, na incomum tempestade de neve lá fora, animais bêbados e vulneráveis aguardam pelos predadores.