Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

29 de abr de 2017

Baed - Capítulo 1

PEQUIM, 13 DE NOVEMBRO DE 2054, 22H
Sexta-feira 13.
São as únicas estúpidas palavras que se formam em minha mente enquanto as algemas imobilizam meus braços, e os soldados, em suas fardas de um verde apagado doentio, apertam meus braços, empurrando-me para fora do saguão. Tropeço no início da escadaria, maldizendo o salto e o vestido longo, e o bracelete vermelho – estampando a estrela maior da bandeira chinesa –  dos homens que me conduzem é a última coisa que vejo antes do primeiro flash arder em meus olhos.
A imagem deplorável de Sidney Basner, tropeçando sobre os degraus da Yuan Dongli¹, uma das suntuosas propriedades presidenciais, algemada e escoltada por soldados aparecerá em todas as mídias em menos de duas horas, acompanhada do comunicado feito por um abatido primeiro-ministro, avisando à nação que o tão amado presidente acaba de ser assassinado.
O presidente mais popular desde a revolução.
Somente uma mafiosa sem escrúpulos como eu, uma bastarda ocidental, seria capaz de fazer algo tão execrável.

Eu ergo a cabeça, agarrando a dignidade que me resta, enquanto passo pelos jornalistas em direção ao carro.
Não me surpreenderia se os homens que me fotografam estivessem aqui a mando de Chen.
Frustração, essa tão familiar sensação, é o que me domina quando as portas do veículo se fecham atrás de mim. Foi uma ótima jogada. Assassinar o presidente quando eu estava na mesma sala, na hora exata em que tudo aconteceu, com pouquíssimas e questionáveis testemunhas. Quem questionaria o primeiro-ministro, quando eu estava lá dentro, num país tomado por nacionalismo?
Eu sou a perfeita pintura de uma assassina política, e isso é tudo o que as pessoas precisam.
Olho para o caro anel em meu anelar direito. Ele estampa uma ônix esculpida em formato retangular, e uma fina, reta camada de ouro puro circundando suas extremidades.
O presente me dado horas antes pelo presidente morto, estará manchado pelo meu sangue, em algum lugar da China, horas depois.
Firmo o olhar na estrada.
Eu sou uma mulher morta.
¹东丽 (dongli – pronúncia): poder, em chinês. Yuan: moeda oficial chinesa.