Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

11 de mar de 2017

Nail's Art - Capítulo 5

O final do expediente aproximava-se. Beth já estava calculando os valores e comissões da féria do dia, enquanto Léo resolvera manicurar-se.
A esta altura, o cabeleireiro já havia lixado as unhas e retirado as cutículas. Gostaria que Daniela tivesse feito o trabalho, mas a garota já estava em casa com as filhas. Teria de ser ele mesmo. Não era um especialista na arte, mas também não era tão ruim. Antes de iniciar o procedimento, Léo havia escolhido o esmalte vermelho vivo, que, aparentemente, quase todas as clientes estavam pedindo.
Léo agitou o vidro e, após destampá-lo, aproximava o pequeno pincel encharcado do produto quando escutou uma batida na porta. E então, quando Eduardo Toffani entrou, o cabeleireiro paralisou, com o pincel molhado há quinze centímetros de sua mão esquerda.
Tinha fascínio por homens mais velhos, e Eduardo, além da genética lhe ter sido generosa, ainda aparentava uma aura de poder. Léo não tinha a menor ideia de quem era aquele homem, não imaginaria que, em pouco tempo, Eduardo seria eleito prefeito de uma cidade próxima, mas algo no ar mudou após o mais jovem dos garotos Toffani entrar no recinto. Poderia jurar que a temperatura teria baixado um ou dois graus.



- Boa noite [disse Eduardo, sempre cordial]. Vocês ainda estão atendendo?

- Claro… [disse Beth, também impressionada com o homem]

- Quanto está o serviço de manicure?

- Ah. Perdão senhor, nossa manicure nã…

- Ei! Pode deixar, eu faço! [adiantou-se Léo, fechando o vidro de esmalte]

Beth franziu as sobrancelhas, e encarou o cabeleireiro, sem entender. Mas, pela prontidão com que Léo se dispôs a realizar a tarefa, resolveu não falar nada. Nunca se nega serviço a um cliente em potencial, e algo lhe dizia que Léo iria caprichar.

- Que ótimo! [continuou Eduardo] Quanto custa para fazer as mãos?

- Ah. Doze reais para você, moço.

- Bem, não é para mim, é para a minha filha.

Disfarçadamente, Beth mordeu os lábios para não rir. Talvez o cliente não percebesse, mas, para quem o conhecia bem, a decepção no rosto do cabeleireiro foi bem visível.

- Elisa? Elisa?! [Eduardo chamara a atenção da filha]

Elisa voltou-se para o pai. Estava distraída e curiosa com a movimentação da rua. Pareceu-lhe que uma moto passou em alta velocidade e, em seguida, retornou pela mesma pista, passando mais devagar, como se estivesse procurando algum endereço. Claro, estava escurecendo, e a garota não podia ter certeza. Por isto, resolveu deixar para lá.

- Sim, pai?!

- Pode passar com aquele rapaz alí.

- Sim, querida [disse Léo]. Já pode escolher uma cor.

- Quanto tempo demora, em média? [perguntou Eduardo]

- Ah, só a mão?! No máximo meia hora.

- Certo. Bem, vou alí no mercado e volto em meia hora então, pode ser?

- Claro. À vontade [disse Léo]

Elisa queria ter falado ao pai a respeito da moto suspeita que vira. Mas, ao ver o esmalte que estava na mesinha de Léo, esqueceu tudo imediatamente. Teve de pegar o vidro, desenroscar a tampa e ver bem de perto, pois a cor vermelha do produto possuía uma beleza quase palpável.

- Vou querer esta aqui! [disse animadamente a garota]

- Ótima escolha, ahn…. Elisa, né? [disse Léo, dirigindo-se para a mesinha] Todo mundo tem escolhido esta cor ultimamente.

Eduardo agradeceu a atenção de Beth e havia feito menção de sair. Mas, antes de chegar ao umbral, virou-se para a proprietária.

- Perdão… posso usar o banheiro antes de sair? [perguntou o cliente]

- Claro. É logo alí, à esquerda.

O policial dirigiu-se para o banheiro, e, no instante em que encostou a porta do pequeno cubículo, a porta de correr da entrada do salão foi aberta, surpreendendo Beth, que calou-se ao ver a arma na mão de M. apontando para seu peito.

***

- Passa a grana, vadia! [gritou M., para Beth]

O marginal havia engatilhado a arma, e a balançava diante de Beth. A cabeleireira ficou sem reação, sentindo a boca secar, e as mãos não obedecerem.
O som do tapa que M. deu no rosto da mulher fez eco. Horrorizado, Léo deu um grito agudo, o que chamou a atenção do assaltante, que não prestara atenção na sala de unhas.

- Olha… [disse M., maliciosamente, aproximando-se de Elisa] O que temos aqui…

- P-por fa-favor, mo-moço… [pedia Léo, segurando o vidro aberto de esmalte] não nos machuque.

Uma coronhada no rosto do cabeleireiro arrancou, desta vez, um grito de Beth. Léo imediatamente levou uma das mãos ao local da pancada, e teve a vista turvada ao ver o sangue que jorrava de seu supercílio. O vidro de esmalte girou no ar ao escapar dos dedos de Léo, sujando as pernas de M., que usava uma curta bermuda, antes de espatifar-se no chão.

- Machucar?! [falou M.] Um tipo que nem tu só matando mesmo! Viado de merda! [virou-se para Elisa, que se encolhia na cadeira, buscando uma proteção que, conscientemente, sabia não existir] Já tu… Tu eu ia querer machucar… machucar bem gostoso…
M. estava de pé, Elisa tinha o rosto a poucos centímetros da cintura do rapaz.

- Mo-moço… [disse Beth, saindo do transe, com o rosto inchando] Pegue o dinheiro. Pegue tudo o que quiser, mas,  por favor, não a machuque, é só uma criança.

- Criança é?! [disse M., acariciando o rosto sério de Elisa, que lutava para não demonstrar fraqueza]

Tem razão, é só um bebê… todo bebê gosta de mamar, não é?
Com a mão livre, enlaçou os cabelos de Elisa, puxando seu rosto para mais perto da virilha, onde uma ereção era visível por qualquer ângulo. Utilizando o cano da arma, tentava baixar a frente da bermuda, quando uma forte dor, precedida de um estampido, o atingiu.
Sua bermuda azul imediatamente coloriu-se de vermelho na altura do púbis. M. respirou fundo e, já sem forças, soltou os cabelos de Elisa, que se enfiara ainda mais na cadeira. Ao averiguar o ferimento, viu que seu pênis fora dilacerado com um tiro. Jamais ficaria ereto novamente.
Ainda em choque, sem poder falar ou entender o que se passava, o rapaz lentamente subiu o olhar, e se deparou com um homem bem vestido, semi oculto pelas sombras na sala de corte e tintura com as luzes ainda apagadas, apontando-lhe um Colt fumegante. M. reagiu, erguendo a mão com a sua pistola o mais rápido que pôde.  Não foi suficiente.
Um novo tiro atingiu-o no centro do peito, causando-lhe uma morte instantânea, atirando-o contra a parede azul. Enquanto o corpo já sem vida do rapaz deslizava lentamente na vertical, Eduardo disparou pela terceira vez. A bala penetrou-lhe o olho direito, deixando um enorme buraco de saída na parte de trás da cabeça. Uma massa de sangue, miolos e cérebro subia quase até o teto no local da chacina.
O corpo do marginal tombou para a direita, batendo contra o piso lajotado. O sangue escorria abundantemente, formando uma poça ao redor da cabeça. Um único olho sem vida fitava Léo que, nunca tendo visto nada parecido, esvaziara a bexiga. Só muito mais tarde o cabeleireiro fora perceber a gafe que cometera.

***

Ao ouvir três tiros enquanto aguardava o colega, L. H. mentalmente avaliou suas opções: fugir e deixava o amigo se ferrar sozinho na mão da polícia (quem mandou aquele idiota atirar?! E TRÊS vezes!) ou aguardava e fugiam juntos, e aguentavam juntos as consequências.
Escolheu a segunda opção. Afinal, M. fora compreensivo quando L. H. falhara no roubo ao motel. E, mesmo que fugisse, estaria ferrado, já que não teria dinheiro. Não iria muito longe e ainda teria de fugir simultaneamente da polícia e do traficante para quem devia uma nota preta.
Como M. estava demorando muito, L. H. empunhou seu .38 apenas por precaução (afinal, mulheres e gays não usam armas) e resolveu entrar no salão. Talvez o comparsa tivesse muitos reféns para limpar.

***

Elisa correu para abraçar seu pai, já não conseguindo segurar o choro. Eduardo a abraçou fortemente, pensava em como gostaria de ter sido tão ágil assim tempos atrás.

- Você está bem, fi…

Pelo canto do olho, através da visão periférica, viu um vulto aproximar-se da porta de entrada. Empurrou Elisa para o lado e novamente tentou engatilhar a arma, mas não foi rápido o suficiente. Um tiro no ombro o fez cambalear e cair ao tropeçar em uma cadeira de corte. A arma escapou de sua mão, e a dor onde foi atingido era enorme. Sentiu todo o braço inutilizar-se. A bala devia ter atingido algum tendão.
L. H. adentrou no salão e encostou a porta de entrada. Ficou boquiaberto com a cena que viu. Sentiu o estômago contrair-se e, sem poder controlar, dobrou o corpo e vomitou sobre o cadáver mutilado do amigo. O cheiro de vômito, sangue e excrementos tornava a respiração dentro do salão uma tarefa hercúlea. Zonzo, o bandido desequilibrou-se e tombou para a frente. Para não cair sobre seu almoço parcialmente digerido, levou a mão ao piso, sobre uma mancha vermelha que parecia deslocada da cena do massacre. Mais tarde, a perícia constataria ser esmalte misturado a sangue.
Com os olhos injetados, L. H. se reergueu, e sem olhar previamente, abriu fogo contra o local em que Eduardo estaria caído. Tomado pelo ódio, só parou de atirar quando o tambor da arma girou vazio, sem projétil. Somente após os estrondos dos disparos L. H. percebeu que o homem que ele derrubara anteriormente já não estava mais onde havia tombado.
Um silêncio, entrecortado apenas pelo choro baixo de Elisa, Beth e Léo, pairou sobre a cena. Sem entender, L. H. virou-se para a saída. Não teria muito tempo para fugir. Ao abrir a porta, assustou-se ao se deparar com Eduardo. A última visão que teria.
Um tampo de privada de mármore atingiu o alto da cabeça do assaltante. Apesar de só ter um dos braços em condições plenas, anos de academia e treinamento deram uma enorme força ao policial. L. H. ouvira um som parecido com um galho se partindo e depois apenas escuridão.
Mesmo com o rapaz caído à sua frente, Eduardo juntou o tampo de mármore e o deixou cair sobre o crânio do adolescente uma segunda vez. E  uma terceira. Quinta. Oitava… Seu terno já estava encharcado de salpicos de sangue e a cabeça de L. H. parecendo o recheio fumegante de uma torta de morangos recém saída do forno quando o policial decidiu que já era suficiente.

- Ligue… ligue para a polícia, por favor. [pedia exausto o homem]

Enquanto Beth ligava, Elisa, aos prantos, correu e abraçou o pai, desta vez com jeito, para não machucá-lo.

- Desculpe pela janela do banheiro… [disse Eduardo, sorrindo debilmente para Beth] Não tinha outro jeito, senhora.

Como há 26 anos, Eduardo não conteve as lágrimas. Mas desta vez, não eram de tristeza, já que podia abraçar fortemente e ser abraçado por alguém que amava depois de tudo.