Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

16 de fev de 2017

Sentença (fúria season 3) - Capítulo 81 - Último capítulo

WILL
Ergo o caixão suntuoso de Liza, minha mão agarrada numa das quatro argolas anexadas às laterais dele. Ao meu lado, um caixão idêntico foi reservado para Jennifer.
Seu corpo não foi conservado na explosão. Lembrar de sua aparência desfigurada quando o encontraram torna tudo mais difícil.
Os dois caixões são tingidos de um preto envernizado, profundo, e há detalhes em ouro no centro e nas laterais.
Acompanhado de um grupo de, no máximo, vinte pessoas, caminho em direção à câmara onde os corpos de Liza e Jennifer descansarão, dentro de grandes caixas de mármore escuro com seus nomes inscritos.
Muitos dos que estão aqui são homens que trabalharam para a Liza, e para os Vaccari.
Todos caminham com discrição, no mais profundo silêncio, e dois deles carregam o caixão comigo.
Os que não possuem ligação com os Vaccari, são pessoas aleatórias que se sensibilizaram pela Jennifer.
Não pela Liza. Para essas pessoas, ainda que não se permitam reconhecer, Liza foi uma criminosa que teve o que mereceu.
Jennifer, no entanto, era uma garota de 14 anos, que nada tinha a ver com seus crimes.



Ouço as palavras do padre na cerimônia fúnebre, instante depois, e todo o seu discurso escorrega para fora de minha mente.
Com os olhos fixos nos dois caixões a minha frente, pousados em cima da tampa de mármore, penso no quão decadente está sendo seu velório.
Não foi isso o que imaginei para ela, muito menos para Jennifer.
Imaginei velhice, filhos, netos e uma família de verdade, que choraria sem pudores, sem pessoas correndo riscos de ser encontrados e presos depois do funeral.
Entretanto, eu sou o único membro familiar presente.
A única família que restou.

Eu me nego a dizer algo em homenagem às duas, e o padre encerra a rápida cerimônia.
Meus gestos são mecânicos, ajudando os homens a arriar os caixões nos sepulcros, lado a lado. Quando a tampa é fechada, leio seus nomes esculpidos na pedra:

Eliza Shrader Vaccari
    1992 – 2047

Jennifer Vaccari Richmond
     2032 – 2047

Permaneço com o olhar em seus nomes por um longo tempo, ouvindo os passos de pessoas se afastando.

DIANA
Subo as escadas de uma das câmaras do cemitério em Nápoles.
Will quis que a esposa e a filha fossem sepultadas na Itália, ao invés do Brasil.
Meus cabelos, agora limpos e livres de resíduos de sangue e pele, estão presos num coque que esconde minha ferida, sem necessariamente incomodá-la. É o tipo de penteado que pretendo usar durante longos meses, até que as coisas voltem ao normal.
Também uso uma blusa sem mangas, preta, abandonando o receio de mostrar os resultados do acidente às pessoas ao meu redor. Tudo o que eu tinha para dizer sobre o acontecido, já foi dito. Não há nada que eu precise esconder sobre a morte da Jennifer.
Nesta expressão acima, entretanto, pode conter uma ressalva; Arjean. Ainda temos o nosso acordo de não revelar nossa antiga relação, a menos que se trate de uma questão de emergência.

Quando entro na câmara, com suas paredes desbotando tinta envelhecida, Will é justamente a única pessoa que encontro. Ele está com seus óculos escuros pendurados na gola de sua camisa, e seus olhos estão vermelhos.
Seu olhar me encontra, logo quando ultrapasso a porta.
Eu não sei como ele está em relação a mim, então me aproximo dos sepulcros sem dizer uma palavra.

No centro da saleta, dois largos sepulcros de mármore, de mesmo tamanho, estampam os nomes de Liza e Jennifer, seus sobrenomes, datas de nascimento e óbito.
As duas únicas janelas, estreitas, estão fechadas, e há uma grossa camada de poeira nos vidros.
O ambiente interno me faz lembrar uma capela.
É um lugar reservado, vedado e intocado, perfeito para guardar o corpo de uma mulher que colecionou inimigos numa vida nada tranquila.
Haverá paz em seu túmulo, no local onde ele foi posto.

“Me conte sobre o acidente.”
– A voz de Will soa, repentina e rouca. Encaro seu rosto, surpresa, enquanto ele percorre nervosamente seu olhar pelos cortes em meus braços.
“Eu quero saber. Acho que estou pronto.”

Desde nosso último encontro até aqui, se passaram dois dias.
Dois dias onde nenhum de nós dois tentou fazer qualquer contato.

“Estávamos no carro, juntas, no banco do passageiro.”
  – Começo.
“Ela estava dormindo quando aconteceu. Foi muito rápido. Só me lembro de ter me encontrado momentos depois no asfalto, no meio da rua, com dor e sangrando. Eu estava a uns 100 metros do carro, senti dificuldade para respirar, mas fui atrás dela. O carro bateu num poste, rompeu fios de alta tensão que ficaram soltos, perto da calçada. O combustível estava vazando, eu me apressei, mas...”

“A polícia encontrou resquícios de uma bomba dentro do carro, na parte traseira.”
  – Ele interrompe.
“Segundo os técnicos, a bomba possuía um detonador próprio, mas também poderia ser acionada se submetida a calor.”

Minha mente retorna ao momento do acidente, e suas palavras se encaixam.
Por isso a urgência de Arjean em me afastar do carro.

“Foi ele, não foi?”
– Murmura.
“Foi seu ex-marido que te tirou de lá. Você não se afastaria do carro por si, e a explosão teria te matado. Não houve registro seu em hospital, mas seus ferimentos receberam cuidados. E ele trabalhou para o César. Ele teria acesso a esse tipo de informação.”

Confirmo com a cabeça.
Não consigo retirar a sensação de que, para César, sua própria morte foi intencional.
É como se ele desejasse isso como último ato; matar todos os Vaccari restantes antes de morrer.

Nós caímos num silêncio profundo, então, tão contrastante com o som de nossas vozes há segundos.
Em cantos opostos da sala, observamos as mortes de Liza e Jennifer Vaccari, com emoções instáveis e perspectivas incertas para o futuro.