Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

16 de fev de 2017

Sentença (fúria season 3) - Capítulo 80

MADALINA
32 horas antes
Quando entro num dos poucos andares que funcionam a este horário, no alto e translúcido prédio da Interpol, me deparo com quase todas as luzes apagadas, e poucas pessoas sentadas em frente às telas dos computadores.
No final do corredor, Mogherini mexe em pastas organizadas numa longa prateleira.
Caminho rápida e resoluta em sua direção, e ele não demora muito para notar minha presença.

“O que está fazendo aqui?”
 – Ele pergunta, num tom baixo de voz.

“Precisamos conversar.”

Mogherini me guia até uma das salas.
Observo, em silêncio, suas mãos fechando a porta. Após inspecionar as janelas, Arthur volta-se para mim, cruza os braços sobre o peito e murmura...

“Então,” – Diz. – “O que tem a dizer?”

“O Agente Habsburg foi raptado.” – Revelo. – “Por um grupo de ascendência chinesa. Ele sabia que estavam vindo buscá-lo, mas não me deu nenhuma informação sobre o que se trata.”

Ele não responde.
Seu corpo permanece imóvel, na mesma posição, e ele apenas pisca; entretanto, consigo captar o desconforto de quem conhece o assunto, em sua expressão.
Mogherini parece medir as palavras por longos segundos.



“Como conseguiu escapar?” – Pergunta.

“Havia uma saída secreta na casa. Eu usei.”
 – Digo.
“Depois, segui a pé até aqui. Mogherini, o que está acontecendo?”

Ele olha para trás, como se temesse a chegada de alguém.

“Habsburg é a terceira vítima.”
  – Ele afirma, finalmente.
“O primeiro ataque foi no ano passado. A ex-secretária pessoal do presidente da principal empresa de extração de petróleo na Arábia Saudita sumiu misteriosamente, dias depois do seu pedido de demissão. Ninguém tratou o caso como algo relevante, o inquérito foi arquivado porque nem sequer haviam evidências que caracterizassem o sumiço dela como um crime. A família e a polícia local que investigou o acontecido esperou que alguém ligasse pedindo um preço pelo resgate, mas passou-se meses e ninguém ligou. Fizeram buscas pelo corpo, mas não encontraram nada. O último local onde ela esteve não apresentou manchas de sangue nem sinais de luta corporal. É como se ela tivesse evaporado. Um crime do mesmo perfil aconteceu de novo no início deste ano, e foi quando a Interpol começou a prestar atenção. A última vítima foi um homem britânico, Benjamin Miller, redator de um jornal virtual, presidente de uma ONG ligada à defesa de energia limpa, que havia feito um longo estudo sobre a versatilidade do etanol para as indústrias de países desenvolvidos. Eu li o estudo. É o esboço de um país fazendo mudanças e investimentos para adequar o mercado e a indústria a uma substituição gradativa do petróleo para essa nova fonte, mais limpa, e segundo o próprio Miller, ainda não suficientemente aproveitada. Sabemos que o assunto agora é algo que interessa países que desejam se tornar menos dependentes de países fornecedores de petróleo, principalmente os EUA, que vê a crescente influência da China sobre países da Ásia ocidental como um risco. Então, começamos a pensar que esses podem ser crimes políticos, e o fato de Habsburg ter sido capturado por um grupo de ascendência chinesa só reforça nossa tese.”

“Acha que a China está financiando um grupo criminoso para fazer esses ataques?”

“Acho.”
– Ele responde.
“Todas as três vítimas possuem informações relevantes para o governo chinês, e nenhuma delas tem visibilidade suficiente para causar alarde. Por mais que Benjamin Miller seja um jornalista relativamente bem sucedido, sua coluna no jornal não é muito famosa. Quanto ao estudo, o que me parece surpreendente é que pouca gente se interessou por ele. O petróleo virou um ponto fraco para os EUA. É nítido, e compreensível que o atual governo americano esteja interessado em outros meios que minimizem sua dependência, e se essa iniciativa estiver realmente acontecendo, bom, seria interessante para a China conhecer o processo.”

Meu receio se torna mais latente a cada palavra dita por Mogherini.
Então, como se ele acabasse de lembrar um último argumento, ele volta a falar...

“Você tem mais informações que Habsburg atualmente, mas então eles não te transformaram num alvo? Por que? Porque você tem visibilidade.” – Diz. – “A imprensa fala de você. Você está nos jornais, mas não por muito tempo. A partir do momento em que esta investigação estiver caído no esquecimento, o que não vai demorar, você pode se tornar uma vítima. Habsburg foi muito nobre em ter te mandado para a saída secreta, ao invés de ir junto com você ou exigir que você o ajudasse a resistir.”

Sim, é o que penso.
Se Hector fosse comigo, os chineses iriam procurar por uma saída secreta, o que colocaria nós dois em risco. Se ele me deixasse ficar, nós dois poderíamos estar mortos ou presos.
Mas pelo menos, iríamos chamar a atenção. Seria o primeiro crime com barulho e rastros deixados.

“O que acontece com as vítimas?”
   – Pergunto, receosa.

“Ninguém sabe.”

“Mas você vai fazer alguma coisa, não é?”
 – Murmuro. Quando não noto reação sua, insisto:
“É um agente da Interpol, Arthur. Ele não é um civil comum. Você tem a obrigação de...”

“Nenhum deles é um civil comum, Madalina.” – Interrompe. – “O que você quer que eu faça? Dizer a imprensa que a China está sequestrando pessoas para roubar informações sobre diferentes governos do mundo? Mesmo que eu tivesse provas disso, o que você acha que isso causaria? O que você acha que os governos fariam?”

“Alguma coisa você precisa fazer.”

“A única coisa que eu farei,”
– Ele murmura, caminhando em direção a porta.
“É ocultar Hector Habsburg do banco de dados. Este é o procedimento padrão.”

DIANA
Há uma nada habitual aglomeração na frente do hospital.
Policiais formam e vigiam uma faixa de contenção que se estende por toda a fachada do prédio; de um lado, policiais e funcionários andam de um lado para o outro nos corredores; do outro, jornalistas apontam suas câmeras para um homem desconhecido que presta esclarecimentos.
Mostro o distintivo e me agacho, ultrapassando a faixa amarela.
Depois de Arjean, tive tempo apenas para passar em meu apartamento e pegar um blazer qualquer e uma touca de lã. Por mais que seja verão no Brasil, usar roupas de frio é menos chamativo do que exibir as feridas recentes em meus braços e cabeça.
A ala correspondente aos leitos de Liza e César está um caos, o que me soa como um péssimo sinal.
Abordo uma das funcionárias em pijama hospitalar verde que caminha pelo corredor.

“Bom dia, o que está acontecendo?”
 – Murmuro, num português arranhado.

 “Liza e César Vaccari estão mortos.”
– Ela responde.
“Foi um Deus nos acuda. A equipe médica e os enfermeiros ouviram sons de tiro na madrugada, quando vieram averiguar, César Vaccari estava na cama apresentando uma parada respiratória, com uma pistola na mão, e o corpo de Liza estava no chão, ensanguentado.”

Fico estática por longos segundos, em choque.
Minha boca sussurra um fraco “obrigado”, e a moça some nos corredores.
Começo a repassar suas palavras ditas na última vez em que a vi em busca de alguma palavra, alguma insinuação de despedida. Meu pescoço volta-se para meu lado direito e eu encontro Will, sentado num banco com as mãos em sua cabeça.
Me aproximo com cautela, me sentindo culpada e hesitante.

Quando Will nota minha presença, sua primeira reação é levantar-se da cadeira, me envolvendo num abraço. Seu rosto se afunda na curvatura do meu pescoço e eu posso sentir os soluços reprimidos que ameaçam se romper em sua garganta.
Seus dedos agarram o tecido do blazer, amassando-o com força, numa tentativa de liberar energia contida em forma de tristeza, angústia e raiva. É uma sensação de certa forma conhecida para mim, mas não a estas dimensões.
O atrito que seu gesto causa entre o tecido e a pele sensível por baixo dele, envia pontadas de dor que não ouso externalizar. Quis esconder minhas feridas principalmente dele.
Agora que Liza está morta, e eu enxergo o sofrimento devorando-o por dentro, estou ainda menos inclinada a contar sobre Jennifer.

“Ela foi até seu quarto para matá-lo.”
  – Ele murmura, com a voz embargada. As costas de suas mãos enxugam as lágrimas rapidamente, e ele tenta se recompor antes de voltar a dizer...
“Injetou uma dose letal de morfina no tubo de soro. Antes de morrer, ele deu três tiros nela.”

Ele se afasta e começa a caminhar em círculos, nervoso como um animal enjaulado.

“Eu deveria ter alertado a segurança.” – Diz. – “Não podia confiar em sua debilidade ou seu bom senso. Ela tentaria algo assim, eu deveria ter imaginado...”

“Não se culpe.” – Murmuro.

A consciência de que esta é a mesma frase dita por Arjean a mim momentos antes, retorna meus pensamentos à Jennifer.
Um nó se forma em minha garganta.

Will volta-se para mim e abre a boca, como se pensasse em dizer algo, mas seus olhos param em minhas mãos e ele se cala.
Sua mudança de expressão me deixa nervosa.

“O que é isso em sua mão?”
– Ele pergunta, agarrando minhas mãos cheias de arranhões.
“Por que suas mãos estão assim?”

Engulo em seco.
Ele fixa um olhar exigente em mim, aguardando por minha resposta. Quando ela não vem, ele insiste...

“Você está usando touca e blazer em pleno verão brasileiro.” – Nota. – “Por que você está machucada, Diana?”

“Eu sofri um acidente.”
  – Respondo, relutante.
“Ontem... Quando eu estava no carro com a Jennifer.”

Ele solta minhas mãos.
Me sinto horrível, mas não posso parar. Não seria justo, nem sensato deixá-lo sem saber.

“Nosso carro foi atingido e eu fui arremessada para fora. Estou usando touca e blazer porque há feridas em meus braços e cabeça. Jennifer ficou no carro.”
  – Digo. Posso enxergar o desespero em seus olhos, conforme avanço, mas não paro de falar.
“Eu tentei, Will. Tentei tirá-la do carro, mas...”

“Não.” – Interrompe. – “Não diga mais nada.”

Ele se afasta e caminha pelo corredor, mergulhado num silêncio sepulcral.
Então ele retorna, senta-se na cadeira e retorna àquela antiga posição; inclinado, com as mãos na cabeça e os cotovelos apoiados em suas coxas.

“Will...”
– Murmuro, num fio de voz.

Não consigo discernir se meu chamado é uma tentativa de acalmá-lo, ou de me desculpar por ter permitido que isso acontecesse a sua filha.
Por ter despejado em seus ombros outra notícia devastadora, quando ainda nem sequer havia se recuperado da primeira.

“Eu sei que a culpa não é sua, Diana.”
 – Ele diz, instantes depois. Seus olhos se focam em algum ponto aleatório, longe de mim.
“Mas neste momento, eu estou tentado a descontar em você, então, me deixe sozinho. Por favor.”

Aceno com a cabeça, em afirmativa, apesar de saber que ele não verá meu gesto.

“Como quiser.” – Murmuro.

Então eu volto a caminhar, em direção a saída do corredor, e aos fundos do hospital.
Assim como Will, eu preciso de um tempo sozinha.
Preciso me preparar para declarar a morte de Jennifer para a polícia.