Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

15 de fev de 2017

Sentença (fúria season 3) - Capítulo 79

LIZA
Aguardo na escuridão do quarto, no mais profundo silêncio, o som discreto da troca de guardas.
Nos últimos dias, depois que recobrei a consciência e não consegui dormir durante a madrugada, passei a dedicar o tempo livre em observar a rotina das sombras que se colocam todas as noites em minha porta.
São 3h05 da manhã, e este é o exato momento da troca de guardas.
Assim que me certifico de que os primeiros já foram embora, me ponho em movimento.
Abro a porta com cuidado, atenta à entrada do corredor.
Usar o curto período de dois ou cinco minutos da troca é um velho artifício, e penso que estavam suficientemente seguros da minha invalidez para que permitissem esse tipo de falha. Outra falha estava nas gavetas de uma cômoda em meu leito, todas trancadas, que descobri conter seringas em embalagens vedadas, e algumas drogas de líquido transparente em pequenos recipientes.
Todos pensaram que eu permanecia em algum estágio letárgico por causa dos antibióticos, e num dia em que eu estava quase dormindo, vi uma enfermeira abrir uma das gavetas.
A única coisa de que precisei foi um objeto fino, como uma lasca de madeira ou metal enferrujado, para arrombar a tranca.



Meus pés descalços se movem em direção ao quarto de César.
Depois que refleti sobre tudo o que foi dito nas últimas semanas, descobri que já não necessitava de César como eu pensava. Entretanto, a ligação de César e suas insinuações quanto a minha filha, foram tudo o que eu precisava para tomar uma decisão.
Como imaginei, não há guardas próximos ao leito dele.
Abro a porta com cuidado, minha mão direita agarrada à seringa, positivamente surpresa com minha atual tranquilidade.
Sempre pensei que este seria um momento de impulso, onde todas as razões que motivam meu ódio pelo César passariam por minha mente num turbilhão. Entretanto, ela está limpa, meus pensamentos estão em ordem como dificilmente se viu nesses últimos meses, e eu me sinto segura.
Sinto como se estivesse fazendo a coisa certa, num momento perfeitamente calculado.

No quarto idêntico ao meu, um César mais magro e abatido se revela em minha visão. Seus olhos estão fechados, parados, sua respiração é regular e somente agora eu posso ver com maior nitidez, os sinais de sua avançada idade.
César trabalhou durante anos para parecer mais jovem.
Cuidou da aparência, dos hábitos alimentares, tomava vitaminas e substâncias que o mantinham com energia, fazia procedimentos estéticos para aplacar qualquer resquício de fragilidade.
Seus esforços não o tornavam mais feio ou mais bonito, mas também não é com isso que ele se preocupa. César ainda é um líder, um líder em avançada idade, que não pode demonstrar fraqueza aos seus comandados.
Contudo, consigo enxergar sua verdadeira idade, e suas limitações nesta cama.
Seu pescoço flácido e o rosto ossudo pela perca de peso lhe conferem uma aparência doentia; as olheiras profundas e amareladas demonstram que ele também enfrenta problemas para dormir.
Longas faixas se enrolam em seu abdômen, o local onde ele levou meu tiro, e a pele de suas mãos está fina e ressecada.
E há a palidez, que contribui com sua imagem decadente.
Seria até um alvo de compaixão, se eu não o conhecesse.

Me aproximo devagar e silenciosamente de sua cama.
Observo o fio transparente que injeta soro diretamente em sua veia. Ergo a seringa cheia até a máxima capacidade de uma dose mortal de morfina.
Com dedos calmos e precisos, injeto o líquido no fio, aguardando com paciência até que caia a última gota. Em segundos, seus aparelhos vão apitar avisando uma parada respiratória.
Afasto a mão do tubo, e o cano gelado de uma pistola se encosta em minha cintura.

Olho para o lado, e César me encara fixamente com seus olhos escuros.

“Sempre previsível, não é, Liza?”

A dor repentina acompanha o barulho do tiro.
Ouço o mesmo som outras duas vezes. Meu corpo desaba no chão e minha visão borra, enquanto luto para respirar.
Olho para meu roupão branco.
As manchas de sangue vermelho-vivo é a última imagem que vejo antes da realidade sumir.
Sinto não poder retornar.

DIANA
Acordo num cômodo muito claro, com raios de luz aquecendo meu rosto.
Me sinto limpa, deitada sobre travesseiros e lençóis macios, mas quando me movo, uma pontada de dor surge em minha cabeça, me fazendo lembrar tudo.
O impacto do carro.
Jennifer presa nas ferragens.
Os fios desencapados.
O fogo, e a explosão.
Cubro o rosto com as mãos, repentinamente aflita.

“Não se culpe.”
– A voz de Arjean surge. Olho para sua imagem encostada na sacada do quarto. Ele não olha para mim quando completa...
“Não havia nada que você pudesse fazer para evitar.”

Mil perguntas se formam em minha mente, mas não sinto a vontade de pronunciar nenhuma delas.
Ao invés disso, meus olhos se enchem de lágrimas e eu soluço, do nada, voltando a cobrir o rosto com as mãos.
Meu corpo se move em espasmos enquanto choro, e eu sinto como se uma dor interna empurrasse, pesadamente, as lágrimas para fora.
A mão quente de Arjean pousa e se mantém parada em meu tornozelo, e eu sinto o colchão ceder com seu peso.
Jennifer está morta.
Isso era tudo o que Liza tentou evitar quando me pediu para protegê-la.

Com os olhos inchados e mais calma, minutos depois, eu volto a olhar para ele.
Arjean permanece imóvel, com a mão no mesmo lugar, sentado na ponta da cama.
Não há julgamento, pena ou mesmo preocupação em suas feições. É como se ele estivesse prevendo o tempo todo minha reação.
Observo meu próprio corpo.
Estou vestida num conjunto de blusa e shorts brancos, limpos. Há curativos em meus braços e uma única camada de atadura em torno da minha cabeça. Ele nota meu olhar inquieto pelo ambiente e se apressa...

“Suas roupas foram levadas para lavar, em breve estão voltando.”
  – Murmura.
“Havia um rasgo lateral em sua calça, então tomei a liberdade de substituir por outra.”

“Que horas são?”

“Quase 6h30.”

Observo o ambiente com mais atenção.
Tons de cinza médio e branco predominam em todo o largo quarto. Ao meu lado direito, a alguns metros, uma mesa em formato de losango invertido, de vidro escuro, exibe o notebook de Arjean, junto com papéis, canetas e um abajur em tons de creme.
As partes laterais do teto estão em formato oval, como uma cúpula, e atrás dos vidros transparentes que tomam a parede esquerda, há sombras de flores parcialmente iluminadas por raios de sol. Um desses raios consegue penetrar o quarto.
Olho para a sacada.
Não há um céu azul em sua paisagem, como imaginei, mas um pequeno espaço fechado.
No teto, placas refletem a luz do sol forte. Há placas como essa em ambos os lados, inclusive.
Já aqui dentro, luzes embutidas em intensidade média deixam o quarto totalmente claro.

“Há aberturas no teto lá fora, além das placas.”
– Diz.
“É uma casa subterrânea. Levou anos e muito dinheiro para construir.”

“Por que uma casa subterrânea?”

“Como você deve saber, gosto de viver no subsolo.” – Diz. – “É um lugar pouco provável de se encontrar pessoas indesejadas.”

Um de seus “estúdios” para falsificação de dinheiro fica numa área subterrânea de uma empresa fachada.
Foi lá onde descobri seus negócios.
As cenas da noite anterior retornam a minha mente.

“Foi você que me arrastou para longe, não foi?”

Ele responde com a cabeça, numa afirmativa.

“Como sabia que eu estava lá?”

“Soube de última hora os planos de César.” – Murmura. – “Sim, o acidente foi armado.”

Desvio o olhar.
Eu já deveria ter imaginado isso.
Ele olha para seu celular, que vibra, e murmura, levantando-se da cadeira...

“Suas roupas chegaram. Vou buscar.”

Então me encontro, pela primeira vez, sozinha neste quarto.
Me levanto da cama, caminhando em direção ao espelho no banheiro anexo. Diferente do que pensei, não há hematomas em meu rosto. Toco levemente minha cabeça machucada.
Vou necessitar usar algo que esconda a ferida.

Minha mente viaja até Will.
Daqui a exatas uma hora, eu terei que encarar Liza e Will, e contar a notícia.
Eu volto a sentir o aperto interno, mas meu corpo está mole, relaxado, oposto à tensão emocional.
Quando Arjean retorna, minutos depois, com minhas roupas perfeitamente limpas e passadas, eu me visto sem dizer uma única palavra, sentindo o misto de ansiedade e tristeza crescerem a cada minuto avançado.
Quando o horário se aproxima, Arjean me guia pelo largo corredor aberto que dá para uma escada que nos leva à superfície. Ruas à frente, ele chama um táxi e nos despedimos.

Ele pede para que eu cuide da ferida em minha cabeça.