Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

15 de fev de 2017

Sentença (fúria season 3) - Capítulo 78

LIZA
Quando Diana e Jennifer vão embora, ficamos eu e Will, sozinhos.
Ele é o primeiro a se aproximar, cuidadoso, ainda receoso por causa do meu acesso de raiva horas antes. Ele se apoia na ponta do leito, com uma das mãos fechadas em torno de uma das superfícies cilíndricas que formam o suporte de ferro que se ergue a uns quarenta centímetros do colchão.

“Estive falando com o médico.”
– Murmura.
“Ele disse que suas noções de equilíbrio estão melhores.”

Deixo escapar uma risada.
Por mais que eu saiba que não foi essa sua intenção, a palavra “equilíbrio” atrelada a mim me soa como um paradoxo, comparado a minha situação dos últimos dias.
Meu riso também tem um sabor nostálgico. Puxar assunto sobre assuntos externos, do nada, é a forma que Will tem de fazer as pazes.
Há uma bonita coerência nele, quanto a isso.
Ele sabe quando alguma discussão é provocada por ele, e quando as razões erradas pertencem a ele, e se esse fosse o caso, sua primeira frase neste momento seria um “me desculpe”.
Mas não. Nossa última discussão foi causada por mim; eu fui a parte errada, e ele jamais pedirá desculpas por uma atitude correta.
Entretanto, ele tentará fazer as pazes. Sempre.



Me movo em sua direção, e quando estou suficientemente próxima, me ajoelho sobre o colchão até que nossos rostos estejam nivelados.
Minhas mãos tocam seu rosto e eu me inclino, encostando meus lábios nos seus. Ele reage num misto de surpresa e alívio ao meu toque, escorregando suas mãos por minha cintura.

“Me desculpe.”
 – Sussurro. Minha mente é assaltada pelas lembranças de nossa última conversa, César, Diana e as acusações à minha mãe. Empurro o pensamento para longe.

Beijo seus olhos, testa e boca.
Nos mantemos abraçados por um longo tempo, e eu me tranquilizo com o toque de minhas mãos sobre seu cabelo; quando nos afastamos, ele ainda busca em meus olhos a confirmação de que a situação foi de fato resolvida.
Sua dúvida não está relacionada ao meu estado de ânimo. Quando Will fixa o olhar em mim, mantendo as mãos firmes em minha cintura, impedindo que eu me afaste com pressão sutil, eu enxergo imediatamente o que ele está procurando.
Will quer saber se minha anterior opinião quanto à minha mãe ainda está de pé.

“Eu ainda estou confusa.”
 – É o que eu digo, num tom de voz tão baixo que somente ele poderia ouvir.
“Mas eu... penso sobre isso. Só me dê um tempo para processar as coisas, ok?”

Ele relaxa e nos beijamos novamente.
Will fica comigo até o final da tarde.
As recomendações da enfermeira quanto ao meu repouso e sono necessário, assim como a menção de assuntos pendentes quanto ao departamento o impulsionam para longe.
Acompanho, com o olhar, seu corpo movendo-se até a porta.
Entretanto, quando ela se fecha, meu olhar volta-se instintivamente para a poltrona ao meu lado esquerdo.
A mesma poltrona onde César escondeu o celular.

DIANA
Exaustas, eu e Jennifer caminhamos até o carro enviado para nós.
Já é noite, e as horas passadas foram gastas com burocracia e formulários, acordos quanto à curta permanência de Jennifer Richmond no Brasil.
A imprensa se refere a ela como “Vaccari”, o que ela é, de fato, mas o uso do sobrenome – algo que percebi incomodar a nós duas, faz menção à sua avó, alguém que, por razões óbvias, não é alvo dos sentimentos de carinho e solidariedade entre os envolvidos na investigação.
De qualquer forma, o “passeio” serviu para nos aproximar.
Nós rimos e brincamos durante o almoço, e o breve momento de descontração nos ajudou a dispersar as nuvens negras que se acumulam em sua vida.
Ou em nossas vidas, uma substituição na qual me sinto relutante em fazer.
Encosto a cabeça no macio banco do passageiro, com a mão pousada sobre a arma em meu coldre. Me pergunto, num breve instante de semi-consciência, como será para ela lidar com o fato de ser uma Vaccari. Mesmo depois que toda a situação estiver resolvida, haverá um passado com o qual ela precisará conviver.
Possui o sangue da família. Uma filha legítima, bisneta do Velho Jon.

      Beth foi a primeira mulher a assumir a liderança entre os Vaccari; ela era esperta, prudente, nunca demonstrou pretensões à chefia da máfia, apesar de com certeza já ter cogitado a ideia. Ela foi a quieta sombra de Anthony Vaccari durante anos, sempre fiel e obediente às ordens de seu irmão e seu líder, mas influenciando indiretamente todas as suas decisões.
Ela ganhou sua confiança com seu comportamento “inofensivo”. Ninguém imaginava que ela um dia se tornaria a chefe, e eu penso que ela fez algo de muito grande e terrível no início para que os membros da máfia a temessem.
Todos gostavam de Beth. Ela tinha carisma, era engraçada e permissiva com Tony, a irmã mais nova legal que ele precisava ter por perto. Com os outros o comportamento era quase o mesmo.
Liza, diferentemente da tia, não desperta afeição.
Ela é turbulenta como seu pai, emocional, teimosa, violenta e todas essas coisas que repelem as pessoas. Homens dos Vaccari deixaram a máfia e se uniram a César quando ela assumiu. Boa parte da aceitação veio por parte de Beth, que sempre dizia que Liza Vaccari era a herdeira da chefia, que ela e mais ninguém deveria assumir o posto em seu lugar, porque acima de tudo, era uma Vaccari. O resto proveio da fama de que ela foi responsável pela morte de Thomas Hansson e todo o seu conselho.
Tento acordar meu corpo exausto pelo trabalho, sentando-me mais ereta, menos confortável, agitando um músculo e outro.
Jennifer dormirá num hotel, vigiado 24h por policiais colocados para impedir um ataque; uma vez lá dentro, ela terá uma segurança dez vezes maior do que aqui fora, e enquanto eu não a puser lá, não posso me permitir relaxar.
Ela, em contrapartida, está quase dormindo.
Puxo o celular do meu bolso traseiro, desejando que não esteja tão tarde. Eu ainda planejo uma boa noite de sono.
Acendo o visor à minha frente.

Este seria o momento em que eu veria as horas, mas um forte e repentino impacto torna-se responsável pela interrupção.

Uma dor lancinante percorre todo o meu corpo, quase insuportável.
Numa busca desesperada, puxo o ar para meus pulmões com a máxima força de que sou capaz, sentindo o barulho sutil, agonizante, de uma respiração difícil.
Quando meu peito se expande, sinto como se agulhas se cravassem profundamente em minha carne, como se eu houvesse engolido várias delas que agora passeiam, livremente, pelo meu organismo.
Meus olhos contemplam o céu estrelado, acima de mim. Olhando para os lados, vejo meus braços cobertos por cortes, alguns deles, mais profundos, gerando sulcos por onde escorre sangue fresco; minha cabeça também está ferida, e pela ardência, há pedaços de pele soltos, asperamente arrancados durante a queda.
É um esforço mover cada músculo.
Ergo o tronco aos poucos, gemendo de dor, preocupada com algum possível osso deslocado. Minhas roupas estão surpreendentemente intactas, apesar das manchas cinza-escuro espalhadas por minha blusa e calça. Toco, receosa, o ponto de dor em minha cabeça.
O sangue empapa e gruda meus cabelos, e este ponto do couro cabeludo está em carne viva. Tufos de cabelo estão soltos, misturados aos outros fios, e eles se enrolam em meus dedos quando afasto a mão.
Me sinto tonta e fraca.
Minhas mãos também estão feridas por cortes e há rasos rasgões recém notados na lateral da minha calça. Por trás do tecido, a carne também está ferida.
Observo o local a minha volta, tentando por meus sentidos e pensamentos em ordem.
Provavelmente fui arremessada no que penso ter sido uma batida de carro. Caí numa distância de talvez 100 ou 200 metros, no meio do asfalto de uma rua deserta. É surpreendente que eu não esteja morta, ou que sequer eu esteja consciente dado o impacto do acidente.

Eu não estava usando cinto de segurança. Jennifer estava.
Começo a engatinhar, em direção ao carro.

O esforço e a dor proveniente deste produz lágrimas que se acumulam e embaçam minha visão. A falta de ar retorna e cresce, e eu paro para ganhar fôlego.
Há algo de muito errado com meu peito. Não consigo discernir de qual ponto a dor provém.
Fito minhas mãos trêmulas.
Inspiro e expiro profundamente, ignorando o incômodo.
Segundos depois, volto a me mover em direção ao carro. Lá dentro está meu celular e minha arma, e acima de tudo, está a Jennifer.
Eu fiz um compromisso a Liza, Will, e a mim mesma.
Por mais excruciante que seja o processo, tenho que fazer o que estiver ao meu alcance para manter a Jennifer viva.

Conforme me aproximo, noto a poça de combustível que vaza e se acumula próxima à lataria. A poça se expande, e quando assimilo que o carro colidiu num poste, e que há fios de alta tensão partidos e soltos sobre a calçada, a necessidade de retirar a Jennifer do carro se torna mais urgente.
É uma questão de minutos até que a poça atinga o fio desencapado mais próximo.

“Jennifer”
– Chamo, me agarrando a uma das portas traseiras, amassada pela batida. Não há um único sinal de vida lá dentro.

Respiro fundo, mantendo a boca aberta constantemente, enquanto minhas mãos forçam a porta para fora.
Segundos depois ela cede, e eu enxergo seus cabelos ruivos no canto.

“Jennifer!”
– Chamo, mais forte. Ela permanece inconsciente.

Tento romper o cinto de segurança que ainda atravessa seu corpo com puxões cada vez mais urgentes.
Puxo suas pernas para fora, mas elas permanecem imóveis. Ela está presa.
Recorro ao motorista na porta ao lado.
A porta referente ao banco do motorista se soltou na capotagem, e eu observo seu rosto dilacerado pelos estilhaços de vidro partido. Toco seu pescoço, buscando seu pulso.
Morto.
Retorno à Jennifer.

“Não, por favor, não, não, não....” – Sussurro, tentando forçar suas pernas para fora. Um dos bancos foi arreado e as ferragens que sustenta e controla o assento agora estão presas em seus pés.

Um som de carro surge em minha direção.
Sem nem sequer olhar para a origem do ruído, imploro:

“Ajuda!” – Grito. – “Ajuda aqui! Tem gente presa no carro!”

O veículo estaciona.
Segundos depois, um braço se enrosca em minha cintura e eu sou arrastada para longe.
O fogo surge e se espalha na traseira do carro.
Penso em olhar para o desconhecido que me afasta de Jennifer, mas meus olhos permanecem fixos, contemplando as chamas que avançam sobre o carro.
Abro a boca para gritar, mas a reivindicação se mistura e se perde em minha mente. Tento organizar os pensamentos e agir, mas o barulho de uma explosão, e o novo impacto que surge com ela me impedem.
Sinto meu corpo desabando novamente.
E então, tudo se apaga ao meu redor.