Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

15 de fev de 2017

Sentença (fúria season 3) - Capítulo 77

MADALINA
5 horas antes
Observo, inerte, os dedos de Hector em torno da garrafa de vinho.
Eu me encontro imóvel, concentrada demais em alguma espécie de estudo inutil, acompanhando com o olhar quando ele remove o plástico vedante e gira o saca-rolhas até que a tampa esteja fora.
Enquanto uma mão afasta o pequeno pedaço de madeira, a outra agarra um copo.

“Só abri esse vinho por causa de você.”
 – Ele murmura, num tom bem humorado, enquanto me estende o copo de vidro com o líquido escuro até a metade.

Eu não gosto de cerveja, o que seria sua primeira opção.
Ele se senta no sofá oposto ao que eu estou. Me forço a sair do limbo mental.

“Poderia usar uma taça, pelo menos.”
 – Reclamo, mas meu rosto é amigável. Ele sorri satisfeito, enquanto toma um grande gole.

Há um desconto para ele, entretanto;

Minha vinda até seu apartamento, situado no térreo de um prédio numa rua escondida em Mergellina, foi feita com nada de antecedência. Eu descobri que ficar sozinha, em casa, especialmente com o meu atual humor, não me faria muito bem. Até o momento ele não tem reclamado da minha invasão, o que me faz sentir uma ponta de remorso por mencionar a falta de uma taça.
É um apartamento muito bem localizado, no final das contas.
Trata-se de uma rua com imóveis pouco valorizados, apesar da posição; além de ser uma rua  estreita e escondida, há uma estação ferroviária por perto e trilhos que se estendem pela rua em direção à mata, o que traz consigo um enorme barulho proveniente dos trens. De qualquer forma, está em Mergellina, uma área litorânea de Nápoles, muito próxima de áreas turísticas e pontos importantes da província.
Foi um apartamento simples e barato.
Eu o compraria, se ele não comprasse.

“Eu odeio ter que falar de trabalho, mas parece que você veio aqui pra desabafar sobre ele.”
  – Murmura, depois de um breve minuto de silêncio, pousando o copo na mesa de centro.
“Então, o que aconteceu?”

“Nada que eu já não soubesse.” – Solto. – “Miranda fez questão de frisar isso.”

“A coletiva...”

“Eu nem deveria estar tão afetada.”
– Murmuro, constrangida com meu estado de ânimo.
“É trabalho. Tem dessas coisas. Não é como se eu fosse uma santa, já matei pessoas, quebrei protocolo...”

“Não matou ninguém que não merecesse.”

“Isso é perigoso.”
– Rebato, olhando fixamente para ele.
“Ditadores já usaram esse argumento.”

Nós nos calamos.
Esse é um daqueles horríveis tipos de dia em que você não se sente confortável em sua pele; você está insatisfeito com seu desempenho, seu comportamento e sua moral, e isso acaba estragando qualquer conversa ou relacionamentos do dia.
Eu acreditei que, depois da primeira morte, eu deixaria de me importar.
O primeiro momento em que as coisas saíram do script geraram um impacto que achei ser suficiente para me preparar para qualquer situação que exigisse atitudes extremas. Por mais que eu tenha rebatido o comentário de Habsburg, no final das contas, minhas últimas ações foram guiadas por essa lógica.
Eu não senti uma gota de remorso por ter torturado Noah Shrader, por exemplo.
Entretanto, a comunicação implícita da morte de Lorena, sua filha, me deixou num misto de raiva e nojo, direcionados inclusive a mim.
Durante a coletiva, a sensação foi a mesma.

“Poderia enxergar por outro ângulo, Madalina.” – Ele recomeça. – “É bom para todo mundo que a Europa faça o possível e o impossível para se manter de pé. Cuidar das aparências faz parte do processo.”

Eu entendo imediatamente o que ele diz.
É melhor lidar com um velho conhecido do que um completo estranho.
E novos chefes estão emergindo.

“Vou no banheiro.”
– Ele diz repentinamente e se levanta, sem esperar resposta. Eu sigo seus passos com o olhar, e quando ele fecha a porta atrás de si, encolho os ombros.

Esta é uma noite quente.
Tomo um gole do vinho em meu copo e me levanto, aproximando-me da janela estreita.
A mata fechada que se estende a oeste parece contribuir para a densa escuridão; no céu, é lua minguante, mas há muitas estrelas. Além das árvores, visualizo em minha mente o mar, que se apresenta em tom azul turquesa, com pedras de tamanho médio, ásperas e amontoadas, formando a costa.
Olho para os trilhos desgastados pelo tempo e o trabalho, mas outra coisa me chama a atenção.
Metros à frente, um grupo de homens encapuzados avança, todos em roupa preta.
Todos armados.
A direção a que estão seguindo aponta para o apartamento de Habsburg.

Uma mão envolve meu braço e sou puxada para longe.

“Saia da janela.” – Hector murmura, ainda com a mão fechada em meu cotovelo.

“O que está acontecendo?” – Exijo.

“Abra a porta da geladeira.” – Ele diz. – “Ela vai dar acesso a uma saída subterrânea. É um comprido corredor, vai sair numa avenida a 700 metros daqui. Vá agora.”

“Quem está atrás de você?”

“Não temos tempo, Madalina.”

“É um agente, Habsburg, como eu.” – Insisto, puxando a pistola. – “Vou alertar a central, não vou deixar um colega sozinho.”

“Não faça isso!” – Diz. – “Acredite em mim, as coisas vão piorar se você chamar a Interpol.”

“Por que?!”

“Porque são os chineses que estão aqui.”

Um barulho surge atrás da porta.
Olho para ele, de repente, muda. Eu deixo que ele me guie até a geladeira falsa e a saída subterrânea, mas quando ele fecha a porta, eu não desço as escadas de acesso ao corredor.
Os armários da cozinha são feitos de jatobá, a mesma madeira usada na personalização da porta da “falsa geladeira”, suficientemente embutida e encaixada a ponto de esconder uma saída secreta sem maiores complicações. É uma porta grande e larga, como deve ser a porta de uma geladeira cara, e aqui dentro, consigo ouvir os sons produzidos por outros cômodos da casa.
Um forte barulho, oco, chega aos meus ouvidos, seguidos pelos sons de passos. Não há sinal de Hector.

“Vamos lá, agente.”
– Um deles diz, com um remoto sotaque chinês.
“Não está disposto a brincar de esconde-esconde, está? Seria péssimo para os vizinhos ouvir o som dos tiros.”

“Vocês devem estar mais preocupados com isso do que eu.”
  – Ouço sua voz. Ele está no quarto que fica em frente à cozinha, mais especificamente, próximo à porta.

“Sabe que tenho ordens para levá-lo, vivo ou morto.”
 – O homem chinês declara.
“A forma como isso vai acontecer depende de você.”

Silêncio.
Prendo a respiração, imóvel, cheia de nervosa expectativa.

“Sei que gosta demais da sua vida para desejar morrer.” – Ele continua. – “Sei que é curioso, e está louco para saber quem exatamente quer você lá. Acha que vai entender a engrenagem e cair fora. Se julga muito esperto, e talvez realmente seja. Por que não tenta descobrir?”

Ouço som de passos em seguida.
São muito próximos para ser dos chineses.
A voz de Hector, num tom tão tranquilo que chega a ser provocativo, confirma minhas suspeitas.

“Diga-me, sr Guo, eu sou o primeiro agente que vocês capturam?”

A forma como ele pronuncia seu sobrenome, numa pausa, como se saboreasse cada letra, me faz pensar que não estava no script que Habsburg soubesse a identidade do homem a sua frente.
O homem de sobrenome Guo, por sua vez, fala, e eu noto desconforto em sua voz...

“Parece que esteve com mais alguém por aqui.”

Os copos.
Minhas pernas vacilam por um rápido instante.

“Gosto de receber visitas.” – Hector responde. – “Visitas femininas, especialmente.”

“Suponho que ela não esteja mais aqui.”
– O homem dispara, recuperando a segurança.

“Está livre para vasculhar minha casa.” – Hector volta a dizer. – “Se bem que não acho que necessite dessa autorização, dada a amabilidade com a qual entrou em meu apartamento.”

Ouço sons de passos por cerca de dois ou três minutos.
Ruídos provenientes do atrito entre diferentes tipos de superfícies, impossíveis, para mim, de ser distinguidos, se fazem ouvir por segundos antes do barulho da porta.
O ambiente mergulha em silêncio.
Minha respiração e meus batimentos agora se tornam a única coisa audível.
Desço as escadas de acesso ao corredor escuro, e caminho em linha reta até o único ponto realmente iluminado.
A minha frente, uma escada improvisada dá acesso a uma saída no topo.
A tampa de metal enferrujado – que simula um bueiro, é empurrada precariamente com uma das mãos, e eu saio num beco deserto.
Com as mãos trêmulas, ajeito a pistola a ponto de torná-la imperceptível por debaixo da blusa.
Traço uma rota mental, enquanto meus pés se movem do beco para avenida adjacente. No fundo, o barulho de música e vozes enchem meus ouvidos. Estou próxima de uma rua repleta de bares.
Viro a rua oposta.
Há apenas uma única pessoa a quem eu devo encontrar agora.
Arthur Mogherini.

WILL
Posso sentir a ansiedade de Jennifer quando passamos pelas alas.
A ala onde estão Liza e César fica afastada, isolada do resto do hospital como um órgão independente, mas possui a mesma aparência que todas as outras.
Pisos brancos em porcelanato limpo e brilhante, paredes e portas brancas, estas sustentando uma pequena abertura no centro superior da madeira, em formato quadrangular, preenchida com um material transparente que simula vidro.
O leito de Liza fica no início da ala, enquanto o de César, no final.
Tudo para que fosse necessário percorrer a considerável distância do comprido corredor para que um chegasse ao quarto do outro.
Faço um aceno de cabeça aos guardas antes de abrir a porta.

Lá dentro, uma Liza acordada, sentada com o tronco encostado nos travesseiros e o olhar parado entra em meu campo de visão. Quando seu olhar pousa sobre Jennifer, entretanto, é como se recebesse uma injeção de vida.
Ela se ergue no leito, e seu braço se estende na direção dela.
Jennifer agarra sua mão e as duas se abraçam, em silêncio, durante um longo tempo.
Me mantenho a alguns metros de distância do seu leito, como uma reação inconsciente de respeito a um quieto momento que parece pertencer somente a elas. Quando o instante se desvanece, há lágrimas nos olhos de Liza.
Observo a preocupação se formar novamente no rosto de Jennifer.

“Como você está, filha?”
– Liza diz, tentando controlar a emoção em sua voz.

“Mãe” – Jennifer murmura. – “A senhora...”

“Eu estou bem.”
– Ela interrompe.
“Eu estou bem, acredite. Só estou um tempo no hospital para me recuperar de uma cirurgia, mas não é nada grave.”

Os olhos de Jennifer se fixam no tampão que cobre o ouvido esquerdo da mãe.
Seu olhar volta-se então, novamente, para o rosto de Liza.

“Me diga o que está acontecendo.” – Diz, repentinamente resoluta. – “Eu sei que vai ser presa quando sair daqui. César disse que é seu tio, quando eu estava na casa dele, e isso é verdade. Ele leva Vaccari em seu sobrenome, assim como a senhora, assim como eu. Vocês fazem parte da mesma máfia, não é? Por isso está sendo presa. Foi ele quem gerou o acidente, não foi? Por que? Isso tudo não é só disputa pela chefia, é?”

Olho para Diana, parada no vão da porta.
Ela vira o olhar para outro ponto, oposto ao quarto.

“Jennifer, não é o melhor momento...”

“E quando será?!” – Dispara. – “Quando estiver presa?! Eu fui sequestrada, mãe, torturada, tentando entender o que estava acontecendo comigo porque a senhora nunca quis se abrir! Sempre quis que eu nunca dissesse a ninguém que existia um Vaccari em meu sobrenome, e quantas vezes eu te perguntei o que havia de tão errado nele? A senhora nunca respondeu! Mãe, eu te amo, e não sabe o quanto me sinto aliviada por ver que a senhora está viva, mas eu não posso mais continuar ignorante a tudo o que acontece na minha vida! Eu preciso saber! Eu tenho o direito de saber!”

“Sim, César é meu tio, e sim, eu sou líder de uma máfia.”
– Liza solta, num desabafo, como se estivesse contendo a frase por muito tempo.
“Sim, Jennifer, nós somos membros da mesma família, mas não membros da mesma máfia. Eu nem sempre fui a líder. Só assumi a chefia quando sua tia, Beth, morreu. Era ela quem nos dava proteção e nos garantia uma vida normal e segura. Eu não queria que dissesse que era uma Vaccari porque, além de ser perigoso pelos motivos óbvios, eu queria deixar isso para trás. Eu não queria ser como a minha família, e não queria que você fosse uma deles. Se te escondi coisas, foi porque pensei que quanto menos você soubesse, mais segura estaria. Eu só assumi de fato a máfia quando você desapareceu, e eu descobri que foi o César quem capturou você usando Alex, seu irmão. Eu perdi Alex no dia de seu nascimento porque além de seu irmão, ele era neto de César Vaccari. Sim, Rachael, sua tia, era filha dele. Percebe como é uma história suja, cheia de altos e baixos, na qual eu pensei que você não precisava saber?”

Há um longo silêncio em seguida.
Então, instantes depois, Jennifer abre a boca, mais branda do que antes....

“Aquilo tudo sobre o tráfico humano... É verdade?”

“Sim.”

“Por que vocês não fazem parte da mesma máfia?”

“A máfia se dividiu na época do meu pai.” – Liza responde. – “César foi responsável pela morte dele, e da minha mãe. Eu tentei fazer com você a mesma coisa que ela fez comigo, me mantendo longe da máfia... Se bem que não tenho mais certeza se as intenções dela nisso foram as mesmas que as minhas, enfim... Eu quis te proteger. Não foi a melhor forma, admito. Não me arrependo por não ter te contado no início, mas depois da morte de Beth, nós deveríamos ter tido essa conversa. Desculpe por ter procrastinado isso por mais tempo do que deveria.”

Isso mergulha o quarto num silêncio mais profundo que o último.
A postura de Jennifer se quebra, e sua expressão exibe a preocupação anterior.

“Quanto tempo ficará presa?”
   – É sua pergunta, num fio de voz, minutos depois.

“Não há como saber.”

E então, Liza dirige, pela primeira vez neste encontro, seu olhar para mim.
Não há irritação ou mágoa neles, algo que esperei dada nossa última discussão.
Ela olha novamente para Jennifer e escorrega a mão por seus cabelos ruivos.

“Você tem seu pai.” – Diz. – “Vocês terão um ao outro quando eu estiver fora.”

Então, seu olhar vai para Diana.

“Diana, escolte minha filha.”
– Ela murmura. Há um tom de autoridade moderada, como um pedido de alguém muito firme no que diz.
“Will perdeu o distintivo e não pode fazer isso, mas você pode. Leve-a em segurança até em casa. É a única em que confio para isso.”

Diana responde com um movimento de cabeça, incapaz de falar.
Há uma surpresa nítida em seu rosto, como se ela estivesse espantada por ter sido notada e incluída numa cena tão pessoal e familiar.
As duas nunca foram amigas, ou minimamente próximas.
Entretanto, neste exato momento, posso enxergar um sentimento compartilhado por duas mulheres em posições totalmente distintas;
Respeito mútuo.
Algo improvável dadas as circunstâncias.