Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

25 de fev de 2017

Nail's Art - Capítulo 4

Já passava das duas e meia da tarde quando Daniela terminara as unhas das filhas. Para agradar Luísa, desenhara um coração amarelo preenchido com um "CH" em seus polegares, o símbolo do Chapolin Colorado, herói que a menina tanto gostava.
A esta altura, o salão já estava relativamente movimentado, com mulheres tagarelando freneticamente enquanto aguardavam atendimento, barulhos de secadores e do autoclave sendo ligados, televisão sintonizada no Fofocando e os odiosos caminhões com as odiosas campanhas políticas.
Daniela e as filhas estavam na pequena cozinha, saboreando uma bela pizza recém-entregue. A manicure teria mais dois serviços marcados para aquela tarde, mas achava que estaria cedo em casa. Luísa estava encantada com suas unhas, e segurava a fatia de pizza com delicadeza, para não desmanchar o desenho que a mãe fizera com tanto carinho.

- Dani? [disse Beth, sua voz chegando antes dela aparecer no umbral da porta da cozinha]

- Fala, Beth.

- A dona Leonora ligou desmarcando, deixou para amanhã. Tudo bem?

- Sim, sem problemas.

- E a Camila marcou cabelo comigo para as três horas, mas eu ainda estou com a Emanuelle. Se tu quiser, pode iniciar as unhas dela antes.

- Tudo bem. Só vou terminar aqui.

- Claro, fique à vontade. Aí depois da Camila, pode ir para casa. Acho que hoje não vem mais ninguém, já que marcaram para amanhã.

***



No aeroporto Salgado Filho, enquanto Dani tratava das unhas de Camila Mitsuo, um avião da TAM levantava voo, seguindo para o Rio de Janeiro e, em seguida, Brasília.
Pedro estava acomodado ao lado de sua esposa-troféu, lendo a última edição de Zero Hora. A viagem até a capital era apenas protocolar. A imprensa local achava que o prefeito iria tratar de assuntos pertinentes ao executivo, mas, na realidade, o gestor da cidade estava mais preocupado com os valores que lhe seriam pagos por aquela viagem, através de diárias.
Ainda faltava muito para as eleições, e qualquer grana extra que ele tivesse acesso lhe garantiria mais alguns votos. Para quê falar com seu deputado aliado por telefone se poderia ir até ele e ainda ser pago por isto, não é mesmo?
A seu lado, Janaína navegava na internet em seu  Iphone, consultando os novos modelos de bolsas e sapatos e acompanhando as tendências da moda. E o Facebook, claro. Ainda não havia postado o check-in na rede social.
"Janaína Dias está com Pedro Dias viajando para Brasília: ao lado do nosso prefeito, em busca de mais recursos para Imbé", escreveu.
"Boa. Deus abençoe este casal. Lindos", uma garota que Janaína nunca vira e que se identificava como Gabriela Barcelos, funcionária da prefeitura segundo seu perfil, comentou menos de dez segundos após a postagem da primeira-dama.
Duas coisas que Janaína adorava: que lhe invejasse e que lhe inflassem o ego.

***

Diferente das clientes tradicionais, Camila Mitsuo levava seu próprio esmalte cada vez que queria pintar as unhas. Era uma espécie de TOC, no qual Dani já estava acostumada. Advogada, a mulher sempre gostava de cores mais discretas e nenhum tipo de decoração. Evidentemente, não pegaria bem para uma advogada aparecer para alguma audiência com qualquer estilo de unhas que fugisse ao formal.
O serviço era completo (mão e pé) e demorou um pouco mais para ser concluído. Camila, apesar de ser uma cliente assídua, demorava tempo demais entre uma sessão e outra, de modo que Dani precisou de mais tempo para tirar-lhe as cutículas e desencravar o canto das unhas, sobre tudo as dos pés. Finalmente, passando das quatro e meia, Daniela terminou seu dia de serviço.
A esta altura, Beth já iniciara os reparos no cabelo de Camila, enquanto Léo, atarefado, escovava sua quarta cliente do dia. Pelo visto, as desmarcações eram apenas para Dani. Paciência, pensou ela. Fim de semana sua agenda estava lotada, recuperaria o fraco movimento do dia.

- Acorda, filha. [Dani falava para Luísa, adormecida no colo de Amanda] Hora de ir para casa.

Sonolenta, a menina coçou os olhos, bocejou e espreguiçou-se ruidosamente, atraindo olhares das clientes, e alguns risos posteriormente. Sem graça com a atenção inesperada, colocou-se de pé, deu um beijo em Beth e Léo e pegou um punhado de balas da recepção antes de despedir-se.
Os presentes no salão ainda não sabiam, mas comunidade imbeense teria uma noite inesquecível.

***

O sol já ameaçava se pôr no litoral. Enquanto dirigia de volta a Torres, após ter tomado um belo café da tarde na Confeitaria Bolo Fofo no centro de Tramandaí, Eduardo sintonizara o rádio numa estação de música popular da cidade.
Elisa mexia em seu smartphone, ignorando a música que envolvia o interior do carro. Uma banda gaúcha chamada Musical JM performava a canção chamada "O Último Baile". Eduardo se sentia desconfortável com a estranha coincidência da letra quando relacionada à sua própria história pessoal.

- Pai, [disse Elisa] a mãe pediu para a gente passar no mercado. A vó e o vô ficaram de vir amanhã.

- Certo.

A partir de quinta-feira a sua rotina política rumo à prefeitura seria ainda mais corrida, então seria mesmo melhor adiantar as compras. Pelo menos para o churrasco que prometera há mais de um ano para o pai e a mãe.
Há muito havia passado pela ponte Giuseppe Garibaldi, que divisava Tramandaí e Imbé. Quando Elisa passara a ele a mensagem da mãe, o Logan estava quase em frente ao prédio do executivo municipal. Um quilômetro adiante, Eduardo avistou o SuperBom, uma enorme filial de uma rede regional de supermercado. Apesar das várias placas de promoções, o lugar não estava muito cheio.
Ao descer do veículo, Eduardo notou que um salão chamado Beautiful & Chic funcionava quase em frente ao mercado. Estranhamente, foi a primeira coisa na paisagem que chamou a atenção do delegado. Quando Elisa desceu, sem tirar os olhos do smartphone e roendo as unhas novamente, Eduardo compreendeu o motivo para seu subconsciente o ter direcionado para aquele local.

- Filha, quer fazer as unhas antes da gente voltar a Torres?

- Claro, pai! Agora?

- Sim, aí enquanto você faz as unhas, eu vou no mercado. Vou só ligar para a sua mãe para avisar.

***

No instante em que Eduardo e Elisa Toffani confabulavam sobre o que fariam nos próximos minutos em frente ao SuperBom, dois indivíduos que posteriormente só seriam identificados por suas iniciais saiam em uma CG150 roubada, indo de Santa Terezinha em direção a Tramandaí pela avenida principal.
Precisavam de dinheiro rápido, tanto para investir em seu próprio conforto quanto para saldarem as dívidas com um traficante da cidade e salvarem seus rabos, mas não iriam roubar ou assaltar em seu território, já eram bem conhecidos no bairro em que residiam.
Ambos tinham 17 anos, M., o mais velho, estava a dois meses de atingir a maioridade. L. H., o mais jovem, recém havia completado mais um ano de vida. M. estava guiando a moto e, a medida que escurecia e aproximavam-se de centro de Imbé, vinha estudando mentalmente qual  a situação mais segura para assaltarem. Um ponto de ônibus? Um mercado? Uma revenda de gás? Talvez arrombar uma loja fechada…
L. H. segurava firme o seu .38 no bolso do moletom. Era a sua vez de ser o agente passivo no assalto, aguardando na moto enquanto M. realizava o roubo. Esperava não falhar como há quatro meses atrás, quando assaltaram um motel. Havia esquecido de abastecer a Honda Biz que utilizaram no crime, não tiveram chance de fuga e amargaram dois meses na FASE. Não haveria margem para erro agora, e talvez não achassem uma defensora pública que simpatizasse com a causa novamente.
Ao passarem em frente ao SuperBom, L. H. pediu para que fizessem o retorno.

- Aquele salão?! [perguntou M., incrédulo]

- Claro! Quer coisa que rende mais e que é moleza de assaltar?!

- Sei não, meu…

- Relaxa! Só trabalha mulher e viado lá.

- Tu quem sabe…

- Confia em mim, cara. Vai dar tudo certo.

Gradativamente, M. ia diminuindo a velocidade conforme se reaproximava do Beatiful & Chic, para realizar aquele que seria o último assalto de sua carreira.