Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

20 de fev de 2017

Nail's Art - Capítulo 1

Daniela assustou-se ao voltar da pequena cozinha do salão de beleza onde trabalhava.  Eram 12:34, e, até onde lembrava-se, havia fechado a porta da frente. Devia ter se confundido, já que, ao regressar ao hall de entrada, havia uma cliente lhe esperando.
A manicure nunca tinha visto aquela senhora, nem lembrava de ter agendado algum serviço para o horário do almoço. Clientes ao meio-dia eram muito raras, ainda mais em uma terça-feira fria e chuvosa de agosto. Sua patroa, Beth Rossner, havia saído há menos de dez minutos e também nada lhe dissera.

- Bom dia, digo, boa tarde senhora… Pois não? [Disse Dani, colocando seu prato fumegante de miojo feito no microoondas sobre a bancada da recepção]

- Olá. Eu gostaria de um serviço completo de manicure. É possível?



A cliente tinha uma voz arrastada, mas decidida. Algo em seu olhar pareceu cativar Dani. A mulher beirava os cinquenta anos, tinha a pele muito branca e usava uma maquiagem um pouco exagerada, mas bem feita. Ao falar, esboçava um sorriso discreto e insinuante, que se emoldurava bem em combinação com os longos cabelos lisos, o rosto comprido e nariz adunco.
Um trovão ribombou ao longe enquanto a cliente aguardava a resposta. Dani sorriu um pouco insegura:

- Claro! Não tenho ninguém marcado até as 15 horas. Só um momento [Dani respondeu e, com o prato de comida, dirigiu-se rapidamente de volta à cozinha]

- Que ótimo! Você é a Daniela né?

Outro trovão.
Ainda mais surpresa com aquela situação atípica, Dani voltou lentamente até o hall, carregando sua maleta de ferro com os utensílios de serviço.

- S-sim… C-como sabe meu… como sabe meu nome?!

A cliente mexia em sua pequena bolsa de couro negra, que parecia ser adereço do vestido que utilizava, e se voltou sorrindo para Dani, mostrando-lhe um pequeno panfleto rosa que acabara de tirar.

- É o que diz aqui, no anúncio do salão…

O folder dizia ESPAÇO BEAUTIFUL & CHIC - SALÃO DE BELEZA, com informações e gravuras dos serviços do local, e, bem no rodapé, os números de telefone e WhatsApp ao lado dos nomes das responsáveis pelos trabalhos, incluindo Dani.
A manicure sentiu o rosto arder e corar. Que gafe! E era uma cliente nova! Devia achá-la maluca…

- Perdão, senhora…

- Jéssica. Jéssica Dumore.

-  Bem, me perdoe, dona Jéssica, é que fizemos os folders há pouco tempo, não me acostumei ainda e...

- Tudo bem [disse Jéssica, simpática], não se incomode com isto. Mas gostaria que começasse o quanto antes, ok? [desta vez, mais rompante]

- Sim senhora. A senhora já escolheu o esmalt…

- Sim! [cortou a cliente] Aquele vermelho, o primeiro da segunda prateleira.

Dani virou-se para as enormes prateleiras de esmaltes. Havia pelo menos duas centenas de vidros, com absolutamente todas as cores e uma infinidade de marcas. O que Jéssica indicou era de um vermelho escarlate, encorpado, com um frasco único e com o rótulo apagado. Ao pegá-lo, Dani não se lembrou dele. Parecia um produto artesanal. Tinha certeza que o modelo do recipiente e o formato do pincel estavam fora de linha há muito tempo. Será que já não estaria seco?
Enquanto colocava a água para ferver na jarra elétrica, Dani abriu o frasco. Incrivelmente o pincel estava úmido, e não havia o menor sinal de crostas. Era como se o velho esmalte nunca tivesse sido aberto. O cheiro do produto era forte, acre, mas a cor… ah! A cor era belíssima! Um vermelho vivo, pungente, parecia capaz de hipnotizar. Por quê nunca ninguém o havia escolhido? Estava no salão há quase dois anos e não entendia como não  o utilizara antes. Vou oferecê-lo a todas as clientes daqui por diante, pensou. Ante o pensamento da manicure, Jéssica sorriu na poltrona.

***

A chuva tornou-se mais forte e os relâmpagos mais constantes enquanto Dani manicurava. A temperatura pareceu diminuir drásticamente, mesmo para a época. Jéssica não era exatamente uma cliente 'falante', de modo que, após duas ou três tentativas de puxar assunto retribuídas com falas monossilábicas, Dani desistira de qualquer interação
Na verdade, a manicure sentiu-se um pouco intimidada durante a execução do trabalho. Jéssica Dumore parecia ter os olhos fixos em Dani, como se avaliasse algo mais do que seu desempenho profissional.
Por fim, as unhas ficaram prontas. Mais uma vez, Dani ficara orgulhosa de seu êxito. Era, de fato, excelente naquilo que fazia. Um sorriso tão enigmático quanto o de uma Monalisa moderna surgiu nos lábios de Jéssica quando examinou o serviço.

- Perfeito! [disse Dumore, com a voz ronronante de Kathleen Turner] Quanto lhe devo?

- Obrigado. [Dani sentiu-se encabulada] São quinze re….

"I've had, the time of my live...", a música tema de Dirty Dancing começou a tocar. Era o toque do celular de Dani. Ela havia deixado o aparelho sobre a pia quando preparava o almoço. Pela hora, talvez fosse Amanda, sua filha mais velha. Sempre ligava por volta das duas da tarde. Pedindo licença para Jéssica, dirigiu-se rapidamente à pequena cozinha.
O telefone parou de tocar quando Daniela foi atender. O visor mostrava <NÚM. RESTRITO>. Deve ser alguma empresa de cartão, pensou a manicure, enquanto regressava para o local de trabalho.

- São quin…

Novamente não terminara a frase. Jéssica Dumore havia desaparecido! Impossível, pensou Dani, ela estava aqui há vinte segundos!
Sobre a mesa de serviço estava uma nota de R$50,00, dobrada abaixo do vidro do esmalte escolhido. Ao lado, um cartão de visita com os dizeres JÉSSICA DUMORE em letras estilizadas, com um número de telefone com o DDD 92 em relevo, margeado por tribais de cor dourada.
Intrigada, Dani tentava imaginar o quê afinal de contas fazia sua nova cliente, já que o cartão que agora segurava nada especificava, quando uma mão repousou sobre seu ombro esquerdo. Dani gritou, girando nos calcanhares, encontrando o rosto surpreso de Beth Rossner.
A manicure perdeu e equilibrio e Beth precisou segurá-la e ajudá-la a se sentar.

- Meu Deus, Dani! O que houve, criatura?! Você está tão pálida!

Dani lhe contou, sentindo-se tola e levemente irritada quando Beth finalmente riu do susto involuntário que causou.

- Calma, amiga. [Beth falou] Ela devia estar com muita pressa, você mesma disse que ela queria um serviço rápido.

- Mas… você não a viu quando chegou?

- Não, mas ela pode ter saído por outro lado. E também, posso ter visto e nem notado.

- Sim, mas,.. Ai, sei lá!

Beth riu novamente da confusão de Dani. Desta vez, tendo companhia da mesma.

- Olha [disse Beth], vai almoçar, amiga. Sei que tá com fome. Pode até ir na lancheria alí da frente, hoje tá bem tranquilo.

- Tem certeza?

- Claro! Você merece, depois de hoje!

E novamente riram. Dani, ainda nervosa, mas um pouco mais calma, levantou-se e foi pegar sua bolsa. Beth, distraidamente, guardou a chave que usara para entrar e foi preparar um café para as possíveis clientes.