Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

25 de jan de 2017

Sentença (fúria season 3) - Capítulo 76

DIANA
Faltam 15 minutos para as 11h da manhã.
Eu caminho com um silencioso Will ao meu lado, apreensiva, em direção ao heliporto.
Craven fez algum tipo de acordo que permitiu que Jennifer Richmond viesse para o Brasil e visitasse os pais; foi provavelmente a única coisa que poderia levá-la a colaborar com a investigação, além do argumento de que ela tem menos de 18 anos, não está presa, e seus dois únicos responsáveis estão fora do país…
De qualquer forma, sua viagem ao Brasil será uma questão de dias. O processo de transferência da Liza anda a todo vapor.
Olho de soslaio para Will, sem saber por onde começar. Ele não está em seu melhor humor, o que fica nítido em sua expressão, e eu temo que eu seja a culpada por isso.

“Will.”
– Chamo timidamente. Ele não olha para mim, mas sei que está prestando atenção.
“Olha, sobre a Liza… Me desculpe, eu não queria ter dito aquilo a ela, eu só falei porque ela insistiu, não tinha a intenção de…”

“Está tudo bem, Diana.”
– Ele murmura com franqueza.
“Liza tinha o direito de saber sobre a mãe. Não é com você que estou chateado.”

“E quem é?”

Ele para.

Nós estamos a alguns metros do círculo no chão, onde a letra H está estampada em branco. O helicóptero com a Jennifer ainda não chegou.
Há policiais espalhados pelo local, e eu observo Will olhá-los de relance, hesitante, antes de finalmente olhar para mim.

“Chateado não é bem a palavra certa.”
 – Ele responde, por fim.
“Estou preocupado com a Liza. Eu fui no leito dela na madrugada, nós conversamos e…”

O barulho típico das hélices interrompe sua fala.
O vento atinge nossos rostos, cada vez mais forte e ruidoso.
O helicóptero paira no ar acima de nós e desce, aos poucos, pronto para pousar.

“Liza está achando que o César manipulou as coisas para fazê-la pensar que a mãe é uma terrorista.” – Ele completa rapidamente.
“Disse que a mãe dela não é assim, que tudo é mentira, enfim…”

Conforme a nave se aproxima do solo, o barulho se torna ensurdecedor.
Nós paramos de conversar e caminhamos em sua direção, parando novamente a uma distância segura.
Um agente federal abre a porta do helicóptero, e uma Jennifer de cabelos bagunçados pelo vento corre em direção ao pai.

“Onde está a mamãe?” – Ela pergunta, quase desesperada. Nós nos entreolhamos.

“Sua mãe está no hospital.” – Will responde e se apressa em completar, ao ver sua reação. – “Ela está bem, sofreu um acidente e teve que ser internada, mas ela está bem.”

“O delegado disse que ela será levada de volta a Itália, e será presa.” – Murmura. – “Por favor, pai, me diga que o senhor não será preso também.”

Ele a puxa para um longo abraço.
Observo a cena, em silêncio, quando ele se afasta, olha em seus olhos e diz…

“Não, filha.”
– Afirma.
“Seu pai ficará livre, para cuidar de você.”

LIZA
6 horas antes
Quando me sento na cama, sinto que meu equilíbrio está melhor do que esteve da última vez.
As vozes de Will, Diana e César se misturam em minha mente, num ruído incessante.
“Liza, sua mãe não era quem você pensa que era” 
“Sua mãe era uma terrorista, assim como seu tio e seus avós” 
“Hedonista”
“Você não era nascida em 1969”

Eu retorno ao meu último encontro com Diana. Repasso as cenas do trem, da casa dos meus pais, das correntes em meus pés enquanto César me trazia um café da manhã. Eu me encontro sentada, no pé da cama, completamente imóvel enquanto meus pensamentos fervilham, um sobrepondo-se ao outro.
A hipnose.
O fato é que eu não sei como surgiram aquelas memórias.
A biblioteca.
O meu pai mantinha uma imensa biblioteca na casa em que morávamos; era um daqueles cômodos enormes, com o ambiente a estilo das bibliotecas particulares do século XVIII, com livros de diferentes categorias. A maioria eram científicos.
Meu pai tinha uma fixação por este lugar dentro da nossa casa, o que era algo irônico dada sua falta de hábito quanto a leitura. De madrugada, quando ele estava em casa, às vezes eu o seguia, assistia por detrás das portas seus dedos percorrendo a superfície dos livros, sem retirar sequer um deles das prateleiras.
De manhã, minha mãe me levava até lá e escolhia um para mim. Muitos deles eram sobre relatos históricos quanto a descobertas científicas.
No início da adolescência, li sobre as grandes guerras. A maioria das minhas leituras eram escolhidas pela minha mãe.
Eu me familiarizei com o cenário.
Era algo que já estava em meu subconsciente.
A única coisa necessária era me fazer acreditar que eu vivi aquilo.

O barulho repentino do toque de um celular me puxa para o meio externo.
Volto meu olhar, num sobressalto, para a porta. Ninguém.
O quarto está vazio, não há som de passos por perto, mas o celular continua a tocar.
Olho para a poltrona.
Segundos depois, um celular de modelo antigo está em minha mão, achado embaixo do forro.
Número desconhecido.
Atendo, ainda trêmula pelo susto…

“Liza.”
– O som da voz de César me faz gelar. Entretanto, apesar de tudo, eu não estou surpresa.
“Eu gostaria de ter essa conversa pessoalmente, mas há policiais por toda ala.”

“Como conseguiu colocar esse celular no meu quarto?”

“Suborno.”
– Murmura.
“Me surpreende que ainda não tenha feito isso.”

“Poderia ter subornado pessoas para me matar.” – Digo. – “Por que ainda não fez isso?”

“Porque ainda não terminei.”

E é verdade.
Não terminamos.
Por mais que seja difícil admitir, essa ligação me gera um certo alívio.

Minha mente entra em guerra.
Boa parte dela manda que eu me afaste, mas uma ponta, no fundo, sugere a terrível ideia de que talvez ele possa estar dizendo a verdade, afinal.
É algo... possível. A perspectiva de que as coisas ditas sobre a minha mãe tenham um fundo de realidade é tão aterradora que não tenho coragem de dizer o pensamento em voz alta.
De qualquer forma, ainda há muitas perguntas sem respostas.

“Como soube sobre a hipnose?”
 – Pergunto, com hesitação.

“Eu assisti a uma das sessões.” – Responde. – “Secretamente, é claro. Você poderia ter uns onze ou doze anos, na época.”

Onze anos.
Me pergunto se houve algum momento da minha vida onde ele não esteve presente, nem tangencialmente.

“Você sabia sobre tudo?” – Continuo. – “O plano… Desde o início?”

“Não.”
– Admite, e há frustração em sua voz.
“Durante muitos anos, eu acreditei no enigma. Sua mãe montou a memória falsa em várias sessões, e eu assisti a apenas uma delas. Ela tomou todos os cuidados para que ninguém soubesse. Eu tinha informação pela metade.”

Solto um silencioso e contido suspiro.
Enquanto minha mente luta contra as palavras que escuto, uma nova questão surge.
Rachael.

“Por que estuprou minha mãe?”

“Porque eu acreditei em seu disfarce.” – Diz. – “Eu tinha acabado de voltar da universidade e ela estava lá, casada com o seu pai, se comportando como uma santa. Eu tentei fazer com ela o que estou fazendo agora com você, só que por outros métodos.”

“Sempre soube que Rachael era sua filha, não é?”
  – Solto, movendo o assunto para outra rota.

“Sim.”

“Alex poderia ter sido seu sucessor.”

“Eu não quero sucessores.”
– Afirma.
“Nós seremos os últimos Vaccari, Liza.”

Então a linha é desligada.
Olho para o visor, impotente.
Tenho vontade de sair, mas posso ver as silhuetas dos policiais armados pelas frestas da porta.
Eu sou o principal alvo, mas não o único.
Jennifer é uma Vaccari. E ele não vai permitir que a linhagem se perpetue.