Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

17 de jan de 2017

Sentença (fúria season 3) - Capítulo 75

MADALINA
Me sento na parte da bancada destinada a mim, com meu nome escrito num cartão, em cima de uma mesa que está de frente para uma multidão de jornalistas.
À minha esquerda, Mogherini e Craven tomam seus lugares, calados, tensos, premeditando as perguntas que virão.
Esta é nossa primeira coletiva de imprensa desde que a investigação começou.
Há uma bancada menor ao lado da nossa, alguns centímetros mais alta, onde o nome de Miranda Safroncik estampa um dos cartões brancos de identificação. Ela se dirige para sua cadeira, menos formal do que geralmente se encontra, mas ainda assim, com sua postura de representante da União Europeia.
 Passo meu olhar sobre a sala reservada à mega entrevista, com seus bancos totalmente ocupados por jornalistas; nos cantos, cinegrafistas sustentam câmeras profissionais em nossa direção.
À frente do balcão, um degrau abaixo, um espaço retangular tingido em branco e um púlpito simples se ergue no centro, com um microfone anexado.
Em minutos, o mediador da coletiva assumirá seu lugar no tablado e dará início à enxurrada de perguntas. A única coisa que se passa por minha mente no momento, como uma pergunta sombria e insistente, é:
Quanto tempo falta até a Europa cair?
      Estamos no ano de 2047, e o continente europeu se sustenta até onde suas forças podem, mas é claro o fato de que estamos a beira de um colapso. Ainda não chegou, mas a queda é certa e a expectativa, torturante. Este inquérito não foi iniciado por acaso; investigar os Vaccari e outras máfias da Europa foi um artifício para desviar a atenção dos escândalos de corrupção que eclodiam por governos de diferentes países, muitos deles, aliados das máfias. As famílias não se manteriam fortes e influentes por muito tempo se não investissem na política; quando seus aliados caíram, elas passaram a ser expostas.
A aliança foi o início do fim.
É evidente que todo o estado de decadência não pode ser justificado unicamente na presença dos Vaccari e Hansson, mas a partir do momento em que governos corruptos decidiram dar influência política ao monstro que tinha apenas dinheiro, as coisas saíram do controle. A presença cada vez mais palpável das máfias desencadeou medo e violência urbana; homens de sobrenome Vaccari ou Hansson assumiram cargos em empresas estatais, o tráfico humano e comércio que se tira disso cresceu. Estamos sentados aqui para esconder da população o jeito com o qual se lidaram com a imigração desenfreada nos últimos 30 anos. Os governos, aliados à organizações criminosas, transformaram uma questão humanitária numa grande rede de fornecimento de mão de obra escrava.
E agora, com a conta chegando, a culpa recairá, inteira e implacável, sobre a máfia.
Mais especificamente, sobre Liza e César Vaccari.

“A primeira parte desta coletiva terá uma hora de duração, com os primeiros quinze minutos destinados ao pronunciamento inicial da chefe das relações externas da União Europeia, Miranda Safroncik.” – A voz do mediador ressona no microfone, clara, formal. – “Os jornalistas terão 45 minutos destinados às perguntas e seus nomes serão chamados em ordem pré-estabelecida através de um sorteio realizado pelos organizadores no dia anterior a esta coletiva. Após o intervalo de 20 minutos, haverá uma segunda parte com outros 45 minutos de duração, para que haja oportunidade para que todos participem. A coletiva está sendo exibida ao vivo pela internet. Com a palavra, sra Safroncik.”

Miranda aproxima-se de seu microfone, e os olhos de toda a sala estão pousados sobre ela.
O silêncio é tamanho que barulhos ínfimos, como o som de uma respiração, se tornam perceptíveis.

“Em nome de toda União Europeia, agradeço a oportunidade concedida para esclarecer a população quanto à operação realizada pela força-tarefa criada pelo departamento de inteligência da Itália, em conjunto com a Interpol. É digno de nota a colaboração não somente do governo italiano, mas também de outros Estados europeus nesta que é uma causa que pertence a todos.”
– Ela começa o discurso.
“As máfias Vaccari e Hansson são detentoras de cerca de 95% do dinheiro produzido ilicitamente no mercado negro da exploração humana, que engloba o tráfico de mulheres em toda sua extensão, o tráfico de órgãos e todas as transações relacionadas à exploração da força de trabalho. O alto escalão destas famílias coordenava e supervisionava todas as fases do negócio, que iam desde o contato direto com os imigrantes que caíriam na armadilha financeira, até o “separo” e distribuição daqueles que tratavam como mercadoria. Ao todo, este mercado movimenta em torno dos 25 bilhões todos os anos, somente na Europa. Dadas essas informações, a participação da União Europeia em todo o decorrer do inquérito se tornou algo imperativo, e imprescindível para uma futura negociação em busca de medidas que minimizem os impactos causados por este desumano comércio.”

Canetas rabiscam apressadamente agendas e folhas soltas em branco.
Depois desta coletiva e toda a movimentação da imprensa que se seguirá com isso, os Vaccari serão quebrados ao meio. Não é simplesmente a prisão de Liza, nem sequer sua morte, caso isso acontecesse, mas o fato de que estão removendo talvez o último dos pilares que os mantinha de pé: apoio popular.
Existem diferenças nítidas na forma como César lidou com seus negócios durante todos esses anos de liderança, em relação a forma como Beth, e posteriormente, Liza, fizeram movimentar suas finanças. Beth não fez tanto dinheiro quanto César, e não tinha tanto espaço entre as multinacionais por conta da influência já adquirida pelos Hansson, então sua melhor saída foi o apoio do povo. Ela realocou suas bases, se embrenhou entre a população, fez alianças com governos e lideranças locais e os transformou em um dos braços de seu exército. Ela estava limitada à Itália, Brasil e países da África dos quais detinha o controle, mas com James Hansson em sua equipe e a aliança imediata que se surgiu disso, ela adquiriu o negócio com as multinacionais das quais fornecia a mão de obra e se tornou inatingível por longas duas décadas.
Liza herdaria um trono perfeito, poderoso e influente se não fossem os escândalos.
Os escândalos de corrupção envolvendo políticos de diferentes países ameaçou expor as multinacionais e suas ligações com os Vaccari, o que abalou a aliança. Depois que descobriu-se que a única saída para livrar-se do problema seria deslocar a atenção para os próprios Vaccari, o primeiro pilar do império foi removido:
Influência política.
Apesar de tudo, os Vaccari do comando Beth-Liza já haviam conquistado novas bases em diferentes países do Norte da África e expandido o negócio, o que manteve seu poder financeiro, que lhe permitia manter as alianças que ainda estavam de pé, e conquistar outras novas, de preferência, que impedissem o andamento da investigação já em curso.
Então César formou alianças com grupos terroristas através do contrabando de armas, se lançou como uma concorrência no Norte da África, atacou bases que pertenciam à Liza e ameaçou o segundo pilar de seu império:
Capital financeiro.
A partir do momento que Liza assumiu o comando, a antiga questão pessoal que envolvia os membros legítimos da família veio à tona. César e Liza passaram a caçar um ao outro, enquanto a investigação avançava, e conforme cada detalhe era exposto, mais a máfia era enfraquecida. Me parece um conjunto de erros sucessivos de ambas as partes, que poderiam unir-se contra a ameaça em comum, mas colocaram seus problemas internos e familiares acima do negócio.
É o tipo de erro que jamais seria cometido por Jennifer.
Talvez isso seja o que a diferencie de César, e ao mesmo tempo o coloque tão próximo a Liza.

“Entretanto, o foco atual é desarticular a organização criminosa responsável, e creio que a prisão de Liza e César Vaccari, já recapturados e mantidos sob vigilância, seja um grande passo rumo ao objetivo.”
– Miranda continua.
“Não somente a União, mas acredito que todos os cidadãos da Europa e do Ocidente reconhecem a necessidade da compreensão e colaboração geral nesta que, repito, é uma causa que pertence a todos.”

“Deveria se sentir satisfeita por estar aqui.”
  – Mogherini sussurra em meu ouvido.
“Não foi isso o que sempre quis o tempo todo?”

Passo um olhar discreto pela sala.

“Estamos no meio de uma coletiva de imprensa, se não percebeu.”
– Rebato.
“Não acho que seja uma boa ideia conversar aqui.”

“Todos estão focados demais em Miranda para nos notar.” – Afirma. – “Passou os dois anos de seu trabalho na Interpol estudando a família Vaccari, louca para que acontecesse uma investigação. Aconteceu. E você fez parte dela. Não é suficiente para deixá-la feliz?”

Encaro seu rosto.
Meu objetivo inicial em trabalhar na Interpol eram os Vaccari. O breve e remoto contato com membros da máfia na adolescência foi o suficiente para despertar uma curiosidade quase compulsiva. Meu contato não foi com o alto escalão, os verdadeiros membros da família, obviamente; quando tinha 14 anos, onde tudo começou, nem sequer imaginava que chegaria tão longe.
Eu estudei esta família, como Mogherini disse, durante anos.
Eu quis uma investigação e quis participar dela.
Minha curiosidade era científica, e parte do meu desejo por uma investigação não estava realmente ligado em fazer justiça ou qualquer coisa do tipo. Entretanto, jamais foi meu objetivo participar do que está acontecendo aqui.
Neste momento, os Vaccari só estão servindo para abafar um problema ainda maior.

“Subestima os jornalistas.”
   – Murmuro, simplesmente. Volto meu rosto resoluto para as câmeras, sem esperar por sua reação.
 
Miranda prossegue com seu discurso até que seus quinze minutos de fala se esgotem.
Então, em seguida, o mediador chama um nome e uma emissora, e as perguntas começam.
As circunstâncias que envolvem o momento, a sobrecarga de informações quanto a recém descoberta sobre a Jennifer e o documento descoberto em Peros Banhos me deixam cansada, e eu não presto atenção em nenhuma das perguntas feitas para Mogherini, Craven ou Miranda. Quando toda a coisa estiver encerrada, vou voltar para a Romênia e provavelmente tirar férias; meses em casa, longe de tudo que envolva a Interpol para limpar a cabeça.
É tudo o que eu quero agora.

“Agente Saxe”
– Um dos jornalistas murmura meu nome e eu retorno num sobressalto, meu olhar procurando o rosto correspondente entre vários a minha frente. Ele volta a falar, e eu consigo encontrá-lo.
“Meu nome é Noel Fournier e faço parte da equipe do site BePolitics. Chegou ao conhecimento da imprensa a notícia de uma viagem até o Arquipélago de Chagos que incluía a senhorita e outros 3 agentes da Interpol, escoltados por soldados britânicos. Como esta viagem se encaixa na investigação?”

Fito Mogherini por um segundo.
Me aproximo do microfone e abro a boca, dizendo...

“Eu e colegas de trabalho fomos para o Arquipélago de Chagos averiguar uma denúncia feita poucos dias antes do ocorrido. A denúncia vem de uma fonte confiável, mas confidencial, que dizia que um bem roubado, muito valioso, havia sido escondido no atol de Peros Banhos pelos Vaccari.” – Respondo. – “De fato, a denúncia foi confirmada e o bem já está em posse do departamento; eu não estou autorizada a revelar do que se trata a carga, a única coisa que posso dizer é que a viagem foi decisiva para fechar uma das lacunas do inquérito. Como se tratava de um território britânico, tivemos que ser escoltados por militares.”

“E como os Vaccari esconderam um objeto roubado numa área restrita, como é o caso de Peros Banhos?”

“O objeto foi escondido muitas décadas antes do momento atual, há mais de 40 anos, numa era turbulenta para o mundo inteiro.” – Digo. – “Nós sabemos que organizações criminosas como os Vaccari se aproveitam de momentos de turbulência para agir. Como se trata de algo que aconteceu faz muitos anos, numa época que não condiz com a atual, além de apresentar características que indicam uma ação isolada, não achamos que fosse válido investigar as razões que levaram os Vaccari a penetrar o bloqueio.”

“O passado ajuda a compreender o presente e planejar o futuro, agente Saxe.”

“Concordo, mas é necessário foco.”
 – Rebato.
“O foco deste inquérito não é avaliar falhas técnicas na segurança de áreas restritas pertencentes a um Estado ou outro. Caso seja necessário esse tipo de análise, e até acredito que seja, deve ser instaurado um novo inquérito que apure a questão, e creio que este inquérito seria da incumbência das forças de inteligência britânica, não do governo italiano. De qualquer forma, a Interpol oferece o apoio que for necessário caso uma futura investigação aconteça.”

O intervalo é anunciado.
Eu levanto e me ponho a sair pelo corredor adjacente, em busca de ar.
Segundos depois, ouço passos atrás de mim. Olho para a origem do som e encontro o rosto de Miranda.

“O que há com você hoje?”
– Ela exige.

“Eu não disse nada de errado.”

“Não, mas eu vi seu rosto durante a coletiva, e ouvi seu tom quando respondeu as perguntas.” – Afirma. – “Madalina, o que está acontecendo? Você sabia sobre essa coletiva com antecedência, nada aqui te pegou de surpresa, eu não consigo entender o que...”

“Você sabe qual é o meu problema.” – Sibilo. Ela muda de expressão.

“Você sempre soube como seria.” – Diz. – “Tem dois anos na Interpol. Tempo suficiente para saber que o politicamente correto não funciona por aqui. Você não é um bebê, Madalina, nem uma adolescente que está descobrindo as injustiças do mundo. Você soube sobre as motivações para essa investigação desde o início e tá querendo dar uma de ofendida agora?! Pois trate de melhorar seu humor e se parecer com alguém equilibrado quando esse intervalo acabar.”

Ela se afasta, e o som de seus saltos ressona em meus ouvidos.
Eu preciso de férias.
Férias e uma expressão melhor para o resto da coletiva.

Caminho em direção ao banheiro feminino, abrindo uma das torneiras do extenso lavatório e molhando meu rosto. Fecho as mãos em concha e deixo que a água as encha o máximo possível. Minutos depois, quando esfrego meu rosto numa das toalhas disponibilizadas, uma mulher de aspecto formal entra, me mede por segundos e diz...

“Agente Saxe, o intervalo acabou.”

LIZA
3 semanas.
Este é o período que o médico responsável por mim estipulou para que eu me recupere e seja transferida de um hospital brasileiro, para uma penitenciária italiana.
Eu deveria estar morta.
Quando era jovem, costumava ter a convicta consciência do que me alimentava, do que me mantinha no jogo, o desejo de vingar a morte dos meus pais. Décadas mais velha, a única razão que me fez voltar para ele tem um nome próprio: Jennifer.
Todo aquele desejo louco e desenfreado por vingança soa tão infantil agora, comparado à minha situação atual; sem conhecimento sobre minha família, sozinha, ainda jurada de morte, com uma irmã adolescente para cuidar, deveria ser óbvia a necessidade de repensar sobre o meu plano. Era impulsivo, mal articulado, suicida. É um milagre que eu não tenha morrido antes.
   
Eu me entrego a uma análise sobre minhas antigas e atuais ações após desistir de dormir. Desde a cirurgia, tenho passado os últimos dias dormindo e acordando, vivendo numa espécie de névoa que me permitia apenas pensamentos fragmentados. Pedaços soltos de memórias antigas pairavam nos meus sonhos, e quando eu acordava, apenas nomes se formavam em minha boca, sem ser ditos.
Will.
Jennifer.
César.
Levanto os olhos lentamente até o relógio de cabeceira, como se me exigisse esforço mover as pálpebras. 3h05. Esta é a primeira vez em que me sinto de fato consciente, capaz de formar uma linha estável de pensamento. Talvez seja essa recém resgatada capacidade a razão da minha falta de sono.
Eu me sinto cansada, como se uma força empurrasse meu corpo para baixo, mantendo cada músculo imóvel, em inércia; movo meus dedos para me lembrar de que tudo está funcionando.
Jennifer.
Quando James apareceu na minha casa, meses atrás, me contando sobre a morte da minha tia e todas as mudanças que se seguiriam com isso, eu não pensava em mim. Eu vigiei as noites de sono da minha filha, aceitei a interferência de membros da máfia para segurança dela, passei, durante meses, horas e horas aflita, inquieta, tentando vê-la ou falar com ela para me certificar de que tudo estava bem. Eu odiei César, mais do que jamais o fiz, por tirá-la de mim bem debaixo dos meus olhos.
Eu estava aflita, frustrada, num misto de tristeza e raiva até então experimentado uma única vez: no sumiço de Alex.
Era como se o pesadelo se repetisse.
Eu assisti aquele vídeo mandado por ele, com Jennifer torturada e Alex morto, com seu corpo suspenso por aquela corda. Os risos de César eram como uma depreciação pela minha própria negligência, como se sua voz se juntasse a minha consciência e repetisse que eu falhei, que eu não cuidei deles o suficiente.
Eram irmãos. Era o filho da minha irmã e eu permiti que caísse nas mãos de César.
Eu era a mãe.
A mãe de Jennifer, e a mãe que Alex não pode ter.
Eu era a mãe, uma mãe rica, uma Vaccari que poderia ter feito mais do que eu fiz para impedir que isso acontecesse.
Eu não fui egoísta com eles. Eu não poderia ser egoísta com aqueles a quem eu mais amei, poderia?
Eu amei aos dois como filhos, mesmo que um deles não fosse; eu amei mais a eles do que a Will.
Eu não poderia ter sido egoísta.
Eu posso ter sido egoísta com todos, até com Will, mas não com eles. Jamais com eles.
Jennifer.
Esse nome me soa horrivelmente ambíguo.
As imagens da minha mãe se sobrepõem aos meus pensamentos, bagunçando meu raciocínio. Diferente do meu pai, ela era presente. São poucas as memórias da minha infância e início de adolescência em que ela não estivesse lá.
Ela era bonita, muito mais do que eu poderia sequer ambicionar ser um dia.
Eu olhava para seu rosto e observava a perfeita e improvável combinação de traços; ela era ruiva, com um tom de cabelo mais escuro do que o normal, cheio, vivo. Sempre pensei que essa mudança de tom era algum tipo de milagre genético que lhe conferia profundidade; suas feições não tinham a delicadeza que se espera fazer parte do conjunto, mas eram fortes, expressivas, e somente agora eu consigo enxergar porquê; ela tinha alguns dos traços árabes da minha avó.
Seu sorriso era doce, verdadeiro, e eu quase posso sentir suas mãos em meu cabelo, do jeito que fazia quando eu era pequena e ela se sentava na beira da minha cama, me avisando sobre a hora de dormir.
Não há um único instante nas minhas lembranças em que ela não era amorosa, doce, preocupada e cuidadosa como uma mãe deve ser.
Ela me manteve longe dos Vaccari o máximo que pode. Me protegeu da minha família e dos horrores que a envolvia.
Ela era tudo o que se opõe ao que Diana me disse.
Eu lembro vividamente de seu rosto, seu sorriso, seu olhar; havia amor neles. Ninguém pode fingir amor, não um amor tão profundo, durante tantos anos.
Minha mãe e suas memórias é tudo o que eu tenho de nobre sobre meu passado. Antes de março de 2005, quando fugi daquela casa com Rachael em meu colo, não havia nada além dela.
Nada além de seu cuidado comigo. Nada além de seus braços ninando a minha irmã recém-nascida.
Seria perfeitamente admissível que César tentasse destruir isso.

“Liza?”
 – O som da voz de Will chega a meus ouvidos, repentinamente, num sussurro. Olho na direção de sua voz e o encontro parado na porta entreaberta.

Do lado de fora, ele empurra cuidadosamente a porta, abrindo espaço para que seu corpo passe por ela.
Do lado de dentro, com a porta completamente fechada, ele caminha para o meu leito e agarra minha mão.

“Eles não estão permitindo visitas.”
  – Diz.
“Ordens do comando. Você é uma criminosa de classe III para o governo e para a Interpol. Eles estão te colocando numa prisão mesmo antes de sair do hospital.”

“E você está desobedecendo ordens de seus superiores, mais uma vez.”
  – Murmuro calmamente.

“Não são meus superiores. Não mais.”
 – Responde. Eu arqueio uma sobrancelha.
“Eu perdi o distintivo, Liza. Fui afastado.”

“Eu sinto muito.”

“Não sinta.” – Diz. – “Era isso ou ser preso. Infringi um monte de ordens do governo, esse tipo de coisa era inevitável.”

“Diana deve estar aborrecida com você.”
  – Afirmo. O nome dela soa amargo em minha boca.

O problema não é ela.
César está por trás da manipulação.

Observo o rosto de Will.
Ele vistoria com os olhos meus ouvidos cobertos pelos tampões; sua expressão é calma, séria, e sua mão ainda está na minha. Me pergunto se ele sabe.
Decido não ficar na dúvida.

“Will” – Murmuro, e ele crava seu olhar em meus olhos novamente. – “Você soube o que me levou para a cirurgia, não soube?”

Ele fica mais sério.

“Diana...” – Murmura e eu me apresso.

“Não se aborreça com ela.” – Digo. – “A culpa não é dela. Ela só respondeu minhas perguntas.”

Ele suspira.

“Era algo confidencial.”
  – Começa.
“Eu mesmo contaria depois, quando estivesse recuperada. Foi um golpe duro para todo mundo, mas eu sabia que seria infinitamente pior para você. Como você está com tudo isso?”

“Bem.”
 – Respondo, surpresa. Meu espanto aumenta ao ver sua expressão.
“Porque é mentira. Está obvio, não está? César inventou uma história horrível sobre a minha mãe para me desestabilizar. É tudo sobre ele tentando destruir tudo o que eu tenho.”

Seu olhar soa perplexo, e ele emudece.
Will solta a minha mão, puxa a poltrona para mais perto do leito e se senta, os cotovelos apoiados em suas coxas.

“Liza”
– Ele começa, e há receio em sua voz.
“Você sabe que aquelas bombas não existem, não é?”

“Sei.” – Murmuro. – “A minha mãe se enganou quanto a isso.”

“Ela não se enganou.”
– Afirma.
“Ela mentiu.”

Encaro seu rosto, imóvel, sem saber como reagir.
Então uma risada surge em minha garganta, histérica, que vai embora tão rápida e repentinamente como veio.

“Não me diga que você acredita naquela história toda de ataque psicológico.”
 – Murmuro, ainda com resquícios do riso em minha expressão. Entretanto, eles também somem, quando observo que a perplexidade nos olhos de Will não mudou.
“Will. Você não acredita, não é?”

“Liza, você está me preocupando...”

“É você quem está me preocupando.” – Digo. – “Não é possível que você acredite que a minha mãe criou todo um plano conspiratório de usar a mim e aos Vaccari para um ataque terrorista psicológico. É completamente irreal, Will. Ninguém é megalomaníaco a esse ponto, talvez o César, por ter tido a criatividade de inventar isso tudo.”

“Liza, o César não tem nada a ver com isso.”
  – Ele afirma, aparentando ter certeza do que diz.
“O que sabemos sobre a Jennifer veio de uma investigação coordenada pela Interpol, uma investigação secreta que nem sequer foi revelada para a imprensa. O plano da Jennifer foi descoberto através de Noah Shrader, o irmão dela, seu tio, que estava escondido há 7 anos na Colômbia. A agente responsável pela investigação foi até o Pentágono e cruzou informações que a levou até Noah Shrader. O caso não tem nada a ver com qualquer tipo de manobra do César.”

“Ele pode muito bem ter manipulado a investigação, colocado um homem para se passar pelo meu tio...”

“Você sabe que isso não é possível.”

“E você não conhece o César.”

“O FBI saberia se há outro homem se passando por Noah Shrader.”
 – Ele continua, e eu tenho vontade de mandá-lo embora.
“O mesmo homem que foi interrogado, foi entregue nas mãos do FBI e está preso em alguma prisão de nível 10 nos Estados Unidos agora. Você conhece os procedimentos de segurança, especialmente num caso envolvendo um terrorista. Seu tio era um terrorista. Seus avós eram, e sua mãe também era. Você não pode ficar mentindo para si mesma, porque você sabe que isso não vai durar por muito tempo.”

“Eu conheço a minha mãe!”
 – Grito. De repente, minha raiva e indignação se fazem tão fortes que eu não me importo em chamar a atenção dos guardas.
“Nenhum de vocês conhece, mas eu conheço! Eu vivi com ela durante anos, vocês nem sequer chegaram a vê-la! Minha mãe me amava, e eu sei que ela jamais me envolveria num plano tão sórdido como esse. Ela me protegeu, Will! Ela passou a vida inteira dela me protegendo!”

Ele se cala, e eu volto meu rosto para a parede oposta do quarto, me recusando a ver seu olhar preocupado. Eu me recuso a ver Will me olhando como se eu estivesse louca.
Lágrimas brotam nos meus olhos e eu pisco várias vezes, me recusando a chorar.
Eu não tenho razões para chorar. Eu tenho consciência de quem é a minha mãe, e de quem é o César.
Eu sou a parte certa aqui, e depois de todo esse tempo, eu estou cansada de lágrimas.

“Liza…”
– Sua voz retorna depois de um longo tempo em silêncio. Ela sai doce, mas o clima é hostil demais para que eu me importe.

“Saia daqui.”
– Murmuro, e minha voz sai rouca. Ainda não tenho coragem de olhar para ele.
“Saia, Will. Eu não estou autorizada a receber visitas.”

Ouço quando ele se levanta, e evito seus olhos quando vejo, de soslaio, sua silhueta se mover até a porta.
Minutos depois, nenhum guarda aparece.
A noite está silenciosa como antes e eu recosto a cabeça no travesseiro, sentindo o nó que volta a se formar em minha garganta. Faço um esforço para não permitir que meus pensamentos se acumulem e fecho os olhos.
Respiro fundo.
A única coisa que quero é mergulhar novamente para aquela névoa...