Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

14 de dez de 2016

Sentença (fúria season 3) - Capítulo 74

DIANA
Olho para o relógio quando entro na ala. 07h23.
Fracos raios de luz solar iluminam o quarto branco, é o que noto na entrada, enquanto mostro o distintivo para os policiais na porta.
Lá dentro, Will dorme na poltrona. Lanço um olhar sobre Liza.
Seu tronco move-se para cima e para baixo, lenta e sincronicamente, seus batimentos são estáveis e ela parece bem. Fragilizada, mas bem. Avanço um passo em sua direção.



“Diana?”
  – A voz sonolenta de Will me atinge em seguida, e eu observo, em silêncio, ele erguer-se no assento e esfregar os olhos. Suas olheiras estão mais acentuadas hoje.
“Estava aqui há muito tempo?”

“Não, cheguei agora.” – Respondo e volto a olhar para Liza. – “Ela acordou durante a noite?”

“Não.”
 – Murmura.
“Ela vai fazer uma cirurgia em alguns dias. No ouvido. Nada muito grave.”

Movo a cabeça em concordância.

“Vá descansar, Will.” – Digo. – “Ficou aqui a madrugada inteira e sei que dormiu mal. Eu fico com ela. Não tem com o que se preocupar.”

Para minha surpresa, ele não objeta.
Will se levanta e me lança um apático sorriso antes de ir. Ele caminha devagar, como alguém que ainda não acordou totalmente, e eu tomo seu lugar na poltrona.
Suspiro.
César foi submetido à cirurgia assim que entrou no hospital. A bala, por incrível que pareça, não danificou gravemente nenhum órgão, e depois que o cirurgião apareceu informando que a operação se seguiu sem maiores complicações, eu soube que ele estava fora de perigo.
Vai ficar internado por algumas semanas para se recuperar, talvez mais tempo do que Liza, o que pode nos conferir algumas dias de sossego, ou não.
Apesar de se tratar de César, eu não gosto de admitir que no fundo, preferiria que ele estivesse morto.

Todo um acordo relacionado ao nível em que a polícia italiana e a Interpol podem interferir no atual estado dos chefes Vaccari está sendo feito lá fora. O que não contei a Will é o fato de que também estou nesse hospital desde ontem. Não tive coragem de sair, porque sair da emergência seria assumir questões jurídicas das quais não tenho o menor interesse ou cabeça para assumir no momento. Eu não estaria aqui se não se tratasse de Liza. Apesar da minha conversa com Arjean, ainda me sinto um tanto desnorteada nisso tudo.
Encosto a cabeça no assento.
O cansaço físico e mental agem como uma força, me empurrando para baixo, para um profundo estado de letargia. Tento manter-me em algum nível de alerta, em algum estágio de resistência para não cair em inércia. Decido analisar o ambiente ao meu redor.
Há um balcão branco a minha frente. Baixo, comprido, com um vaso pequeno vazio. A janela de vidro média fica bem atrás de mim. Do meu lado, o leito alto onde Liza tem seus batimentos monitorados.
Tudo é branco e limpo. Essa é uma ala isolada, e o quarto de César fica do outro lado do corredor.

“Mãe!”
– O grito de Liza me desperta, e eu olho para sua figura assustada, num sobressalto.
“O enigma! Eu tenho que ir até ele, eu tenho que fazer...”

Ela afasta os cobertores e tenta sair, mas eu a impeço.

“Liza!” – Chamo, tentando fazê-la olhar para mim. – “Volte para a cama, escute...”

“Não! O enigma! As bombas, eu tenho que impedir....”

“Não existem bombas, Liza.” – Murmuro, tentando colocá-la de volta a cama. Ela fixa seu olhar em mim, desorientada, perplexa. Sua resistência então se vai, de repente, e eu a ponho de volta, arrumo seus travesseiros e cobertores....

“Por que ela mentiu pra mim?”
 – Ela solta.

Eu não estou disposta a responder essa pergunta.
Ela está sentada, ainda, mas acomodada, com os olhos pesados em mim, confusa, perturbada.
Ela espera por minha resposta, que não vem.

“Responda!”
  – Exige, agarrando meu pulso. Olho para seu rosto, e a Liza está de volta, tal como se confirma quando ela diz meu nome...
“Eu sei que você sabe, Diana.”

“Liza, por favor...”

“Me diga a verdade.”

Eu fito sua expressão, imóvel.
Não posso negá-la isso. Ela não me permitiria.

“César...” – Ela balbucia. – “César me disse que ela era uma hedonista. Mas eu não sei porque. Eu não entendo, ele me disse que ela mentiu, que não havia o enigma...”

“Liza, sua mãe não era quem pensa que era.”
  – Interrompo. E eu odeio o que digo em seguida.
“César estava certo. Infelizmente, ele está certo. Sua mãe era membro de um grupo terrorista líbio, que tinha se casado com seu pai para fazer uma aliança econômica. Os Vaccari financiariam o grupo em troca de favores, como encomenda de ataques a determinados lugares ou pessoas, ajuda na invasão de fronteiras enfim... Aquilo sobre as bombas jamais existiu. Ela te fez acreditar que existiam essas bombas para provocar uma guerra dentro da máfia.”

Ela solta meus pulsos e se afasta, como se eu fosse sua mãe ou César.
Seu olhar não está mais em mim, e eu suspeito que sua atenção também não, mas ainda assim, eu digo...

“Eu sinto muito, Liza.”

“Por que?! Por que ela faria isso?! Por que uma guerra?!”
   – Declara, num tom quase desesperado.

“Ela queria que o mundo acreditasse que essas bombas existiam e estavam nas mãos dos Vaccari, alguma espécie de terrorismo psicológico.” – Murmuro. – “Eu não sei qual seus objetivos nisso. Ela fez César acreditar também que ela te revelou algo, por isso ele te caçou, mas eu não sei qual a finalidade disso tudo. Eu queria ter uma razão, algo que justificasse, mas...”

Ela para, quieta, imóvel, me encarando por longos segundos sem dizer uma palavra.
Posso enxergar o quanto sua mente trabalha, juntando coisas, tentando encontrar algo que tenha motivado tudo...

“Uma hedonista.”
  – Solta; sua voz é dura desta vez, e ela não olha mais para mim. Eu encaro seu rosto, e ele estampa a imagem de um caos interno.
“César disse que ela era uma hedonista. Disse que ela era complexa e que nunca havia descoberto como ela reagia ao ódio.”

Então, ela para novamente.
Eu fico estática, impotente, incapaz de dizer algo e invadir esse momento privado.
Ela não está mais falando comigo. Eu nem sequer existo mais aqui.
A única coisa que importa em sua percepção é ela própria, e todo o tumulto de emoções que a rodeia.

“Ela não reage.”
 – Volta a dizer. Lenta, arrastadamente, como alguém que acaba de entender algo muito óbvio, mas por alguma razão, oculto.
“Ela era mais do que uma hedonista. Ela simplesmente... não existe nada que importe em sua vida do que aquilo que a fascina. E o que fascinava minha mãe era o caos. É muito simples, na verdade, e ao mesmo tempo tão... Como eu não entendi antes, quando César estava me dizendo aquilo?”

Seus olhos se inundam de lágrimas e eu me inclino para ela, estendendo a mão...

“Não toque em mim!”
– Explode, mas reconsidera e diz, num tom mais suave...
“Diana, por favor, não me toque, por favor. Eu só...”

As lágrimas tornam-se mais abundantes em seus olhos.
Ela tenta conter o soluço e eu sou incapaz de mover um músculo; eu apenas observo, aflita, esse instante tão particular. Liza enxugas as lágrimas que escorrem e suas mãos tremem.

“Eu não sei...” – Soluça. – “Ela é pior que ele. César... Ele pelo menos sente algo, mas ela não. Nunca sentiu. Eu não sei nem o que pensar.”

Então ela volta a enxugar as lágrimas.
Liza afasta novamente os cobertores e tenta alcançar o chão. Eu me levanto.

“Liza...”

“Eu vou falar com ele.”

“Liza, não.”

Ela me empurra para o lado e alcança o chão.
Eu tento agarrá-la de volta, mas ela me empurra com maior violência; cambaleio para o lado enquanto ela move-se em direção à porta de saída.

“Guardas!”

Eles voltam seu olhar para dentro do quarto.
Os dois homens armados caminham para a Liza e ela recua, desequilibrada. Sua boca se abre em protesto, mas antes disso, ela cai no chão liso do quarto.
Corro em sua direção e puxo-a para mim. No chão, embaixo dela, manchas de sangue se estampam no piso liso.
Olho para seu ouvido.
O tampão, assim como sua orelha, estampam uma hemorragia moderada.

“Vão chamar o médico!” – Ordeno e um deles corre para o corredor.

Ela pisca os olhos, tentando levantar-se, mas somente suas mãos se movem, num gesto de urgência abafada. O sangue escorre por sua orelha e ela desfalece, seu corpo mole e vulnerável quando ergo seu tronco.
Ela está consciente, mas quase desmaiada.
Há sangue escorrendo por sua orelha e lágrimas, por seu rosto.
Quase inconsciente, mas ainda sentindo a dor.
Enfermeiros entram no quarto e a ponhem de volta na cama. Eu me afasto para o canto, olhando imóvel enquanto eles trabalham ao redor dela, afastam sua cama da parede e a levam em direção à porta.

“Ela está sendo levada para uma cirurgia de emergência.” – Informa um deles, que percebe minha presença no local. – “Avise aos familiares.”

WILL
Do lado de fora, nos fundos do hospital, atendo a ligação de Craven.
Sua voz soa irritada do outro lado da linha, um tipo de irritação cansada, como alguém que estivesse exausto por insistir na mesma questão.

“É incrível, honestamente, Richmond, é incrível sua capacidade de se envolver em confusão.”
 – Murmura.
“Não me surpreende que seja casado com Liza Vaccari. Vocês dois se merecem.”

Suspiro.
Eu estava disposto a ficar o tempo que fosse preciso com a Liza, mas não posso negar que me sinto moído.

“O que aconteceu?” – Pergunto.

“O que aconteceu?! Você ainda pergunta?” – Ralha. – “Desobedeceu uma ordem jurídica, Richmond! Desobedeceu uma ordem jurídica no meio de um processo que te acusa de ser cúmplice de uma criminosa internacional, justamente para ver esta criminosa!”

“Não é segredo pra ninguém que somos casados...”

“Não, mas, nossa, que bela fase em que vocês estão!” – Declara. – “Unidos como pombinhos apaixonados! Tão parceiros, tão ligados, tão CÚMPLICES um do outro! Você poderia estar ao menos fingindo que estava num processo de separação!”

“E eu estava, de fato.”

“E não está mais?”

“Não.” – Afirmo. – “E mesmo que eu ainda estivesse, eu viria do mesmo jeito. Era um caso de vida ou morte.”

“Pois então, esse caso de vida ou morte piorou sua situação aqui.” – Diz. – “Primeiro porque exigem sua volta a Itália. Segundo porque isso só dá argumentos para a acusação.”

“Mark, eu não vou voltar.”
– Solto.
“Pelo menos, não agora. Enquanto a Liza estiver aqui, eu não vou voltar.”

“Mas a sua filha!”

“Ninguém vai ousar fazer mal a Jennifer dentro deste departamento.” – Digo. – “Todo mundo concorda que já existem escândalos demais para se criar outro.”

“César pode fazer mal a ela.”

“Não vai.” – Afirmo. – “César está aqui, a poucos metros de mim. A poucos metros de mim e de seu real alvo: a Liza.”

“Você vai ser preso.”
 – Ele afirma.
“Escute, eu recebi uma ligação do juiz ontem. Está todo mundo de saco cheio de toda essa história e o que mais eu quero é encerrar essa droga de caso de uma vez por todas, então, escute bem o que eu vou te dizer: o juiz pretende fazer o que está em seu alcance para te inocentar da acusação, mas isso tem uma condição.”

“Qual?”

“O juiz Marinzoli é uma pessoa um tanto orgulhosa.” – Murmura. – “Ele quer encerrar o caso, mas acha uma profunda e pessoal ofensa você sair impune por ter saído da Itália sem autorização tão descaradamente. Então, o acordo dele é esse: todo mundo esquece o seu envolvimento duvidoso com Liza Vaccari, mas você perde seu distintivo por se mostrar tão rebelde ao seu país.”

Fico tentado a dizer que não se trata do meu país, por minha nacionalidade não ser italiana, mas fico quieto. Craven interpreta meu silêncio como resistência, e diz...

“É uma proposta razoável.” – Diz. – “Ou é isso, ou um mandado de prisão preventiva é expedido contra você e o caso vai para juri popular. A escolha é sua.”

De uma forma ou de outra, eu perderia o distintivo, então não há muita escolha.

“Certo, Craven.”
– Digo finalmente.
“Faça o que achar melhor. Estou liberado?”

“É...” – Hesita. – “Está né, o que posso fazer?”

“Ótimo.”
– Solto. Então, antes de desligar, reitero:
“Só para que fique claro; independente disso, não vou voltar para a Itália antes dela.”