Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

7 de dez de 2016

Sentença (fúria season 3) - Capítulo 73

MADALINA
Quando saio da sala de Craven, já no departamento, Jennifer é a primeira pessoa que encontro.

Há uma longa papelada para ser redigida e enviada, já que o inquérito acaba aqui. Longos relatórios sobre a investigação das bombas, desde os exames geológicos até Noah Shrader e o atol de Peros Banhos me aguardam, e eu me sinto cansada até os ossos só de pensar.
Eu terei que enviar a cópia de todo o arquivo para Safroncik, segundo Craven, e de lá, aguardar até que se saiba o que será feito quanto ao que foi descoberto pela operação.
O departamento mergulha, cada dia mais profundamente, na desordem.

Desde que a questão dos Vaccari caiu de paraquedas no colo do diretor, todo o DPN alterou sua rotina usual para trabalhar em conjunto na conclusão deste caso. Equipes foram montadas, a Interpol apareceu intervindo na situação, a polícia recebeu tantas visitas de uma representante da União Europeia como jamais poderia imaginar e agora, com Liza e César soltos, dezenas de nomes de membros da máfia detidos ou prestes a isso, e os maiores nomes da investigação no Brasil acompanhando um acidente de escala considerável, ninguém sabe muito bem a que caminho seguir.
E Jennifer Richmond está aqui, sentada a minha frente, esperando pelo instante em que a chamarão para mais uma torrente de perguntas.
Me sento num dos bancos próximos a ela, no corredor.

“Você é da Interpol, não é?”
  – Ela pergunta, depois de segundos. Arqueio uma sobrancelha.

“Como sabe disso?”

“A insígnia.” – Aponta.

Olho para baixo.
Perto da faixa do coldre, o brasão da Interpol em cobre se revela parcialmente, ainda que debaixo da minha blusa.
Fito seu rosto.

“Não sabia que era tão observadora.” – Murmuro. Ela não esboça reação.

Jennifer carrega longos cabelos ruivos e uma estranha semelhança, assombrosa até, com sua avó materna.
Eu observo, fixamente, a moça de quase 15 anos a minha frente, e a lembrança de Noah Shrader e dos exaustivos dias do caso retornam a minha mente. Tento empurrá-los para fora e volto minha atenção em Jennifer, e numa tentativa de conversa...

“Ok, meu nome é Madalina Saxe.”
 – Murmuro.
“Acho que nós duas concordamos que você não precisa de apresentações.”

Ela não sorri.
Seu olhar me analisa por segundos, e ela hesita uma e outra vez, mas por fim diz...

“Eu sei o que está acontecendo.” – Solta. – “Com a minha mãe. Estão tentando esconder de mim, mas eu sei que houve um acidente com um trem no Brasil, e que a minha mãe estava lá dentro. É por isso que o meu pai foi pra lá também.”

Eu abro a boca, mas fecho em seguida ao perceber que não há nada a dizer.
Eu encontrei um Craven nervoso e contrariado nesta sala quando cheguei. Ele me informou da Liza, e da atitude precipitada, mas compreensível, de Will em sair do país, desobedecendo uma ordem judicial. Isso vai complicar as coisas para ele, mas a essa altura, quem se importa?

Sua fala não termina por aí.

“Querem informações minhas sobre a minha mãe e os Vaccari.”
 – Continua.
“Me fizeram um monte de perguntas, eu não respondi nenhuma, e não vou responder enquanto eu não for levada até lá. Foi o que eu disse para o sr Craven, e é o que estou dizendo para você agora. A única coisa que peço é que avise ao comando sobre a minha condição. Eu só quero ver a minha mãe.”

“Eu não sei se posso ajudar.”

“Pode.” – Diz. – “Eu ouvi parte da sua conversa lá dentro. Sei que está numa operação importante, e se está nela, é porque tem alguma voz aqui. Fale com o comando. Diga a eles que só precisam me levar até o Brasil para eu abrir a boca.”

“Jennifer.” – Começo, tentando escolher as palavras. – “Sei que está preocupada com o estado de saúde da sua mãe, mas o seu pai está lá, e eu não acho que aquele seja um bom ambiente...”

“Não me trate como se eu fosse uma criança!” – Dispara, e então desaba as costas na cadeira, cansada. – “Olha, dane-se, não importa. Eu só vou falar depois de ver a minha mãe, e não há nada que você me diga que vá mudar isso.”

Eu paro, calada, desconfortável, tentando contornar a situação.
É claro que Jennifer não sabe muito sobre os Vaccari, mas ela esteve com eles por meses, e deve ter descoberto algo, conversas ouvidas e coisas do tipo. E na situação em que Craven e o departamento está, com toda a pressão para que os Vaccari sejam dizimados por inteiro, qualquer atualização sobre o esconderijo de membros da mafia é útil.
Volto a olhá-la, receosa.

“Escute, não vai demorar para que a Liza seja trazida de volta pra Itália.” – Argumento. – “É uma questão de dias. Se tiver paciência, poderá visitá-la quando ela voltar.”

Ela então sorri, preguiçosamente, sem nenhum humor ou satisfação em seus olhos.

“Eu tenho toda a paciência do mundo, Agente Saxe.”
  – Murmura. E então se inclina na minha direção, em tom de desafio, e eu percebo que ela não vai liberar informações. Pelo menos, não agora.
“A pergunta é: será que as pessoas deste departamento serão tão pacientes quanto eu?”

WILL
“Houve uma grande perfuração em seu tímpano esquerdo.”
– O atendente responsável explica, enquanto observo uma Liza desacordada, mas limpa, no leito hospitalar.
“Ela está a base de medicação forte para eliminar qualquer risco de infecção, o que pode deixá-la sonolenta e letárgica durante alguns dias. Depois que o risco de infecção for completamente eliminado, ela será enviada para uma timpanoplastia.”

“Esse tipo de lesão não pode ser curada espontaneamente?”

“No caso dela, não.” – Responde. – “A perfuração foi grave, na maioria dos casos, eu esperaria por uma cura espontânea, mas sua lesão é grande. O mais aconselhável é a cirurgia, o que não deve gerar alarme, já que as chances de complicação são mínimas.”

“Como ela vai ficar depois da cirurgia?”

“Tonta e com bastante desequilíbrio nas primeiras duas semanas. Depois disso, vai começar a apresentar avanços.” – Diz. – “Fora a lesão auricular, ela só teve 2 costelas quebradas.”

Observo seu rosto.
Ela está pálida, respirando estavelmente, com um tampão branco em seu ouvido e tubos finos anexos a sua veia. Roupa de hospital, cobertores brancos até sua cintura. Há dois policiais na porta de seu quarto, para evitar qualquer tipo de ataque.
Volto a olhar para o médico que me observa, analisando minha reação.

“Ela está bem, se olhar as circunstâncias.” – Murmura. – “Ela estava no terceiro vagão de um trem fortemente atingido. O impacto poderia ter feito muito pior que isso.”

Movo a cabeça em concordância, sem tirar os olhos dela.
Soa familiar esta cena. Dolorosamente familiar.
Diana foi acompanhar o caso de César depois que cheguei, que até onde sei, está mais gravemente ferido que ela.
Desabo na poltrona do quarto quando o médico sai.
Toco em sua mão fria, desejando que Diana estivesse lá acompanhando a Jennifer.
Ela está sozinha na Itália, interrogada por Craven e outros policiais; minha cabeça está barulhenta demais para que eu decida se devo partir para a Nápoles ou ficar com a Liza. De qualquer forma, ela será enviada para seu país de origem novamente. Talvez logo depois da cirurgia.
Encosto a cabeça no tecido acolchoado da poltrona, ainda com sua mão na minha, pensando que talvez eu decida isso amanhã.
No momento, a única coisa na qual me foco, é no fato de que ela está viva.
Viva e relativamente bem.
Por enquanto.