Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

4 de dez de 2016

Sentença (fúria season 3) - Capítulo 72

LIZA
Me levanto quando ouço o som do trem se aproximando da estação.
A plataforma está vazia e eu aguardo, com uma larga camiseta e um gorro marrom, até que as portas se abram.
Fui obrigada a assaltar uma loja de roupas depois que fugi, o que chama uma indesejada atenção para mim. Eu não poderia ir a lugar algum na situação em que estava, e agora, meu objetivo é sair da cidade o mais rápido e silencioso que eu puder antes que a polícia me procure.
Antes que a Interpol me procure.
As portas se abrem e eu entro com o resto das pessoas da estação, anônima.
Me sento num dos bancos vazios próximos à janela, organizando minha mochila cheia com minhas roupas sujas, ocultando a pistola escondida no cós da calça jeans.
Encosto minhas costas no banco, olhando para a janela. Depois dessa viagem, eu talvez possa chamar ajuda.

O trem entra em movimento em minutos e eu me permito relaxar no banco acolchoado. Essa será uma longa viagem e talvez eu consiga dormir um pouco até lá. Tenho apenas duas balas na pistola.
Empurro para a fora qualquer pensamento relacionado a Interpol ou César ou minha mãe e tudo o que aconteceu esses dias. Fecho meus olhos. Sinto o trem me embalar suavemente durante a viagem e o sono enebriar meus sentidos, aos poucos.

Então há um solavanco, abro os olhos e César está me observando, alguns bancos a minha frente.

Olho para os lados, com a mão na pistola encoberta pela mochila, a procura de homens suspeitos ao meu redor.
Ele permanece com seus olhos em mim, sem mover um músculo, fixo e calmo, enquanto minha mente fervilha em busca de algo para escapar.
César veio atrás de mim, afinal, como eu imaginei que seria. Eu o atraí para longe do detonador, mas não o suficiente.
O homem a sua frente se levanta e caminha para fora do vagão, na direção da cabine. Olho para seu rosto. É um dos homens que me prenderam nos fundos da mansão.
Ele vai falar com o maquinista. Vai parar o trem.

Olho para o passageiro no banco ao lado. Mulher, grávida, sonolenta.
Grávida.
Lamento internamente por não haver outra escolha.

Saco a pistola e a obrigo a se levantar, com o cano apontado para sua cabeça.
O resto do vagão se alvoroça em medo e alarme, mas ele permanece lá, com seu olhar satisfeito, como se risse secretamente de mim. A refém, por sua vez, nem sequer teve tempo para esboçar reação.

“Fiquem todos em seus lugares e ninguém vai morrer.”
  – Solto para o resto dos passageiros. Todos olham para mim, mas ninguém sai de seus bancos. Apenas alguns estão de pé, mas ainda em seus lugares. Olho para eles.
“Sentem.”

E eles se sentam.
No canto do vagão, atrás de mim, um botão aciona comunicação direta com o maquinista.
Puxo a refém enquanto caminho, lentamente, em direção ao alto falante.
Pressiono o botão com o cotovelo, enquanto os olhos de César permanecem em mim.

“Eu estou com uma arma apontada para a cabeça de uma mulher grávida.” – Murmuro para o dispositivo. – “Meu nome é Liza Vaccari. Se esse trem parar, em qualquer hipótese, ela vai ser a primeira a morrer.”

Aperto o botão novamente, desligando a linha.

“Ameaçando uma gestante com uma pistola. Tão previsível.”
 – César começa, inabalável, em seu banco.
“É realmente uma figura curiosa, Liza. Foi capaz de deixar de lado seu interesse em conhecer sobre sua mãe e sua família para me atrair para longe do detonador, mas agora está ameaçando matar uma gestante e o resto desse vagão por...”

“Pra te impedir de acionar aquilo.” – Completo.

Então ele saca uma pistola e dispara duas vezes na barriga da mulher desconhecida.
Ela cai, com o abdômen ensanguentado, gritando de dor, e eu me afasto, chocada, enquanto ele dá um último tiro em sua cabeça.
Gritos de pânico acompanham os disparos.
Ele se levanta.

“O detonador já foi acionado.”
  – Murmura.
“E sua refém está morta. Qual é o próximo passo?”

Olho para o corpo inerte no chão, a poça de sangue que se forma embaixo da mulher, sua barriga perfurada. Ela parecia ter sete meses de gestação, e em pouco tempo seu bebê nasceria.
Provavelmente havia um enxoval, fraldas e todo o tipo de coisa preparada para a chegada dele ou dela. Agora ela está morta.
Aponto a pistola para César, com o dedo no gatilho.

“Vai me matar, que ótimo.” – Ele diz. – “Vamos. Faça isso. Vingue a morte da pobre desconhecida, mas saiba que quando fizer isso, nunca mais saberá quem foi sua mãe.”

“Tenho a impressão de que nem sequer você a conhece.” – Rosno.

“Então não tenho utilidade para você.” – Responde, e aguarda pelo disparo. Que não vem. – “Seu objetivo vindo até aqui foi me impedir de acionar o detonador. Eu o acionei, e você acabou descobrindo que não existe bomba alguma porque, advinha? Ninguém noticiou nada sobre uma bomba de hidrogênio explodindo em algum lugar. E agora, seu objetivo volta para a sua mãe, e é por isso que você não vai me matar. Talvez esteja certa sobre o que acabou de dizer, mas e se não? O que vai fazer, Elisa?”

O trem continua movendo-se a nossos pés, e não faço ideia de onde está o outro homem que estava com César.
Fito seu rosto, com raiva.
Me sinto cansada por participar disso. Por ser seguida por ele, manipulada, tendo meus movimentos calculados e minha vida vigiada por ele. E meu cansaço, tão velho e profundo, começa a se transformar em fúria.
Movo a pistola de seu peito para seu abdômen e atiro. Ele se curva e cai, e seu rosto estampa surpresa e assombro, pela primeira vez.
Me movo em sua direção, com a arma apontada para seu rosto enquanto ele permanece de joelhos, com as mãos ensanguentadas, pressionadas no lugar da bala, com os músculos contraídos de dor.

“Não estou certa de que quero saber sobre minha mãe.”
 – Murmuro, sentindo o prazer de seu espanto.
“Ela está morta, no final das contas.”

Há apenas uma bala no pente.
Encosto o cano da pistola em sua testa, saboreando o momento, sentindo real satifação, pela primeira vez, com uma morte.
Então, quando meu dedo se move para o gatilho, um imenso impacto nos atinge e eu sou arremessada para longe. Meu corpo se choca contra alguma superfície de ferro e tudo se torna confuso a minha volta. Não há tempo de se escutar gritos, nem sequer o meu provocado pela dor, e o ambiente se torna escuro.
Então tudo para, repentinamente.
Eu ainda consigo sentir meu corpo. Minhas mãos estão vazias, minha cabeça enfia afiadas pontadas de dor, e eu estou atordoada.
Pisco várias vezes. Há poeira em minha roupa.
Levanto parte do tronco, grunhindo de dor, tentando encontrar algo.
O vagão está destruído, e não há sinal de César. Ao meu lado, um dos passageiros tem uma barra de ferro atravessando seu peito. Seus olhos estão abertos e opacos.
Tento me mover, mas os destroços em cima de mim bloqueiam meus movimentos. Toco minha cabeça e sangue vem na minha mão. Há um zumbido em um dos meus ouvidos, também ensanguentado.
Me sinto dolorida, zonza, e tudo volta a girar em minha volta.
Minhas pálpebras pesam e o mundo escurece novamente.
Depois, não há mais nada.

DIANA
2 horas depois

Há helicópteros, jornalistas e ambulâncias nos arredores da ferrovia.
No local do acidente, a cabine de dois trens está estraçalhada, reduzida a um emaranhado de ferragens, enquanto outros vagões estão desalinhados, tombados, mas não totalmente destruídos.
      Segundo informações, Liza e César estavam num desses vagões, mantendo cerca de 15 civis como reféns. O maquinista dos dois trens e mais da metade dos passageiros dos primeiros vagões foram achados mortos.
Ninguém sabe em qual desses vagões ambos estavam, ou se tiros foram disparados antes do acidente,  se o maquinista foi ameaçado ou morto antes da batida, ou se haviam homens da Liza ou do César dentro do trem. Tudo é uma incógnita quando chego ao local da colisão e há uma grande equipe vasculhando os escombros em busca de corpos e sobreviventes.
Do outro lado, nos últimos e quase nada afetados vagões, pessoas são retiradas por um grupo de bombeiros e policiais, trêmulas e confusas, mas sem ferimentos.
Um dos policiais chega até mim com notícias.

“Todos os passageiros dos últimos dois vagões foram retirados com vida.”
  – Murmura.
“Alguns deles muito nervosos, outros com concussões leves, mas nada que gere alarme. Liza e César Vaccari não foram encontrados em nenhum deles.”

Aceno em agradecimento e ele se afasta.
Suspiro.
Will não apareceu até agora.
A notícia de que dois trens haviam colidido numa ferrovia relativamente próxima à antiga mansão Vaccari chegou até nós assim que desembarcamos no Brasil. Como se tratava de um acidente raro e pouco provável, haviam indícios de que as causas que geraram o acidente eram externas, provocadas por algo fora do comum, e dada as circunstâncias do paradeiro de Liza e César; eu e toda a equipe fomos enviados até o local logo quando nos avisaram do ocorrido.
Passo meu olhar pelo ambiente em redor.
Há policiais locais e federais, bombeiros, paramédicos, jornalistas. Helicópteros pairam sobre o ar acima de nós, uma faixa de contenção foi montada por todo o perímetro do local, isolando essa parte da ferrovia, ambulâncias com suas macas e equipamentos estão prontas para receber pacientes e técnicos estão tentando detectar algum risco de explosão ou incêndio.
Temo pela reação de Will quando ele souber o que aconteceu, se é que já não sabe.
Policiais chamam um grupo de paramédicos e uma maca para um dos vagões. Eu observo a cena. Os profissionais entram e encaixam a maca com dificuldade, tentando socorrer alguém.
Quando ela é puxada para fora, minutos depois, quem está deitado, imobilizado pelas faixas e outros equipamentos médicos é César Vaccari.
Corro em sua direção.
Ele está consciente, com um pedaço de tecido ensanguentado firmemente pressionado em sua barriga. Ele olha para mim quando me aproximo.

“Ele foi baleado antes do acidente.”
  – Um dos paramédicos informa enquanto o leva até a ambulância.
“Não dá pra saber qual a gravidade do quadro, mas a área atingida é delicada. Há um alto risco de que algum órgão tenha sido perfurado.”

“Ele está consciente.” – Murmuro.

“Sim, o que pode ser um bom sinal, ou não.” – Responde. – “De qualquer forma, ele está sendo encaminhado para exames e uma possível cirurgia.”

“Este homem é César Vaccari, deve imaginar que ele não será encaminhado apenas pelos médicos.” – Diz. – “Um grupo de policiais vai escoltá-lo.”

“Gente da PF, suponho.”

 Então um deles surge ao meu lado, com seu uniforme e identificação.

“Detetive Milazzo, a polícia brasileira já se prontificou a acompanhar todo o processo.”
   – Ele murmura.
“Deve saber que César Vaccari está sob a responsabilidade do governo brasileiro desde a extradição.”

“Sim, eu sei, agente.” – Murmuro, fitando-o. A maca segue com César até o interior da ambulância. – “A questão é que existem indícios de que César Vaccari continuou atuando em negócios ilícitos durante o período de liberdade provisória concedida a ele, além do fato de que ele e Liza Vaccari mantiveram, sob a mira de uma arma, mais de 10 civis em cativeiro dentro desse trem. Ele pode estar sob a incumbência do Estado brasileiro, mas os Vaccari ainda são um problema nosso.”

“Escolha um membro de sua equipe para nos acompanhar na escolta, então.”
  – Declara.
“Estamos esperando no carro.”

Então ele se afasta, caminhando em direção a um dos carros pertencentes à Polícia Federal. Olho para Ettori, e ele entende tudo em segundos. Ele caminha na direção dos carros e segue com os agentes brasileiros.
Não posso escoltar César porque ainda falta alguém. Liza.
Não posso me permitir sair daqui até que eu saiba onde e como ela está.
Minutos depois, entretanto, ela também é retirada do mesmo vagão onde César estava. Desacordada, porém viva. Há um imenso corte em sua cabeça, próximo a seu ouvido esquerdo. Há sangue escorrendo por toda extensão de sua orelha.

“A paciente está com o tímpano esquerdo rompido, preciso de gaze e protetores!”
  – Um dos paramédicos solta para outro profissional que está dentro de uma das ambulâncias.
“Risco de trauma grave, há uma ferida lacerada na região pariental inferior.”

Ela é posta dentro da ambulância e eu me volto para um dos membros da equipe.

“Agente Essi, mantenha o grupo aqui e descubra informações sobre a situação judicial dos investigados, especialmente de César Vaccari.” – Digo. – “Vou estar na escolta de Liza Vaccari.”

Então corro em direção aos carros, posicionados para seguir a ambulância.
Eu mostro o distintivo para os policiais próximos e nós entramos num dos carros.
Meu celular toca.
Will.

“Onde a Liza está?” – Ele pergunta assim que atendo a ligação. Pelo tom de sua voz, ele sabe o que aconteceu.

“Estou ajudando a escoltá-la até o hospital agora.”
  – Digo.
“Ela está viva e vai ficar bem. Vou ficar de olho nela. Tenho que desligar.”

Então desligo a linha.
Um dos agentes brasileiros olha para mim com ceticismo. Desde que a imprensa espalhou que William Richmond, um dos membros mais importantes da operação é justamente o esposo de um dos réus, desconfiança é um sentimento constantemente direcionado a nós.
Guardo o celular no bolso e olho para frente, fingindo, como sempre, que eu não notei seu olhar ou pelo menos, que não me importo com ele.