Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

25 de nov de 2016

Sentença (fúria season 3) - Capítulo 71

WILL
“Liza foi para o Brasil.”
 – Revelo, enquanto ela permanece calada.
“Tenho quase certeza disso. César ganhou liberdade provisória e vai montar o detonador. Liza com certeza vai tentar impedi-lo, e vamos ter uma guerra. Diana, percebe o problema? Vai haver um confronto se não...”

“Will.”
– Ela interrompe. Sua voz soa calma demais, até letárgica, e eu franzo o cenho.
“As bombas não existem. Em lugar nenhum. Aquele detonador não vai acionar nada.”

“O que?”

“Foi isso que eu fiz enquanto eu estava fora. Descobrindo esse tipo de coisa.”
 – Declara.
“É uma longa história. Uma longa e suja história.”

“Ok.”
 – Murmuro, hesitante, tentando organizar minha linha de raciocínio.
“Ok, não existe as bombas, mas um confronto existe. Eles vão para essa guerra havendo bomba ou não, o que não tira a gravidade do problema.”

“O que você sugere?”



“Vamos montar uma equipe e ir para o Brasil.” – Afirmo. – “Hoje.”

“Você não pode sair da Itália.” – Salienta. – “Ainda há um processo aberto contra você.”

“Isso não importa.”

“Will...”

“A Liza pode morrer nisso!”
 – Digo.
“Não me peça para ficar parado e assistir uma tragédia acontecer. Nem você, com todo o seu autocontrole, seria capaz disso.”

Ela para, calada, sopesando as possibilidades.
Então ela suspira, saindo da letargia, se levanta e diz...

“Vou montar a equipe, mas você não vai comigo.” – Começa. – “Pelo menos não como policial membro da força tarefa. Se for para o Brasil, vai estar sozinho. Vou com a equipe no jato da polícia com autorização de Craven e você vai se virar para conseguir estar lá. Essa é a condição.”

“Certo.” – Digo.

Então saio da sala, em direção à saída do departamento.
Há um longo dia pela frente.

MADALINA
O helicóptero pousa na linda costa de Peros Banhos.
Dessa vez, a Interpol é a única organização policial presente nesta viagem. Diana foi deixada em Nápoles, de volta ao DPN enquanto eu mal pousei na Itália; este é um dos atóis do Arquipélago de Chagos, um território britânico no meio do Oceano Índico, onde, segundo Noah Shrader, o verdadeiro ‘enigma’ foi enterrado.
Há, novamente, uma equipe de geólogos nos acompanhado com seus equipamentos num dos helicópteros. Quando piso na areia, torço internamente para que essa carga seja achada.
Em minutos, a costa é tomada por geólogos, agentes da Interpol e militares britânicos encaminhados para acompanhar a viagem. Olho para a imensidão do mar à minha frente.
É um lugar isolado, desabitado, soa como um pedaço de terra imaculada no meio do oceano, limpa das guerras e preocupações do dia a dia comum.
Eu poderia ficar aqui minha vida inteira.

Sento na areia repleta de minúsculas pedrinhas bonitas, deixando o exame, o enigma e tudo o que vem com ele atrás de mim. Existem agentes suficientes para vistoriar o processo.
Habsburg, um deles, senta-se ao meu lado na areia, contemplando o mar em seu tom de azul claro.

“A presença de militares aqui suja a paisagem.”
  – Diz. Olho para ele com a sobrancelha arqueada.
“Não diga isso a eles, é claro. É só que nós, agentes, estamos aqui de passagem. Depois que o exame acabar, vamos embora e nunca mais voltar, já os militares não. Eles sempre vão estar aqui. Reclamando uma terra que tem interesse apenas por uma questão de estratégia.”

“Estratégia militar.” – Murmuro. Ele concorda com a cabeça.

“Exatamente.”
– Responde.
“Isso aqui não deveria ser usado em nada que tivesse guerra envolvido. É bonito demais. É um lugar limpo e esperançoso demais para estar envolvido nesse tipo de coisa.”
Eu solto uma risada leve, rápida, auto-depreciativa.

“Nada como um lugar bonito e livre de seres humanos pra nos fazer sentir nojo de onde vivemos.” – Murmuro. Ele ri de volta.

Passamos um longo tempo em silêncio.

“Acha que a carga vai ser achada?” – Ele pergunta.

Olho para ele.
Hector Habsburg é um dos agentes que trabalha no mesmo setor que eu. Ele foi um dos que me acolheram e foram legais comigo quando entrei. Isso criou um certo grau de amizade.

“Torço para que sim.”
– Confesso.
“Quanto mais cedo tudo isso acabar, melhor.”

Ele concorda.

“Vai voltar para a Romênia com toda a moral depois dessa investigação.” – Murmura. – “Isso vai melhorar teu currículo.”

“Que não era muito bom, você quer dizer.” – Digo, e nós voltamos a rir.

“Nós vamos sair e beber quando acabar.” – Diz. – “Eu, você e todo o pessoal.”

Então outro agente surge, dizendo que os geólogos encontraram algo.
Nós dois nos levantamos, alertas, ansiosos. Há alguns metros da praia, um grupo escava a terra, e eu não deixo de pensar nas histórias de piratas e caça ao tesouro quando criança.
Pelo menos, naqueles casos, se sabia que era sempre ouro ou pedras preciosas.
Dessa vez, o conteúdo da carga é totalmente imprevisível.

Minutos depois, uma caixa reforçada e revestida em metal é desenterrada na frente de agentes e militares.
Não há trancas ou senhas, apenas uma alavanca facilmente acionável.
Um dos agentes abre a caixa coberta por areia e cascalho. Lá dentro, uma pasta.

“O que é isso?”
– Habsburg se apressa.

O agente abre a pasta, lê o conteúdo de sua contra-capa e olha para nós, com assombro.
Seus dedos passam rapidamente pelas folhas amareladas pelo tempo, como se ele necessitasse de uma confirmação. Ele passa a pasta para Habsburg, olha para os militares com receio e diz...

“É um documento datado do período entre a Segunda Guerra Mundial e início da Guerra Fria.”
  – Murmura.
“Provém da antiga União Soviética. Se trata de uma cópia do documento protótipo da Tsar Bomb em sua versão original.”

A Tsar Bomb foi a conhecida arma nuclear soviética de 50 megatons.
Ela passou por uma redução, o que significa que sua primeira versão – a versão original, possuía 100 megatons, uma arma assustadoramente poderosa.
Dentro desta pasta, contém informações sobre a bomba e como ela foi feita.
Parte da história de Jennifer Vaccari é verdade, afinal.
Os Vaccari tiveram acesso não a bombas nucleares, mas o documento protótipo da maior delas. Uma cópia foi feita do documento e mantida em segredo durante anos.
Não é algo que represente uma ameaça tão iminente quanto Jennifer fez acreditar, mas sem dúvida é um documento valioso e perigoso, que com certeza será reivindicado pelo governo russo.
Um documento russo em território britânico, ‘furtado’ por uma máfia italiana.
Olho para Habsburg.
Esse é o momento em que a situação sai de nossas mãos.