Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

25 de nov de 2016

Sentença (fúria season 3) - Capítulo 70

LIZA
Eu me sinto mais cansada que nunca quando amanhece.
Eu estou presa no porão que fica nos fundos da casa, acorrentada com algemas espessas de ferro em meus tornozelos, olhando para as paredes do cômodo vazio.
Há um tímido raio de luz solar que bate em meu rosto através da pequena janela.
Ainda há riscos meus na parede, feitos com lápis colorido quando eu era criança, e eu me observo, como se pudesse ver minha versão infantil materializada em minha frente.
Olho para esses vestígios, tão ignoráveis para todos, exceto para mim, e me pergunto qual seria minha reação se eu, naquele momento, pudesse ver no que me tornaria anos depois.
Fecho os olhos, sentindo a cálida luz em meu rosto, e suspiro.
Essa é uma visão decadente para uma criança de 7 anos.



Foi impossível dormir depois de tudo, e os efeitos de uma noite em claro são nítidos em meu corpo. Meu corpo está pesado, dolorido, e minha mente continua barulhenta mesmo depois de horas desde minha conversa com César.
Por que todos aqueles capangas não me surpreenderam?
Eu deveria ter trazido meus homens. Deveria ter ouvido Nicolas e me protegido, é o mais lógico a se pensar, mas no final das contas, eu não me arrependo de ter vindo só. Eu não queria ver mais ninguém ali enquanto César me dizia aquilo. E de certa forma, eu quero saber o que ele terá a me dizer agora.
Estou presa, desarmada, em suas mãos, e por isso próxima o suficiente para descobrir tudo o que ele tem sobre mim. Nunca aconteceria se eu não estivesse sozinha.

Como trazido pelo destino, a porta é aberta e ele entra.
Há uma bandeja de café da manhã em suas mãos; bolo, frutas, torradas, água e suco. Ele pousa próximo o suficiente de mim e eu arqueio uma sobrancelha.

“Não pretendo torturá-la, deixá-la faminta ou com sede, se é isso que pensa.” – Diz. – “As correntes são só para que não fuja. No mais, esse tipo de privação seria algo a se aplicar quando quero tirar alguma informação de alguém, o que não é seu caso. Não tenho interesse em nada do que tem, e sim no que posso dar a você.”

“Dar o que?”

“Informação.” – Declara. – “Ainda não tem o suficiente sobre seu passado.”

Ele se senta no chão, do outro lado do cômodo, e eu o observo em silêncio.
César tira uma pistola do cós da calça, como se a arma o incomodasse, e pousa no chão ao lado dele. Então volta a olhar para mim, serenamente.

“Coma.”
 – Ele diz, apontando para a bandeja.

Eu pego um dos pedacinhos de bolo e mordo sem vontade.
Estou horas sem comer e não posso dizer que a comida está ruim, mas ainda assim, não tenho fome. Tomo um gole da água para ajudar a descer enquanto ele me observa com toda a tranquilidade e paciência

“Poderia me torturar só pelo prazer disso, já que me odeia.” – Digo. – “Uma hora, é o que vai fazer.”

“Garanto que não.”
– Responde.
“Não sou o tipo de pessoa que tortura por torturar. Tudo o que faço tem uma razão para acontecer. Torturar alguém só pelo prazer seria algo que seu pai faria, não eu.”

“Isso seja porque tem um coração maior que o dele, suponho.”
 – Murmuro com ácida ironia na voz. Ele não se abala.

“Não, de forma alguma.”
 – Afirma.
“Acho a prática medíocre, só isso. Não sou um hedonista. Essa, inclusive, é uma característica que ambos, Jennifer e Tony compartilhavam e sempre fiquei me perguntando se você herdaria. É uma hedonista, Liza?”

“Não.”

“Não está analisando a pergunta corretamente.” – Reprova. – “Pense. É uma hedonista, Liza?”

“Não tente bancar o psicólogo comigo.”
 – Ralho.

“Lamento.” – Diz, encolhendo os ombros. – “Sua mãe possuía um tipo de hedonismo que era diferente do que se espera normalmente de alguém assim. Ela era infinitamente mais inteligente e complexa que seu pai. Ele era facilmente decifrável, tão facilmente que chegava a ser tedioso. Jennifer, não.”

Eu o observo, ainda em silêncio, presa a suas palavras.
Pouco se foi dito sobre a minha mãe por Beth. Até mesmo por seu diário.

“Não sabe o quanto fiquei ofendido quando a Beth descobriu sobre o estupro.”
 – Continua. A menção desse estupro, o estupro que gerou a Rachael, me dá calafrios.
“Ela achou que eu estuprei a Jennifer do mesmo jeito que fazem os estupradores. Eles geralmente fazem isso por prazer, e eu faço isso por análise. Nada melhor para se descobrir quem de fato é uma pessoa do que despertando seu ódio. É incrível como algumas doses de ódio nos prepara para a guerra. Eu queria ver como a Jennifer reagiria a ele.”

A pergunta vem até mim, mas não tenho coragem de fazê-la.
Parece muito inescrupuloso, e ao mesmo tempo intimidador, essa pergunta. Inescrupuloso porque seria demonstrar interesse pela ‘análise’ sórdida de César, e intimidador porque eu não sei se desejo ouvir a resposta.
De qualquer forma, ele fala mesmo assim.

“Eu não descobri.” – Murmura. – “Eu não descobri até hoje. Me sinto impotente dizendo isso.”

Então ele fixa seu olhar em mim, como se saísse de seus pensamentos e voltasse a notar o mundo a sua volta. Voltasse a notar a mim.

“Como descobriu o enigma?” – Ele pergunta.

“As palavras-chave.”

“Sim, as palavras-chave.” – Repete. – “Surgiram lembranças em sua mente quando você as leu?”

“Sim.”
– Respondo, receosa.

“Qual era a data dessas lembranças?”

“1969.” – Murmuro instantaneamente.

“Mas você não era nascida em 1969.”

Abro a boca, mas percebo que não há a nada a dizer para refutar.
De fato, eu não era nascida naquela época.
E não fui para os lugares onde constam as memórias, mas lembro de já ter visto coisas parecidas em livros, fotografias, museus...

“São memórias falsas, Liza.” – Diz, como se pudesse ler meus pensamentos. – “Nunca esteve lá porque o que se lembra jamais aconteceu. Sua mãe tornou viável a formação dessas memórias num longo processo de preparação para hipnose.”

Encaro seu rosto, confusa, incrédula.

“As palavras que leu foram gatilhos que trouxeram a tona essas lembranças.” – Continua. – “Essa foi a forma da sua mãe de revelar o enigma, enigma esse que começo a desconfiar da veracidade, depois dos exames feitos com ordem da polícia.”

“Exames?”

“Sim. Exames geológicos.” – Afirma. – “Exames esses que revelaram que não existem bombas nas mansões Vaccari. De qualquer forma, o detonador está sendo montado para que eu confirme se elas existem em algum lugar.”

“Não!”
– Exclamo, num impulso. Tento me levantar, mas as correntes não permitem.
“César, por favor, não acione isso, você pode causar uma tragédia...”

“A humanidade não parece muito merecedora de compaixão...”

“César, por favor!” – Suplico. – “Isso pode matar muita gente, inclusive nós dois.”

“O que não seria algo tão ruim...”

“César!”

“Não está em suas mãos decidir isso.”
 – Murmura.
“Sua mãe descobriu o enigma. Ela seduziu o velho Jon até que ele revelasse. O que me importa saber no momento é se ela revelou o segredo a você ou não.”

Então ele sai do cômodo, ignorando meus protestos.
Eu me debato nas correntes por longos minutos, aflita, sem resultado. Desabo, encostando minhas costas na parede, me sentindo exausta.
Exausta e confusa. Eu não me atrevo a pensar em nada além de um jeito de sair.
O som de passos em direção a porta surge depois de meia hora e eu busco algo que possa me ajudar.
Olho para a bandeja de comida. Não há garfos ou facas, os pratos são descartáveis e a jarra de suco é pequena, leve e de um vidro fino demais para causar dano.
Se eu quebrasse, a essa altura, chamaria a atenção e provocaria desconfiança. Talvez não tanta se eu própria me cortasse com o ‘acidente’.
Jogo a jarra no chão e ela se parte em pedaços grandes. Agarro um dos pontiagudos cacos e faço um corte em minha coxa esquerda. O material rasga a calça e a pele, e o sangue pinga, misturando-se com o suco derramado no chão. A porta é aberta.

“O que está fazendo?!” – Um dos homens de César vocifera para mim.

“Saia daqui!” – Grito, fingindo descontrole. – “Saia!”

Ele observa a jarra em pedaços, o suco espalhado, a bandeja bagunçada e meu corte.
Só não observa o caco escondido em minha mão.

“César me deu ordens para mantê-la em segurança.” – Ele se aproxima. – “Deixe-me ver o corte.”

“Não!” – Grito. – “Já falei pra sair!”

“Você não decide nada aqui.”

Então ele se agacha, desconfiado, mantendo uma certa distância de mim enquanto recolhe os cacos.
Seus olhos se mantém fixos em mim enquanto ele afasta a bandeja e os pedaços de vidro.
Sua atenção então se volta para o corte.

“Mostre as mãos.”
 – Ordena.

“Por que eu obedeceria você?”
– Rosno, enquanto minha mão empurra o caco escondido para debaixo do meu corpo, com cuidado.

“Mostre as mãos.” – Ele insiste, mais severo.

Sua mão puxa uma pistola e ele a mantém mirada em mim com a mão direita.
Com a mão esquerda, puxa meus braços bruscamente e agarra meus pulsos, observando minhas mãos abertas.  
Ele me solta.

“Vou chamar alguém pra cuidar desse corte.”
 – Murmura, colocando a pistola de volta no coldre. Ele então parece baixar a guarda e se inclina para a ferida, tentando ver o quão profundo o vidro atingiu.
Num segundo, seus olhos não estão mais em mim.
Mergulho a mão esquerda de volta ao caco.
No instante seguinte, finco o pedaço de vidro em seu pescoço, atingindo uma artéria.
Ele grita e eu tapo sua boca, seu corpo se debate e eu tento imobilizá-lo, montando em cima dele, impedindo seu acesso a arma. Ele se debate mais violentamente enquanto o sangue escorre de seu pescoço para meus dedos, ainda agarrados ao caco.
Jogo todo o meu peso em seu corpo, e impotente, sua força mina em segundos.
Cerca de um minuto depois, ele não tem pulso.

Me afasto de seu corpo inerte, procurando as chaves em seu bolso para minhas algemas.
Quando não encontro nada, puxo sua pistola.
Olho para a corrente de ferro que liga minhas algemas à parede.
Dois tiros.
Me movo para o lado oposto da parede e miro no elo preso ao concreto. Fecho os olhos e atiro.
Abro as pernas, esticando a segunda corrente que liga uma algema à outra.
Miro no elo central. Fecho os olhos e atiro novamente.
Me levanto.

Corro para porta. Destrancada.
Abro a porta com arma em punho, olhando para os lados. Minha calça está encharcada pelo suco e minha blusa está suja com o sangue do guarda de César.
Corro para fora da casa e ouço passos na minha direção. Me viro e atiro no peito do homem que corre para mim. Ele cai e eu avanço.
Não tenho tempo de checar as balas. Minha mente trabalha em rotas de fuga enquanto corro.
Os pedaços soltos de corrente ligada às algemas se sacodem barulhentamente enquanto me movo para fora. Pulo o portão, sentindo a dor do corte em minha perna.
É dolorosamente parecido com o que vivi décadas atrás. Dessa vez, ao invés de um bebê, eu tenho uma arma em minhas mãos.
Me embrenho na mata anexa, desaparecendo da visão e do alcance de César e seus homens.
Ele virá atrás de mim.
Sua caça vai desviá-lo do detonador.

WILL
Eu estou de pé no corredor, observando Jennifer, pela janela da sala de Craven.
A imprensa está amontoada na entrada do departamento, tentando tirar uma palavra minha ou de Jennifer.
A imagem dela, capturada pelos fotógrafos, sendo escoltada por mim enquanto escondia seu rosto dos jornalistas vai estar em todos os jornais talvez hoje mesmo. A filha de uma das mafiosas mais influentes da Europa, membro de uma família antiga, rica e perigosa como os Vaccari, sendo escoltada por seu pai para falar de sua mãe à polícia.
Suspiro.
Seu olhar pousa em mim algumas vezes, enquanto ela responde as perguntas do delegado. Não posso ouvir sua voz aqui, então só me contento com vê-la, e ela poder ver a mim.
Bragatti se aproxima, dando tapinhas solidários em meus ombros.

“Como ela está com tudo isso?” – Pergunta, alternando seu olhar entre ela e eu.

“Melhor do que eu pensei que se sairia.”
  – Digo.
“Ela parece calma, não é? Sei que não está calma, na verdade, mas está mantendo o controle.”

“Sim.”
– Ele concorda.

“Eu não queria submetê-la a esse tipo de exposição.” – Digo. – “Nenhum dos dois queria.”

Bragatti nota o sujeito oculto na frase. Liza.
Ele olha para mim, receoso.

“Richmond, eu tenho notícias dele.” – Secreta. – “César Vaccari. E não são boas.”

Olho para Jennifer, tentando disfarçar minha preocupação.

“O que aconteceu?”
 – Pergunto.

“Ele ganhou liberdade provisória.”
– Disse.
“Decidiu ir para a mansão Vaccari, aquela em que a Liza foi presa. Tenho a impressão de que isso é mais perigoso do que parece.”

E ele está certo em sua impressão.
César está na mansão dos pais da Liza com o pingente e uma placa de cobre em mãos. É obvio que Liza irá atrás dele. Se é que já não foi.

“A Diana está no departamento?” – Pergunto. Bragatti estranha a pergunta.

“Sim.” – Murmura. – “Ela chegou há pouco tempo.”

Eu não espero acréscimos.
Me movo rapidamente para o outro lado do departamento, onde fica sua sala.
Ela foi transferida para esse setor desde o início de sua nova investigação com Madalina Saxe.
Abro a porta de sua sala sem bater e a encontro sentada numa mesa, examinando papéis com má vontade. Ela olha para mim assim que entro.

“Diana, temos um problema.”