Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

22 de nov de 2016

Sentença (fúria season 3) - Capítulo 69

LIZA
Eu enrosco o silenciador no cano da pistola, agachada nos fundos da casa que um dia foi dos meus pais.
Já caiu a noite e o local está escuro como breu, uma noite sem estrelas num lugar com pouca iluminação. Há apenas um homem guardando a entrada principal da mansão, armado com uma submetralhadora, de pé, a poucos metros de onde estou.
Foi para isso que César pediu para vir.
César pediu pela extradição não somente porque ele tem contatos aqui que facilitam sua vida, mas porque a placa está aqui, e, Deus me ajude, talvez o detonador.
Ele tem cidadania brasileira, mas nunca me foi permitido pelo meu pai conseguir a cidadania, apesar de ter morado durante anos no país. Eu nasci na Itália, fui criada até alguns anos de minha vida lá e depois migrei para o Brasil, onde morei – clandestinamente, suspeito – no país até a morte dos meus pais. Toda a minha educação foi feita por professores particulares, eu era isolada, criada numa bolha, totalmente alheia ao mundo externo.
Eu tinha 13 anos, a delicada idade de 13 anos quando minha realidade desabou.
Tento expulsar aquela velha sensação de estar relembrando, quase revivendo o caos interno sofrido quando a redoma foi quebrada.
É necessário foco. César está lá dentro, com uma bela parte do futuro em sua mão e prováveis guardas a sua volta.



Me forço a levantar, caminhando silenciosamente, como um fantasma, em busca da posição certa.
Eu me aproximo do homem com os olhos fixados no que está a sua frente e miro em sua cabeça.
Um tiro, e ele está no chão.

Eu não roubo sua arma mas descarrego e espalho as balas, para que ninguém mais as use.
Tudo soa muito fácil quando noto que a porta está destrancada.
Deve haver mil guardas lá dentro.
Volto até os fundos da casa, forçando as trancas e abrindo a porta.
Estou na cozinha, e é um esforço impedir que as lembranças tomem minha mente. Caminho entre eletrodomésticos, mesas, cadeiras e balcões, me perguntando se ele sabe que eu viria. Deve saber. Não deixaria a porta destrancada e um guarda só na entrada se não soubesse.
Nicolas insistiu para que eu trouxesse mais gente, mas essa guerra é minha. Eu ajudei a começá-la e eu vou terminar.
Talvez até ele decida estar sozinho, como eu estou, e resolver isso entre nós.

Há uma luz acesa no fundo, é o que percebo quando entro no corredor; o fraco ponto de iluminação provém da sala de estar anexa à principal. Sigo o feixe.
Lá dentro, César monta uma caixa preta em cima de uma mesa pequena, sentado num dos pequenos sofás. Eu estou às suas costas, vendo sua cabeça sobressair-se no móvel.
Ergo a arma.

“Eu não faria isso.”
– Ele murmura, calmo, sereno, no mesmo lugar. O local ainda está silencioso e não há um único sinal da presença de homens do César.
“Sei que não veio aqui só para colocar uma bala na minha cabeça. Veio atrás de respostas. Respostas que talvez eu tenha.”

Eu fico calada, tentando notar qualquer indício de mais alguém no cômodo.
Ele se levanta.

“Nós dois reconhecemos, querendo ou não, o desperdício de simplesmente matar um ao outro.” – Continua. – “Essa é a quarta vez que nos encontramos, não é, Liza? Nas últimas três, não houve um disparo sequer, e acredito que desta vez também não haverá.”

Quatro vezes.
Uma naquele bar, quando o vi com Nora.
Outra no jantar, quando negociei a vida da Jennifer.
Outra em seu resgate.
E esta.
É incrível como me lembro tão claramente de tudo.

“Está esquecendo uma quinta.” – Digo, e posso ver em seus olhos que ele entendeu.

Rachael.
Eu o vi segurando a bazuca que destruiu o armazém.

“Um erro de cálculo.”
 – Encolhe os ombros.

“Como pode falar assim da morte de sua filha?”

Então, pela primeira vez nesta conversa, posso vê-lo desconfortável.
É um lampejo, um surpreendente lampejo de sensibilidade que some tão rapidamente como veio.

“Por que não atira em mim?”
– Pergunta, apesar de saber a resposta.
“Eu estou sob sua mira. Um aperto no gatilho e eu estou morto.”

Olho para a caixa preta em suas mãos.

“Por que está armando o detonador?”

Ele sorri.

“Agora começaram as perguntas...”

“Pode haver uma bomba debaixo de nossos pés.” – Aviso.

“Não há.” – Rebate. – “A polícia se certificou disso. Você os chamou, não foi, Liz? Contou para a polícia sobre a existência de armas de destruição em massa. A grande e contraditória Liza Vaccari se sente a heroína da humanidade mesmo fazendo coisas tão terríveis.”

“Eu não me sinto uma heroína.”

“É claro que se sente!”
  – Declara.
“Sempre se lamentando, chorando pela má sorte de ter nascido uma Vaccari... Pobre de mim por ter perdido meus pais, pobre de mim por ser quem eu sou, será que vou ter que lembrá-la dos seus pecados pra que você enxergue que é igual a pessoa que mais odeia?!”

 “Não sou igual a você.”

“É, querida, é claro que é.”
– Murmura, não com a fúria anterior, mas com o ar de alguém que revela uma velha constatação.
“Nunca pensou duas vezes antes de apertar o gatilho. Lembra daquele garoto que matou e escondeu o corpo no México, quando pensou que estava tentando matar sua irmã?”

“Não.”
 – Balbucio uma negativa, não para a pergunta que me foi feita, mas num aviso impulsivo, uma resposta ao que será dito.
Eu estava morando durante alguns anos com a Rachael no México, tão estressada e traumatizada que atirei com um revólver no peito de um garoto avulso, numa alucinação em que eu achava que ele era um dos homens enviados para me matar, e matar minha irmã.
Eu tinha medo de tudo e de todos. Eu enterrei seu corpo no quintal daquele sítio com as mãos tão trêmulas que quase não consegui sustentar a pá.
Meu primeiro assassinato, e ele estava lá, assistindo isso.

“Depois que cresceu e esqueceu o que fez, foi para NY. E aí temos mais um nome, não? Jack Stevens. Quebrou o código de ética de seu trabalho para torturar e matar um homem que pensou que estava envolvido na morte dos seus pais. Aquele ladrão de rua. Lauren Black. Todas pessoas que você matou por achar que eram uma ameaça. Nenhuma delas era, de fato. Mas não se importou em se certificar quando apertou o gatilho, não foi?”

Eu começo a tremer, enquanto luto com minha própria mente.
Ele continua.

“Jena, a moça daquele bar. Colocou em risco a vida de uma amiga sua e de todos os clientes presentes ali, conscientemente, por causa dos seus interesses. É uma característica importante, já que chefes de máfia fazem isso o tempo todo. Jon. Alicia. Dasha. Todos que foram mortos direta ou indiretamente por você. Tudo por causa do seu egoísmo. E quanto aos negócios da família? Mantendo toda uma rede de tráfico humano, escravidão, imigração ilegal, já parou pra pensar em quanta gente foi afetada enquanto andava de um lado para o outro em suas mansões?”

“Chega!” – Grito. – “Eu entrei nisso tudo por causa de você.”

“E se saiu tão bem, não foi?”
  – Diz.
“Se saiu como eu me sairia.”

Então o som de armas destravando chegam aos meus ouvidos.
Em segundos, o cômodo está tomado de homens do César.
Ele, por sua vez, deixa o detonador em cima da mesa e caminha na minha direção.

“Não vou permitir que morra,” – Sussurra, próximo a mim. – “Até que descubra quem você é.”

E eu sou incapaz de reagir.
Eu deveria matá-lo, aproveitar enquanto estava próximo, mas seus homens tomam minha pistola e agarram meus pulsos.
Eu não ofereço resistência. Ao invés disso, eu observo sua sombra sair da sala, imóvel, chocada, enquanto me levam para fora. Eu sou levada para os fundos, acorrentada num quarto e deixada sozinha.
Me sinto anestesiada. Confusa, suja, furiosa, mas anestesiada. Incapaz de fazer qualquer coisa.

DIANA
Depois de dois toques, a porta é aberta.
Um Arjean confuso olha para mim, e eu não digo nada, apesar de estar na porta de sua casa. Ele observa minha expressão e abre espaço para que eu entre, em silêncio, enquanto o relógio aponta para a meia noite e alguns minutos.
Eu me sinto desorientada. Eu devo estar realmente mal para ter vindo aqui.
Arjean me guia até a sala de estar, me faz sentar no sofá e oferece café. São longos minutos de silêncio até que eu esteja confortavelmente sentada, sentindo o café quente esquentar meu corpo frio.
Ele se senta na ponta da mesa de centro, de frente para mim.

“Finalmente, pode me contar o que aconteceu.” – Murmura. – “Algo sobre o Will?”

“Também.” – Digo. – “Mas é pior do que qualquer coisa que você pense. É sobre o Will, sobre a Liza, sobre a investigação, sobre tudo.”

“Pois então...”

“Teve a oportunidade de conhecer Jennifer Vaccari?”
 – Pergunto, hesitante, sem saber por onde começar. Ele ri.

“Céus, não.”
– Murmura.
“Eu era muito novo quando ela morreu, acredito.”

Concordo com a cabeça.

“E se eu dissesse que toda essa guerra entre o César e a Liza foi motivada, propositalmente, por ela?” – Pergunto. – “Você acreditaria em mim?”

“Bom, eu não duvidaria.”

“E se eu dissesse que o enigma na verdade não existe, pelo menos não da forma que se pensa?”

Ele arqueia uma sobrancelha.

“Como assim, Diana?”

“Eu o vi, Arjean.” – Murmuro. – “Eu vi o irmão dela. Nós interrogamos ele. Ele revelou tudo.”

“Tudo o que?”

“Tudo o que ela fez.” – Respondo. – “Ela manipulou a Liza. Manipulou o César. Manipulou todo mundo para fazer acreditar que aquelas bombas existiam.”

Ela me encara com estranheza, mas não diz nada.
Eu tento esclarecer...

“Jennifer fez a filha acreditar que o enigma se tratava de bombas de hidrogênio ‘furtadas’ da União Soviética num período anterior à Guerra Fria.” – Digo. – “De alguma forma, ela descobriu algo secreto da família Vaccari e mentiu, fingindo uma revelação para a filha, manipulando sua mente para que ela acreditasse fielmente nisso. César provavelmente soube e acreditou que Jennifer havia revelado um segredo valioso dos Vaccari a Liza. Então eles estão se caçando. Ele não a matou até agora porque acreditava que ela era a única que tinha o enigma.”

Ele continua em silêncio, como se esperasse que eu acrescente algo.

“Você deve saber que César seguiu os passos da Liza desde muito cedo.” – Continuo. – “Eu encontrei uma pasta em seu quarto, quando me fiz passar por uma governanta, onde haviam fotos de Liza e Rachael Vaccari datadas desde o ano em que seus pais foram assassinados. Havia, além de datas, informações sobre os locais onde as fotos foram tiradas, enfim... Ele seguiu seus passos. Ele não permitiu que ela tivesse uma vida normal porque ter uma vida normal significaria desistir do enigma. Ele a perseguiu, não como alguém que planeja matar, mas como alguém que planeja guiar os passos de alguém para determinado caminho. E no final das contas, ele foi uma peça. Ele, a Liza, todos nós desempenhamos bem os personagens nesse jogo psicológico.”

“Você não faz parte disso.”

“É como se eu fizesse.” – Respondo. – “Will é meu amigo e eu conheci a Liza. Ela sempre pareceu atormentada, nunca totalmente bem, nunca a salvo.”

Ele solta um longo e profundo suspiro.
Sua mão coça o canto superior de sua nuca e ele para, analisa, tenta encaixar as peças...

“Eu não entendo” – Murmura. – “Por que a Jennifer faria tudo isso? Por que se dar ao trabalho?”

“Ela queria que as autoridades soubessem.” – Explico. – “Arjean, você precisa entender que Jennifer Vaccari era uma louca megalomaníaca, uma psicopata. Ela planejou que uma guerra entre os chefes, já que ela supos que Liza um dia se tornaria chefe, ou pelo menos chegaria muito perto disso, deixaria a máfia vulnerável e barulhenta. Mesmo que a Liza não chegasse a assumir a chefia, tanto Jennifer como Anthony já estavam jurados de morte na época, César obviamente seria um líder, e quando Anthony morresse, Beth seria a próxima no comando. Beth Vaccari jamais admitiria que César tentasse algo contra sua sobrinha. De uma forma ou de outra, seria uma longa e violenta guerra entre chefes que desviaria o foco deles e atrairia o foco da polícia.”

“Exatamente como aconteceu...”

“Sim.” – Concordo. – “Sim, a cisão nos atraiu. Logicamente, durante a investigação, surgiria a pergunta do porquê os líderes estão em guerra, e isso nos levaria até o enigma falso. E então, com alguns descuidos, nossos ou dos próprios Vaccari, a notícia vazaria, e caso acontecesse e o mundo acreditasse que haviam bombas de hidrogênio na mão de mafiosos doentios e sem escrúpulos, entraríamos em colapso. Seria extremamente difícil conter o caos.”

“Uma especulação que não deu muito certo.”

“Mas todo o resto deu.”

Então Arjean volta a me encarar atentamente, com o rosto concentrado.
Ele soa como alguém que tenta decidir se deve dizer algo ou não. Eu espero, mais aliviada em simplesmente ter contado para alguém, mas não menos impotente. Por mais absurdo que seja tudo isso, Arjean está levando a sério minhas palavras. De fato pensando, analisando, pesando posições...

“Diana, escute.” – Ele finalmente fala. Sua mão toca suavemente a minha. – “Eu não estou completamente certo de que César esteja atrás da Liza somente pelo enigma.”

Franzo o cenho.

“Eu trabalhei com ele durante anos da minha vida.” – Continua. – “Gosto de pensar que convivi com ele o suficiente para saber quando alguma coisa para ele é profissional, e quando é pessoal. Ele me deu ordem direta para matar Vera Kvitova, e quando o fez, eu sabia que ele estava tratando de negócios, mas eu posso te assegurar, Diana, nunca houve indiferença em sua voz quando ele falava de Liza.”

“E o que havia, então?”

“Eu não sei.” – Responde, e há franqueza em seu tom. – “Só sei que ele não está nisso só pelas falsas bombas. Não posso negar que foi um plano muito bem calculado, e em geral bem sucedido, mas as ações de Jennifer Vaccari não definiram tudo o que está acontecendo hoje.”

Ele então agarra a xícara de café vazia e caminha para a cozinha.
Eu reflito em suas palavras, especialmente nas últimas frases, enquanto o observo colocar a louça na pia. Jennifer não pode ter decidido tudo. Por maior que seja seu poder de influência, ninguém pode ditar circunstâncias e decisões mesmo depois de morta. Ninguém pode ter formado um plano tão bem sucedido numa vida tão imprevisível.
Em segundos ele está de volta, mantendo uma distância razoável, respeitando meu espaço.
Olho para seu rosto, com uma ponta de gratidão, sentindo meus pensamentos e emoções voltarem ao lugar. Nem tudo está perdido, e algo pior ainda pode ser parado.
Nossos olhares cruzam enquanto ele arruma coisas na sala, e eu posso sussurrar, internamante e inaudível...
“Obrigada.”