Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

19 de nov de 2016

Sentença (fúria season 3) - Capítulo 68

MADALINA
Quando Aram Vitali caminha em minha direção com o rosto sério, eu constato que as notícias não são boas, nem para Noah, nem para sua filha.
Essa é a parte podre do meu trabalho, é o que eu penso enquanto observo a pista de voo a minha frente, com seu jato pousado e agentes ao redor.
Do outro lado, Diana está sentada num dos vários bancos retráteis do espaço fechado anexo à pista.
Eu estou no ponto zero.

“Noah foi entregue ao FBI mediante acordo.”
– Vitali diz quando se aproxima.
“Foram feitas ligações e nossos agentes tiveram longas conversas, mas o comando aceitou que Noah esteja nas mãos do FBI com o trato de que ele testemunhará e passará por quantos interrogatórios forem necessários para a nossa investigação.”



“E a menina?”

Vitali me analisa por segundos, decidindo se deve ou não contar.

“A menina é um problema.”
  – Diz.
“Noah está com o FBI e não vai contar nada do que aconteceu na casa, mas a garota...”

“Ela é esperta, ela não faria isso.”

“Não existe essa garantia.” – Murmura. – “Noah é um terrorista, a cara dele está estampada em tudo quanto é jornal, ninguém acreditaria em uma palavra dele, mas a filha... Ela é uma civil. Ela pode não contar agora, mas se em alguns anos deixar vazar a notícia de que agentes da Interpol estão envolvidos em casos de tortura...”

“O que vocês fizeram com ela?”
  – Exijo, finalmente.

“O que se faz em situações de risco como essa.”
 – Responde, e eu fecho os olhos, lamentando. Queima de arquivo. A essa hora a menina já está morta.
“Agente Saxe, precisa saber que esse tipo de coisa é necessária. Ninguém gosta de fazer isso, mas é
toda a imagem de uma organização que está em jogo.”

“Ah, vai se ferrar com teu formalismo, Vitali.”
  – Disparo.
“É bom que o Noah não saiba disso.”

Então eu me afasto dele, caminhando para a fileira de bancos na parede oposta.
Diana está inclinada, com os braços apoiados nas coxas e o olhar fixo em algum ponto qualquer. Eu puxo um dos bancos retráteis para frente e me sento ao seu lado.
Tudo aquilo que Noah disse sobre a manipulação e o plano de “ataque psicológico” de Jennifer Vaccari afetou todo mundo, especialmente Diana. Ela é uma amiga íntima de Will, o que faz com que ela tenha uma certa proximidade com a Liza também, e imaginar que toda essa bagunça não passou de um jogo sádico não é algo fácil de se digerir.
Suspiro.

“Nós vamos embarcar daqui a pouco.” – Murmuro, cuidadosa. – “Os agentes estão se organizando e...”

“Tem ideia do quão horrível é tudo isso?”
– Ela interrompe.
“Sei que viu a situação quando Noah contou, mas tem realmente a ideia do estrago?”

“Não.” – Confesso. Ela concorda com a cabeça.

“Liza nunca teve paz.” – Diz. – “César nunca permitiu que ela tivesse. Sempre indo atrás dela, monitorando seus passos, caçando-a por causa de um segredo que nem sequer existe. Eu não sei como ela vai reagir, sinceramente. Não sei como ela vai reagir quando souber que sua própria mãe enfiou a própria filha nessa guerra a troco de nada. Não é possível... Não é possível que ela tenha conseguido provocar tudo isso...”

“Ela não conseguiu o objetivo final, Diana.”

“Mas ela conseguiu todo o resto.” – Rebate. – “Eu não consigo entender qual o tipo de motivação doentia que faz uma pessoa pensar numa coisa dessas... Ela estragou a vida de todo mundo, envolvendo todo mundo nesse jogo psicológico. Mesmo depois de morta, ela conseguiu estragar... Não é possível. Eu não sei o que dizer. Não sei como posso contar isso pro Will ou pra ela...”

Induzindo a filha a acreditar na existência de armas nucleares.
Depois, induzindo César a acreditar que a filha mantinha algum segredo.
Escrevendo um diário, montando falsas pistas, um falso detonador, o pingente...
Um dos agentes acena para o avião, avisando que é hora de embarcar.

“Diana, está na hora.” – Murmuro.

“Vai na frente.” – Ela responde. Eu observo, cética, e ela completa: – “Pode ir. Eu to bem.”

Eu subo as escadas da aeronave, sentindo o cansaço em meu corpo.
Dias difíceis ainda estão por vir.

LIZA
Tamborilo os dedos em minha testa, sentada na cama, tentando lidar com um silêncio insuportável.
Esse é o momento em que eu deveria ter informações sobre a Jennifer. Há todo um grupo, várias equipes de membros Vaccari lá fora em busca de algo sobre ela.
A essa hora, ela já deve estar longe de Joanesburgo. Talvez esteja até na Itália.

A angústia na voz de Will era nítida quando atendi aquele telefone. Não é algo seguro me fazer ligações estando ele na Itália, sob a mira da polícia e da Interpol, então quando soube que se tratava dele, eu também soube que era algo sério e urgente.
E quando ele contou sobre a ameaça feita a Jennifer, não me sobrava nenhuma alternativa além de revelar a senha.
Ela agora está fora da segurança do bunker, sujeita a um ataque, a qualquer momento.
Inspiro e expiro devagar, tentando manter a calma.

“Liza.”

A voz de Nicolas me faz levantar da cama, num sobressalto, e eu o encaro com expectativa.
Não sei se é sua habilidade de entrar em lugares sem ser notado ou se eu estava imersa demais em meus pensamentos, mas ele parece como alguém que surgiu do nada, na porta do meu quarto.
Quarto esse que nem sinto se devo chamar de meu.
Não importa quantas propriedades pertençam aos Vaccari, apenas duas podem ser consideradas como “minhas” para mim.
Minha casa na Itália, onde vivi com Will e minha filha, e a casa dos meus pais no Brasil.

“E então?” – Indago. – “Onde está a Jennifer? Conseguiu notícias?”

“Dela não.”
 – Ele afirma e eu franzo o cenho.
“Quero dizer, ela já foi retirada do bunker e creio que aparecerá no DPN em pouco tempo. Não posso enviar gente no encalço da Miranda. Ela já mandou matar gente nossa e estamos numa situação vulnerável.”

“Mas ela está bem?”

“Sim, Liza.” – Ele murmura com a expressão mais suave. – “Will com certeza está com ela e vai cuidar para que ela não se machuque. Mas não vim falar sobre isso, tenho notícias mais importantes.”

“O que pode ser mais importante?”

“César.”
 – Afirma.
“Finalmente achamos seu alvo. César ganhou liberdade provisória no Brasil e decidiu viajar para a mansão de seus pais, já que ele está impedido de sair do país.”

“A mansão em Pelotas?”

“A própria.”

As imagens da minha última ida àquela mansão repassam em minha mente.
Foi lá onde eu fui presa.
Foi lá onde eu deixei a placa de cobre.
E César tem o pingente que completa a placa.

“Consiga um jeito de me levar até Pelotas ainda hoje.” – Murmuro.

“Liza, isso é perigoso....”

“Estou te dando uma ordem, Nicolas.”
  – Rebato, altiva.
“Eu vou estar no Brasil ainda hoje. E vou estar sozinha.”