Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

19 de nov de 2016

Sentença (fúria season 3) - Capítulo 67

WILL
Há gotas de sangue no chão, próximas à porta do bunker.
Não há sinais de guardas Vaccari nos arredores do local, quando chego, e apenas Miranda e sua equipe me acompanham.
Olho para o papel amassado em minha mão.
Liza não relutou em revelar a senha, apesar da aflição nítida em sua voz. Eu citei o nome de Safroncik e a ameaça de morte, e foi suficiente.
Existe a possibilidade de uma retaliação à Miranda por parte de Liza e dos Vaccari, mas acho pouco provável. Se trata de Miranda Safroncik, no final das contas, e Liza está focada demais no problema “César” para armar um assassinato à secretária de relações externas da União Europeia.
Porém, se as questões envolvendo o César forem resolvidas sem estragos maiores – algo também pouco provável – Miranda pode se transformar rapidamente num alvo.
A mera suposição de um mundo sem César Vaccari me provoca uma sensação estranha.
Como se algo estivesse fora de lugar.



“Para onde ela será levada quando sair daqui?” – Pergunto para Miranda, antes de digitar a senha.

“Inicialmente, para Nápoles.”
  – Responde.
“Vai ser submetida a interrogatório e depois automaticamente inclusa no programa de proteção à testemunha. Será levada por uma forte escolta até um apartamento de endereço confidencial.”

Encaro seu rosto.
Ela não responde ao meu olhar exigente.

“Sou o pai dela.” – Digo, finalmente.

“Salerno.” – Suspira. – “Ela vai ficar no lado sul da comuna. Acredite, Richmond, todo um esquema de proteção a ela foi previamente montado.”

Eu não respondo.
Minha mão se ergue para o painel, e eu pressiono uma sequência de 8 dígitos. O barulho da trava precede a abertura da maciça porta.
Em 5 segundos de ansiosa espera, me é revelado uma Jennifer encolhida no canto da cama, assustada. Sua expressão relaxa quando ela me vê.

“Pai!”
 – Ela corre em minha direção.

Jennifer soluça e se joga em meus braços, e eu posso me sentir genuinamente feliz pela primeira vez no dia.
Feliz, mas não menos preocupado.

Seu longo cabelo ruivo cai como uma manta sobre meu braço quando nos abraçamos.
Eu beijo sua testa e observo seu rosto.
Aliviado.
Infelizmente, ainda não posso compartilhar desta sensação.

“Eu ouvi tiros.” – Ela murmura. – “Pensei que tinha acontecido alguma coisa, a mãe, ela....”

Seu olhar para então, subitamente, em Safroncik.
Observo-a e me sinto desconfortável por sua presença. Ela esteve aqui, calada, analisando todo esse momento que deveria ser íntimo.
Jennifer volta seu olhar novamente para mim.

“Quem é ela?”

E então, Miranda dá um passo para frente.

“Miranda Safroncik.”
  – Declara. Sua mão se estende na direção de uma Jennifer desconfiada.
“Vim com seu pai ajudá-la na sua volta a Itália.”

“Cadê a minha mãe?”

Seguro então sua mão, entrelaçando nossos dedos.
Fixo o olhar em seus olhos claros, tentando soar o mais confiante possível quando digo...

“Há muito o que ser dito, Jen.” – Afirmo. – “Eu explico depois, com calma.”

DIANA
15 minutos depois do pedido de reforços, um Noah já acordado é trazido até o subsolo da casa.
Segundo um dos agentes, esse subsolo não consta na planta original da casa, o que tecnicamente faz com que ele não exista, diminuindo a possibilidade de tornar essa casa num alvo.
Essa é uma casa simples no meio de várias idênticas a ela, e se o FBI está aqui, encontrar-nos vai ser como achar uma agulha num palheiro.
Um outro agente vou enviado para tentar uma espécie de negociação ou conversa, o que em realidade foi apenas uma forma de ganhar tempo enquanto Noah era trazido até aqui por Saxe e outros agentes.
Ele está sentado, algemado, ainda zonzo, mas suficientemente sóbrio para responder as perguntas.
O pequeno compartimento subterrâneo torna-se apertado com a adição de outros dois agentes ao grupo.
Saxe puxa uma cadeira de frente para ele e se senta.

“Fez um bom trabalho em induzir todo mundo a acreditar que você estava morto.”
   – Ela começa, calma, amigável e eu me preparo para uma proeminente sessão de tortura.
“Eu adoraria saber como fez pra que ninguém te achasse, mas existem assuntos mais urgentes agora.”

Ele ergue a cabeça, altivo.

“Se estão aqui por causa dos Vaccari, estão perdendo seu tempo.” – Diz. – “Eu não tenho contato com eles há anos. Não sei de nada do que estão fazendo.”

“Acredito plenamente em você.”
 – Saxe murmura, e há uma ponta de ironia em sua voz.
“Também acredito que sabe muito bem que a Interpol não está aqui pelos Vaccari. O FBI está aqui porque você é um terrorista, a Interpol, e especialmente eu, estamos aqui por causa da sua irmã.”

Ele solta um rápido e ácido riso, sem humor.

“A isso se deve o fato de eu não estar morto agora, suponho.”

“Por que não começa me contando porque sua irmã se casou com Anthony Vaccari?”

“Ora, isso é bem óbvio.” – Murmura. – “Se casou porque o chefe exigiu que ela casasse.”

Então um soco em sua mandíbula é o que vem em seguida.
Saxe se inclina em sua cadeira e sibila:

“Não me diga coisas óbvias.”

“Teve muita coragem de se infiltrar naquele bar.” – Diz. – “O Luís não gosta muito de gringas. Principalmente gringas arianas, como você. Ele acha que todas vocês não passam de prostitutas capitalistas.”

Outro soco.
Dessa vez, parte do seu lábio inferior é partido, e um pequeno filete de sangue escorre deles.
Todos nessa sala estão cientes de que Noah não vai falar agora. É uma espécie de tortura gradativa, lenta, que mina a força aos poucos.
Depois de 10 minutos de socos esporádicos, você no mínimo vai ficar impaciente.
Ele se volta para o agente de onde veio o soco, e diz...

“Eu não deveria falar assim, até porque, tecnicamente estamos no mesmo barco.” – Murmura. – “Todo mundo aqui é estrangeiro. Eu sou estrangeiro. A diferença entre mim e ela é o fato d’ela ser mulher. Ele estupraria ela antes de matar.”

Outros vários socos.
Depois da sequência, seu lábio está inchado e seu supercílio rompido.

“Toda essa raiva dele...”
– Continua, sorrindo, como se nada tivesse acontecido.
“É fetiche. Ele nunca vai admitir, mas tem um louco fetiche por prostitutas capitalistas.”

Ele passa a apanhar com uma barra de ferro agora.
Instrumento, após instrumento é inserido, aumentando a intensidade.
A cadeira parece estar fincada no chão, pois nem sequer ameaça cair, apesar do impacto.
Em minutos, seu rosto está cheio de cortes e sangue.
Um dos agentes puxa seu cabelo para trás, forçando-o a levantar a cabeça.
Saxe se levanta e vai até ele.

“Se o show já acabou, minha pergunta ainda está de pé.”
  – Ela diz.

E em seguida, ele cospe em seu rosto uma mistura de saliva e sangue.
Ela limpa e se afasta.

“A escolha é sua."

E então um dos agentes põe uma funda bacia com água até o topo, na altura de seu rosto.
A bacia branca está pousada numa pequena mesa de correr.
O rosto de Noah Shrader é pressionado violentamente contra o fundo da bacia, enquanto parte de seu conteúdo transborda. Ele se debate impulsivamente, procurando ar, e depois de segundos, sua cabeça é puxada para fora.
A água está em tons de vermelho pelo sangue em seu rosto, mas ele não abre a boca.
Seu rosto é empurrado para a bacia novamente.
Ele novamente se debate e é puxado para fora, mas não diz nada.
Saxe estala a língua em desgosto.

“Chega.” – Ela diz. – “Ele não vai falar assim. Tragam a moça.”

Quando uma moça de estatura média, cabelos escuros e olhos claros, entra no subsolo, trazida pelo agente, o rosto de Noah demonstra inquietação pela primeira vez.
Mais do que inquietação. Genuíno nervosismo.
Ela é posta diante dele e murmura, com a voz fraca...

“Pai?”

Olho para Saxe.
A existência de uma filha de Noah e sua presença aqui é uma informação que me foi oculta até o momento.
Estranhamente, ela tem semelhanças físicas com Rachael Vaccari.

“Segurem ela.” – Saxe murmura, e Noah se debate das algemas.

“Minha filha não!”
 – Ele grita. A menina chora enquanto tem os braços presos pelos agentes.

“É por isso, sr Shrader” – Saxe murmura, num tom mais alto de voz. – “Que nós, agentes, somos obrigados a fazer ações que vão além do que permite o protocolo, como essa; porque existem pessoas como você que não estão dispostas a colaborar.”

“Sua vadia...”

“Esse vai ser o primeiro tiro.”
– Saxe continua, apontando a pistola para o joelho esquerdo da menina.
“Se não responder minhas perguntas agora, sua filha vai ter uma bala atravessando seu joelho, e você sabe bem o quanto essa região dói.”

“Eu vou contar.”
 – Declara.
“Vou dizer o que quer saber, mas pelo amor de Deus, tire minha filha disso!”

Saxe afasta a pistola.
“A Jennifer gostava de aventura.”
 – Começa.
“Ela sempre quis saber o que tinha naquela carga, e quando Ahmad ofereceu a oportunidade a ela, ela aceitou imediatamente.”

“Qual carga?”

“Uma carga dos Vaccari.” – Diz. – “Ahmad descobriu que havia uma carga sendo transportada da Polônia até um arquipélago no Oceano Índico. A carga era secreta e ninguém sabia do que se tratava, se Ahmad tentasse tomá-la à força começaria uma guerra nada oportuna com os Vaccari, então ele decidiu colocar alguém lá pra isso.”

“E esse alguém foi a Jennifer...”

“Sim.” – Ele lança um temeroso olhar a sua filha. – “Nossos pais eram íntimos de Ahmad, eu brinquei com o filho dele quando criança, ele confiava na gente e planejava um casamento. Jennifer foi a melhor escolha.”

“E por que ela queria essa carga?”

“Ela não queria exatamente.” – Diz. – “Ela só queria saber o que era. Jennifer sempre foi dada a correr riscos. Tudo que envolvia ameaças e perigo era interessante pra ela. Só depois que a situação cresceu que ela pareceu ter um objetivo.”

“Situação crescer...?”

“Ela descobriu o que era a carga, mas se negou a contar a Ahmad.” – Responde. – “Ele ficou nervoso, exigiu que eu arrancasse a informação de qualquer jeito, ameaçou matá-la, mas aí ela já era mulher de Anthony Vaccari, mãe dos filhos dele. O velho Jon gostava muito dela. Eu tinha que tentar persuadi-la de alguma forma.”

“E conseguiu?”

“Não, mas...”
– Suspira.
“Quer dizer, eu estava disposto a isso, mas eu flagrei ela fazendo aquilo de novo com a filha...”

“O que?”

“Hipnose.”
– Revela.
“Eu já tinha dito pra ela esquecer esse troço, mas ela estava fazendo. Ela aprendeu isso em algum curso nas viagens dela, eu sei lá. Aquilo me dava medo e eu vi ela fazendo isso com a filha mais velha.”

Olho para Saxe.
O gatilho. Liza falou que conseguiu ‘lembrar’ de coisas com a sequência de palavras do enigma.
As tais lembranças iam além do que ela poderia ter vivido durante a infância, e como ela passava muito tempo com a mãe, havia a possibilidade de um longo processo de formação de uma “falsa memória” em seu subconsciente.

“Eu questionei a ela sobre isso, e ela me disse que tinha um plano que ia além de qualquer coisa que Ahmad tivesse pensado.” – Diz. – “Disse que não podia contar a carga a ele, porque se mais alguém soubesse, estragaria tudo. Ela falou que estava trabalhando numa forma de criar uma longa e violenta guerra entre os Vaccari, uma guerra grande o suficiente pra chamar a atenção do mundo. Aquilo parecia teoria da conspiração, mas no final parece que deu certo né, já que vocês estão aqui...”

“Que plano era esse?”
 – Pergunto, enquanto um profundo temor cresce dentro de mim.

“Ela não me contou exatamente, mas disse que a tal hipnose fazia parte.” – Murmura. – “Ela disse que faria com que os Vaccari acreditassem na existência de algum tipo de arma nuclear em poder da máfia. Esse tipo de coisa geraria uma violenta disputa pelo controle dessa tal arma dentro do clã, e a guerra na família chamaria a atenção das autoridades. As autoridades iriam investigar o motivo da guerra e chegariam na tal arma. Se o mundo acreditasse na existência de uma arma nuclear na mão de mafiosos, a população entraria em pânico.”

Encaro fixamente o rosto de Noah, incrédula.
Minha mente repassa cenas dos últimos meses. Toda essa guerra e caça ao enigma, a disputa entre Liza e César pelo pingente, as mortes, o sequestro da Jennifer.
Tudo é uma manipulação.
Não dá pra acreditar. Tudo isso não passa de um manipulação cuidadosamente arquitetada por Jennifer Vaccari.

“Ela te contou onde está a carga?”
 – Saxe pergunta, tentando manter o foco. Posso ver em seus olhos que ela enxergou a magnitude da situação.

“A carga foi enterrada em algum lugar de Peros Banhos.” – Murmura. – “É só isso que eu sei.”

Eu sou incapaz de permanecer ali por mais tempo.
Eu subo as escadas em direção a saída do subsolo quase desesperadamente, como se me faltasse o ar.
Eu me pergunto se a obsessão de César pela Liza foi fruto dessa manipulação, ou Jennifer se aproveitou de uma obsessão já existente, enquanto me lembro do álbum de fotos achado em sua cama, na mansão de Atenas.
Jennifer Vaccari fez Liza acreditar na existência de uma ameaça nuclear ainda quando criança, e envolveu César nisso fazendo-o acreditar que ela escondia algo revelado à filha. Ela empurrou a própria filha, uma criança, para uma guerra insana e violenta, sem propósito algum.
Aliás, havia um propósito ainda pior para isso.
Uma espécie de ataque terrorista psicológico ao Ocidente, e inclusive, ao mundo como um todo.
É sádico, sujo e doentio demais para que eu assimile, e minha mente fica uma bagunça.

Um dos agentes sobe até onde estou, com a expressão preocupada.
Eu tento colocar meus pensamentos em ordem e aparentar algum autocontrole quando ele aparece.

“Você está bem?”
– Vitali pergunta, pondo a mão em meu ombro. Decido que o melhor a fazer é ser sincera.

“Não.”
– Respondo.
“Mas vou ficar.”