Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

19 de nov de 2016

Sentença (fúria season 3) - Capítulo 66

WILL
Eu observo Safroncik terminar sua ligação, agarrando o papel que contém a senha do bunker, apertando-o, machucando-o como se ele fosse a fonte da minha raiva.
Ela guarda o celular num dos grandes bolsos do seu casaco, voltando a me encarar.

“Nós vamos viajar.” – Diz. – “Acredito que queira ser o primeiro a ver sua filha.”

Passo um longo e venenoso olhar em sua direção.
Nós seguimos em seu carro em direção a uma pista de voo, onde um jato esperava por nós. Miranda soa altiva e confiante, e eu a sigo, impotente, até o interior da aeronave.
Lá dentro, quando estamos sozinhos e alçamos voo, volto a olhar para seu rosto, com repulsa.

“Sei que está com raiva, Richmond, mas a situação precisava ser resolvida.”
  – Diz.
“Jennifer é uma testemunha, uma peça chave na investigação dos Vaccari e eu não podia permitir que uma máfia que nem sequer deveria continuar atuando mantivesse em cativeiro uma testemunha nossa.”

“Testemunha que estava disposta a assassinar minutos atrás...” – Disparo.

“Eu sabia que você não permitiria.” – Afirma. – “É pai dela. Eu de fato contratei os serviços do sr Miller e o deixei de prontidão porque não costumo blefar em minhas palavras, mas eu sabia desde o início que não iria acontecer. Convenhamos, Will, nem você, nem a Liza jamais iriam permitir que ela saísse a menos que a vida dela estivesse em risco.”

“Você sabe o porquê disso...”

Ela se move em minha direção.

“Will...” – Ela pousa sua mão em meu braço.

Eu agarro seus pulsos com força.
Sua expressão passa da superficial compaixão para a fria ira.



“Nunca mais toque em mim novamente.”
 – Sibilo, palavra por palavra em tons cada vez mais nítidos de advertência, enquanto minha mão permanece firmemente pressionada contra seu pulso.
“Se o fizer, vou esquecer quem você é e a maldita organização que representa.”

“Poderia ser preso por isso.”

“E você poderia acabar morta por ameaçar a filha de uma Vaccari.”

Solto seu pulso.
Toda a viagem então se segue em silêncio, e eu perco a noção das horas desde o embarque, até o desembarque.

MADALINA
“Nós fomos traídos, Jorge.”
  – Um homem sentado no balcão do bar murmura em espanhol, movendo a cabeça de um lado para o outro, como se não pudesse acreditar.
“Traídos pelos próprios irmãos!”

“Eu acho que você deveria esquecer isso.”
– O homem ao seu lado responde. Ambos aparentam ter por volta dos 40 a 50 anos, ligeiramente acima do peso, feições tipicamente latino-americanas.
“Está acontecendo há meses, não há como parar isso.”

Lanço meu olhar, num segundo, ao revólver de cano longo, cromado, em cima do balcão.

“Tudo começou depois que aceitaram aquele maldito yankee.”
– O primeiro homem continua dizendo, como se não ouvisse as palavras do amigo.

“Ele não é um yankee.”

“É como se fosse!” – Insiste. – “Estrangeiros... Malditos estrangeiros! Eles nunca entendem. Como você pode confiar num desses?!”

“Eu não confio.” – Solta. – “O chefe confia.”

Então um deles fixa o olhar em mim, e eu gostaria de parecer uma moça colombiana.
Existe a possibilidade de que o “yankee” se refira a Noah Shrader, que é um estrangeiro, filho de canadense.
Ele me fita por instantes e finalmente diz, para meu alívio...

“Me serve uma cachaça.”

Eu pouso o copo em cima do balcão e encho até quase o topo.
Ele vira o conteúdo num gole, abre a boca para dizer algo, mas é interrompido pela barulhenta chegada de três homens. Um deles é Noah.
Bingo.

“Amigos!”
– O sotaque árabe de Noah é nítido, apesar de distante. Ele cumprimenta vigorosamente os dois homens sentados enquanto eu encho novos copos de cachaça.
O primeiro, Jorge, cumprimenta-o com mais animosidade que o segundo, de nome ainda desconhecido.
Noah foca seu olhar nele.

“O que foi, m’ijo?” – Murmura, e quando não há resposta, solta para um de seus colegas. – “Ele sempre está cabreado. Nunca sei porque.”

Mas quando ele se afasta e conversa com outros clientes do bar, indo de mesa em mesa, distribuindo sorrisos e tapinhas nos ombros, posso ter a certeza de que ele sabe exatamente do que se trata.
Pego um pano velho para limpar a bebida derramada no balcão.
Ouço, pela primeira vez, a voz de Diana soar no fone.

“Me mostre onde ele está.”

Eu me movo ligeiramente para o lado direito, tentando posicionar a microcâmera em sua direção.
Na mesa oposta, Noah conversa por alguns segundos com um homem jovem. O tom é mais íntimo do que o costumeiro.
Ele põe a mão em seu ombro e o moço se levanta. Sua expressão é mais séria, e no instante seguinte, Noah vira o conteúdo de um copo deixado no balcão e sai.
É agora.
Ouço o som dos passos rápidos de outra agente disfarçada, em minha direção.

“Anastacia!”
  – Ela grita e eu sei exatamente o que acontece em seguida.

A agente de meia idade na minha frente se chama Constanza Acosta, uma das poucas agentes colombianas associadas à Interpol. Ela tem o perfil típico de dona de bar, e eu sou Anastacia, uma empregada recém chegada em seu estabelecimento.

“Você deixou o caldo queimar!”
  – Ela esbraveja.

“Como?”

“Deixou o caldo queimar gringa hijaeputa! Vá pra cozinha! Agora!”

Eu obedeço e saio do balcão, ouvindo resmungos de Constanza.
Em cima de um dos armários da cozinha, uma pistola carregada foi deixada escondida. Num movimento, destravo a arma e corro para a saída dos fundos.
No chão de barro, murmuro para a escuta:

“Onde ele está?”

“Rua 8, na direção oposta. Na mira dos snipers.” – o Agente Muti responde. – “Ainda está acompanhado.”

Corro em direção ao local indicado, me embrenhando por casas simples até a área aberta.
Noah e seu acompanhante entram no meu campo de visão.

“Que galpão é aquele?”
 – Murmuro, enquanto observo os dois caminharem para ele. Muti volta a responder.

“Parece algum tipo de reunião entre o grupo.” – Diz. – “Acho que o garoto...”

Então ele emudece, de súbito.

“Agente Muti?”

Não existe resposta, mas uma rajada de tiros interrompe a conversa.
Eu preciso de segundos para distinguir a origem do som. Não foi na escuta. Foi no galpão, é o que eu percebo, escondida num beco.
Noah puxa o revólver na direção do armazém.

“O que é isso?! Alguém pode me explicar?!”
  – Exijo, e a voz de Muti ressurge.

“O FBI está aqui, Saxe.” – Murmura. – “Invadiram o galpão.”

Uma nova rajada de tiros surgem e os dois homens correm na direção oposta.
Praguejo internamente.

“Atirem no garoto com ele.”

Em segundos, um tiro de sniper atinge sua perna.
Ele grita de dor e cai no chão, agarrando sua coxa direita com ambas as mãos.
Noah continua correndo em minha direção e eu guardo a pistola no cós do short.Eu o aguardo na ponta do corredor, imóvel.
Uma troca de tiros começa nos arredores do armazém e eu quase posso ver os coletes com a identificação do FBI em amarelo.
Noah passa pelo beco, e num segundo, tenho seu corpo imobilizado e um braço em seu pescoço sufocando sua respiração.
Ele se debate por segundos e desmaia.

“Manda gente pra cá.” – Murmuro para a escuta. – “Rápido!”