Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

15 de nov de 2016

Sentença (fúria season 3) - Capítulo 65

DIANA
1 semana depois

O carro dá solavancos no terreno íngreme.
Segundo informações do agente, estamos em Villa Del Rosario, uma cidade pequena muito próxima da fronteira entre Colômbia e Venezuela, e se tudo der certo, talvez essa transferência se encerre hoje.
Eu fiquei por dias trancada num quarto de hotel em Bogotá, fingindo que eu não existia, impossibilitada de falar com qualquer pessoa até dois dias atrás. Toda essa viagem está sendo feita de carro, e eu já troquei de automóvel tantas vezes em tantas paradas que me sinto cansada só de pensar na palavra.
Hoje, talvez, isso acaba.



Eu observo pela janela do carro as ruas e o chão de barro que cobre todas elas. É um lugar pouco movimentado, especialmente neste trecho, chamado de La Parada, colado à fronteira, onde as casas são simples e o aspecto do ambiente como um todo é de abandono.
O carro para de frente para uma casa, e o agente me guia para dentro dela.
Meu nariz coça com a poeira.
Poucos cômodos, talvez apenas dois. Sala e banheiro.
O agente me aponta uma entrada subterrânea no canto leste da sala e eu desço as escadas.
Lá embaixo, num ambiente de iluminação precária, a silhueta de Saxe entra em meu campo de visão.

“Diana.”
– Ela murmura, com um sorriso aliviado. Nós duas nos abraçamos.
“É bom vê-la.”

Olho para a maleta pousada na mesa ao lado dela.

“Como foi no Pentágono?” – Pergunto.

“Mogherini resolveu os problemas maiores.” – Afirma. – “Bom, agora que nossas transferências foram concluídas, vamos cuidar de achar o Noah.”

“Ele está aqui?”

“Ele mora aqui.” – Diz. – “Como eu vim para cá antes de você, consegui pesquisar sobre a rotina dos homens de La Parada. Você vai ter a ajuda de dois agentes aqui.”

Saxe abre uma porta ao lado, e num compartimento anexo, dois agentes da Interpol e todo um arsenal a sua volta se revelam.
Há dois computadores, microfones, fones, uma tela com câmeras das ruas adjacentes e armas.
Os dois agentes se levantam para me cumprimentar.

“Esse é o agente Alain Muti, e esse é o agente Aram Vitali.”
  – Saxe diz, e nós nos cumprimentamos com apertos de mão, respectivamente.

“Existem outros 15 agentes espalhados pela cidade e redondezas.”
  – Vitali informa.
“É uma grande operação, muito bem organizada.”

Fito seu rosto por segundos.
Ambos possui uma mistura de feições típicas de países do sudeste da Europa, altura por volta dos 1.75 e cabelos pretos. Estão todos armados.
Saxe volta sua atenção para mim.

“Eu serei uma garçonete de um bar a cerca de 500 metros daqui.” – Explica. – “Existe outra agente para me dar cobertura. Vou levar uma microcâmera acoplada ao pingente da minha gargantilha, e escuta. As imagens da câmera serão mostradas numa das telas. Noah Shrader vai aparecer nesse bar em algum momento do dia, e caso ele ou seus amigos causem problemas, existem snipers posicionados por todo o quarteirão.”

Ouço atentamente as instruções.
Há todo um esquema cuidadosamente organizado, e todos parecem saber muito bem qual função vão desempenhar enquanto eu acabei de chegar. Passo um novo olhar sobre o compartimento.

“Acredito que vou ficar monitorando seus passos.” – Murmuro.

Saxe sorri e põe a mão em meu ombro.

“Não se preocupe.” – Secreta. – “Sei que vai se sair bem. De qualquer forma, tem os agentes para ajudá-la.”

Então, ela sai do compartimento, e os agentes voltam a tomar suas posições.
Eu me sento de frente para um dos computadores, pondo o fone em meus ouvidos e arrumando a posição do microfone.
Suspiro.
É aqui onde começa a caça.

WILL
A campainha toca, me despertando do sono.
Eu desço preguiçosamente as escadas do meu antigo apartamento no centro de Nápoles, carregando uma pistola ‘não autorizada’ na mão direita.
Desde meu sumiço e a abertura do processo contra mim, meu direito de portar armas foi suspenso. Essa é uma pistola clandestina e eu a enfio no cós traseiro da calça surrada, como que mantendo um velho hábito.
Cada parte, cada canto desta casa inspira velhos hábitos.
Foi aqui onde morei com a Liza durante longos anos, e depois com a Jennifer.
Nós já morávamos aqui quando o Alex sumiu também.
É uma rica colcha de retalhos de memórias boas e ruins, e eu estou mergulhado em depressiva nostalgia quando abro a porta.
E então Miranda Safroncik entra em meu campo de visão, e toda a ociosa névoa se dissipa.

Ela está em roupas sóbrias e pouca maquiagem, mas isso não torna sua presença mais discreta.
Não há reação em seu rosto à minha cara de espanto, e ela murmura calmamente...

“Será que posso entrar?”
 
Abro espaço para que ela passe.
Quando a porta se fecha, tenho a oportunidade de encarar melhor seu rosto.
Sem salto e de aspecto natural, Miranda parece fora de sua esfera de trabalho. Algo como uma fotografia de paparazzi onde uma pessoa poderosa é flagrada num momento familiar comum, como levando o filho até a escola.
Faço um movimento apontando o sofá e ela se senta.

“Vejo que está numa espécie de férias.” – Ela começa. – “Fico feliz que finalmente tenha conseguido descansar.”

“Estou impossibilitado de fazer qualquer coisa até que o processo termine.”

“O que não vai demorar, tenho certeza.”
  – Afirma. Eu arqueio uma sobrancelha.
“Eu sei que o departamento está fazendo de tudo para que você seja inocentado o mais rápido possível.”

“O que você não sabe, não é, Miranda...”

“Eu não tenho conhecimento de tudo, infelizmente.” – Diz. – “E é inclusive por conta dessa triste limitação que eu estou aqui.”

“O que quer dizer?”

“Quero dizer, Richmond” – Ela começa. – “Que por maior que seja o esforço para montar esse bom álibi, tenho que admitir, cá entre nós, sei que fugiu com Liza Vaccari, e que foi responsável pela fuga dela. Isso significa uma reconciliação, suponho, o que com certeza vai facilitar as coisas.”

Me movo sobre o sofá, desconfortável.
Minha voz soa carregada de ceticismo quando eu questiono:

“O que você quer?”

“Sua filha.”
 – Declara.
“Há pouco tempo recebi a informação de que Jennifer está escondida num bunker situado numa área afastada de Joanesburgo, na África do Sul. Entretanto, o bunker possui uma senha, e eu sei que você tem como consegui-la para mim.”

“E o que te faz pensar que eu faria isso?”

Ela puxa um celular do bolso de seu casaco, e pousa em cima da mesinha de centro.
Então ela volta a se recostar no sofá oposto, dizendo...

“Esse telefone vai tocar daqui a 8 minutos.”
  – Começa.
“Eu tenho um amigo de muitos anos, desde a universidade, o nome dele é Ian Miller. Estivemos em Cambrigde juntos, apesar de cursarmos áreas diferentes. Ele é químico. Um ótimo químico. Acredita que ele descobriu os dutos de alimentação que permitem que sua filha respire dentro daquela caixa?”

A inquietação dá lugar, gradativamente, ao terror, enquanto ela fala.

“Ele teve a amabilidade de me explicar como o oxigênio em contato com óxido nítrico reage, se transformando em dióxido de nitrogênio.” – Murmura. – “Ele também explicou que o dióxido de nitrogênio é um gás extremamente tóxico, que, em concentrações elevadas, pode gerar um agudo edema pulmonar, além de alterações na estrutura química da hemoglobina e em ambos os casos, morte por asfixia. Se eu atender essa ligação, e responder afirmativamente, ou se essa ligação não for atendida, sua filha terá algumas horas de conforto até que a reação química esteja completa. Conforme a reação avançar, ela terá dificuldades para respirar, mas nada que seja digno de nota. Mas depois de um tempo, isso pode ficar doloroso. E quando a reação estiver concluída, ela terá poucos agonizantes segundos de vida.”

“Eu não tenho a senha.”
  – Murmuro cuidadosamente, com dificuldade, como se um nó houvesse se formado em minha garganta. Então, subitamente, num pico de energia, eu me inclino na direção de Safroncik e começo....
“Miranda, escute, eu não tenho como abrir o bunker, eu...”

“Mas a Liza tem.” – Rebate. – “Ligue para ela. Tenho certeza que ela vai te atender.”

Fito seu rosto, horrorizado.
Minha mente se inunda de imagens de uma Jennifer caída, com as mãos em sua própria garganta enquanto se debate em busca de oxigênio. As imagens focalizam os espasmos em seu corpo, as contrações de seu rosto, as veias alteradas, a dor e o assombro estampados em seus olhos...
Contenho o impulso de balançar a cabeça, como numa instintiva tentativa de impedir que meu cérebro me mostre isso.
Miranda observa tranquilamente seu caro relógio de pulso, como se estivesse numa reunião casual.

“Você tem 3 minutos, Richmond.”

Pego o celular pousado na estante.
Meio segundo depois, a voz de Liza soa em meus ouvidos.

“Liza” – Murmuro. – “É sobre a Jennifer. Temos um problema.”