Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

15 de nov de 2016

Sentença (fúria season 3) - Capítulo 64

WILL
Quando entro no departamento, me dirijo diretamente até a sala do Craven, temendo pelo que virá em seguida.
Sinto os olhos se voltarem em minha direção quando passo pelos corredores, e não deixo de imaginar minha conversa com Craven, quase um ano atrás, onde toda essa bagunça começou.
Giro a maçaneta e ele está lá, sentado em sua cadeira, exatamente do jeito em que esteve quando me pediu para investigar os Vaccari.
Minha mente é assaltada com uma série de memórias.



“Richmond.” – Ele murmura, levantando-se e caminhando para mim, com uma expressão preocupada e até compassiva. – “Não precisava ter vindo, se não quisesse.”

“Seus detetives insinuaram que seria bom se eu viesse.”

“Bom, sente-se.”
– Ele diz, apontando para uma cadeira a minha frente. Craven circunda a mesa e volta a sentar-se em seu lugar.
“Estou fazendo de tudo para que sua absolvição aconteça o mais rápido possível.”

Arqueio uma sobrancelha.

“Pensei que me interrogaria.”

“Seus hematomas tiram a necessidade disso.” – Diz. – “Eu não sabia que estava tão machucado quando recebi a informação do seu sequestro, mas depois de seu tempo no hospital e agora...”

“Eu estou bem.”

“Sei que está.” – Murmura. – “E fico feliz que esteja. Eu só quero esquecer essa merda toda, isso foi um transtorno pra todo mundo. Você foi sequestrado por César Vaccari, não esteve envolvido na fuga da Liza e foi mantido em cativeiro todo esse tempo num fim de mundo qualquer. Isso é a única coisa que importa.”

“Vou poder voltar ao trabalho?”

“Quando o processo for encerrado, talvez.” – Diz. – “Enquanto isso não acontece, só se mantenha comunicável, certo? E dentro do país.”

“E a investigação?”

Ele suspira.
Só agora percebo o quão fadigado está Craven. Há olheiras profundas estampadas em seu rosto e uma expressão cansada, irritada inclusive; a questão envolvendo a Liza, a situação indefinida do César e toda a pressão que uma investigação como essa impõe está lhe sugando a energia até os ossos. Ele até soa anos mais velho...

“Os jornalistas aparecem aqui quase todos os dias.” – Desabafa. – “Ficam tagarelando, exigindo uma declaração oficial sobre os Vaccari, perguntando sobre a Liza, sobre o César, sobre a Interpol, sobre você...”

Ele nota meu repentino alarme.

“Nada além do tolerável vazou.” – Ele se apressa. – “Eles sabem que você é ou já foi casado com ela. Não deixa de ser polêmico.”

“Deveria tirar férias, Craven.”
– Murmuro, dessa vez mais amigável. Eu afasto a cadeira e me levanto.
“Já que não há nada a fazer aqui, se me permite...”

“Will!”
– Ele exclama, quando estou prestes a abrir a porta.
“Tome cuidado. Nem todo mundo aqui estará tão convencido de sua inocência.”

Por mais que seja óbvio, decido levar seu conselho a sério.
Nunca se sabe de onde virá o golpe.

LIZA
As pernas de Dasha Nova se movem instavelmente sobre o chão do estacionamento vazio.
Ela cambaleia em seu tênis branco, com o rosto coberto por um saco preto, amarrada e trazida para perto de mim por dois homens.
Suspiro.
Essa é um dos serviços que mais detestarei fazer, mas talvez um dos mais importantes.
Dasha Nova é apenas uma enfermeira ucraniana de 25 anos que trabalha na Alemanha desde sua graduação. É filha única, tem pai e mãe vivos, nenhum histórico de crimes e uma rotina absolutamente normal. Nada suspeito. Nada que justificasse sua presença aqui, exceto por um detalhe.
César Vaccari.

Seu caso com ele começou há pouco mais de dois anos, e ele faz eventuais visitas a ela desde então; apesar das visitas esporádicas, são muito próximos, muito ligados, e ele mantém a identidade dela em total segredo.
O mais irônico disso tudo é que eu tenha descoberto sua existência justo agora, quando ele deixou de vê-la.
Ela é forçada a sentar-se numa cadeira a minha frente.
Quando o saco que esconde seu rosto é removido, um rosto jovem, de olhos e cabelos castanho-claro e uma expressão assustada se revelam para mim.

“Você...”
– Ela sussurra quando olha para mim.
“É a Liza Vaccari, não é?! Eu juro que não tenho nada a ver, eu...”

“Não estou te acusando.” – Murmuro. – “E não pretendo fazer nada que seja especialmente doloroso se colaborar.”

Seu rosto soa tão inocente.
Tão limpo de toda essa sujeira.
Seus olhos se enchem de lágrimas e ela desvia os olhos de mim.

“Eu sei porque me trouxe aqui.”
  – Diz. Há um profundo medo em sua voz, um medo relativamente antigo, como se ela esperasse por esse dia.
“Acha que tenho algum tipo de caso com César Vaccari e que eu ajudei ele em sabe-se lá o que ele faz.”

“E você tem?” – Questiono. – “Tem um caso com ele?”

Ela fecha os olhos, e uma lágrima escorre por sua bochecha.

“Não. Não com ele.” – Murmura, com a voz embargada. – “Eu não sabia que era ele. Ele disse que se chamava Alexis, que era um empresário grego em viagem e nós.... Eu jamais podia imaginar que ele era... Eu vi seu rosto nos jornais e eu....”

“Descobriu que seu querido era um mafioso foragido.”
  – Completo.
“Provavelmente me viu nos jornais também.”

“Olha, eu juro que não sei o que ele faz.”
  – Ela diz.
“Eu não tenho nada a ver com isso, eu não quero fazer nada contra os Vaccari, minha família está com medo, eu estou...”

“O que ele contou a você sobre si próprio?”
  – Pergunto.
Eu observo Dasha tentar conter as lágrimas que surgem e eu me compadeço.
Faço um sinal e um dos homens desamarram suas mãos.
Ela funga e soluça compulsivamente.

“Dasha.”
  – Digo, inclinando-me para frente.
“Eu sei que você ouviu coisas horríveis sobre mim nas últimas semanas, e não posso negar que boa parte delas é verdade, mas acredite quando eu digo que não vou fazer nada contra sua família. Eu não vou espancá-la ou torturá-la, ou qualquer tipo de coisa horrível que esteja pensando. Você sabe que não posso deixá-la viva quando terminar, porque o César mataria você e seria bem pior, mas eu prometo que será rápido. Respire, responda minhas perguntas e isso vai acabar rápido.”

Ela olha fixamente para mim, os olhos vermelhos pelo choro.
Eu tento passar o mínimo de confiança e consolo possíveis para uma pessoa que está prestes a morrer, e ela respira fundo.
Essa é uma das piores mortes, porque se trata de alguém inocente.
Se trata de alguém que jamais deveria estar aqui.

“Ele disse que a mãe dele era brasileira.”
  – Ela começa, lenta e hesitante.
“Ele nunca me disse nada sobre o pai. Quando a gente conversava sobre família e o assunto era esse, ele desconversava. Alexis... César, dizia que a mãe dele morreu quando ele tinha 5 anos, na França, numa viagem. Ele dizia que ela era muito triste, muito sozinha, e que isso tinha gerado a morte dela. A única coisa que me disse sobre o seu pai, é que ele o criou desde a morte da mãe, e que pagou seus estudos e suas viagens. Disse que tinha dois irmãos, mas que não tinha um bom relacionamento com eles. Disse que viajava muito e por isso não tinha como me ver sempre. Disse que também tinha duas sobrinhas, mas apesar de uma família numerosa, ele sentia como se não tivesse nenhuma.”

Eu paro, imóvel, muda em minha cadeira.
Ela acrescenta, com a voz fraca...

“Ele não me dizia tanta coisa.” – Diz. – “Boa parte disso não passa de um personagem, e a gente se via pouco. Ele não falava sobre o trabalho, ou entrava em detalhes sobre sua vida. Ele só aparecia, nós ficávamos juntos, ele dormia em meu apartamento por uns dias e as vezes a gente falava sobre família. É só isso. Eu nunca imaginei que ele fosse quem ele é.”

Eu permaneço ainda muda, pensando nas centenas de fagulhas de verdade em sua história.
Sua mãe era brasileira e morreu na França.
Ele tinha dois irmãos e duas sobrinhas...
Eu e a Rachael.
Ninguém considerava Rachael como sua filha, e nem sequer ele.
Meu pai, e Beth, eram seus irmãos.
O velho Jon era seu pai.

Eu me levanto subitamente, caminhando para lugar nenhum.
César é poucos anos mais velho que o meu pai. O velho Jon casou-se antes, com outra mulher, antes da minha avó.
E ela não me parece ter morrido em uma viagem.

“Ele te falou algo mais sobre sua família?” – Pergunto. – “Sobre sua mãe?”

“Não.” – Diz. – “Mas ele tinha pesadelos com ela. Todas as noites.”

Toda a raiva pelos Vaccari, toda a raiva pelo meu pai e por mim, por Beth...
César era o verdadeiro herdeiro da máfia.
O filho primogênito jamais assumido.

“Algo nisso era verdade?”
– Dasha pergunta, e eu finalmente volto a encará-la. Ela não sabe, não faz a mínima ideia de que foi usada como válvula de escape.

“Muito disso é verdade.” – Respondo.

Talvez nós não sejamos tão diferentes assim.
Eu caminho em direção à saída olhando para os homens a minha volta, advertindo-os contra qualquer tratamento fora do acertado. Quanto menos essa moça sofrer, melhor.
Eu não descobri o que César pretende fazer, mas talvez tenha me dado conta de uma parte dele que jamais enxerguei antes.
Todo o caos familiar, toda a necessidade de vingança.
Eu prefiro não assistir a execução de Dasha Nova.