Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

12 de nov de 2016

Sentença (fúria season 3) - Capítulo 62

DIANA
Eu caminho rapidamente pelos corredores da ala hospitalar, mais deserta neste horário.
Já são quase 18h e o céu está começando a escurecer quando entro no quarto de Will, observando-o vestir uma camisa comum, de calças e tênis, pronto para partir.
Seu rosto estampa hematomas profundos próximos aos seus olhos, e há um curativo feito em seu nariz. Seus movimentos são mais lentos, mas ele não soa gravemente machucado ou com limitações relevantes, de qualquer forma.
Seu olhar pousa em mim quando apareço na porta, e eu caminho direto para um abraço.



“Will...”
– Murmuro, num tom de secreto alívio. Ele geme de dor quando aperto suas costas, e eu me afasto.
“Está de saída?”

“Estou.” – Responde. – “Me surpreende que não seja Craven quem está aqui, me colocando sob custódia.”

Afasto sua frase num gesto.

“Craven não está totalmente convencido da sua inocência, mas não chega a tanto.”
– Afirmo.
“Por mais que ele precise de um culpado para apresentar para a imprensa, o detetive responsável por toda a investigação e prisão dos Vaccari não cairia muito bem para nenhum de nós.”

Ele não responde, mas posso enxergar em seus olhos que entendeu o que eu disse.

“Ele nunca quis prendê-lo, Will.” – Secreto a ele. – “Ouso dizer que ele sempre esteve esperando por esse álibi.”

“Você se arriscou.”

“Já estive pior.” – Encolho os ombros, e ele sorri fracamente. Então completo, séria: – “Era necessário.”

Ele concorda com a cabeça.
Will soa mentalmente cansado, como alguém que já desistiu de provar seu ponto. Nós caminhamos juntos para a saída num silêncio aconchegante, mas eu sei que ele não está totalmente satisfeito.
Há sempre a questão da Liza, seus problemas familiares, a Jennifer e a bagunça na qual nós dois estamos envolvidos. Com Saxe no Estados Unidos, Liza foragida e César no Brasil, distante da nossa interferência, eu me sinto ilhada, sem notícias ou direção para onde ir.
Eu me sinto profissionalmente conturbada.
Pessoalmente conturbada.
Emocionalmente conturbada.

“Acho que esse é um bom momento para você começar a contar sobre seu casamento...”
– Will murmura quando estamos fora.

“Não há nada que Arjean já não tenha dito.”

“É claro que há.” – Afirma. – “Até anteontem eu jamais imaginaria que tivesse qualquer tipo de ligação com Arjean Jacquard. Você sabia quem ele era quando se casou com ele?”

“Não.”
– Digo.
“Eu vim saber três anos depois. Eu sei, tempo demais. De qualquer forma, não temos mais nada desde então.”

“Bom, eu sou casado com Liza Vaccari.”
 – Murmura.
“Acho que não estou em condições de julgá-la.”

Eu solto uma breve risada.
Nosso riso é mórbido, auto-depreciativo, um tipo de riso cansado que se solta quando não há mais nada a fazer além de rir da tragédia.
A rua está consideravelmente mais deserta e fria, é o que noto enquanto caminhamos na calçada.

“Que tipo exemplar de cônjuges nós temos, não?”
– Solto, e é a vez dele de rir. Ele meneia a cabeça e diz...

“Sinceramente, não sei por quanto tempo esse momento de paz vai durar.”

E dura, de fato, muito pouco.
Meu celular vibra em meu bolso, e quando olho para o visor, há uma nova mensagem. Anônima.

Detetive, se dirija para a terceira casa da rua 12, sozinha.
Protocolo azul.

Fecho a mensagem.

“Will, tenho que ir.” – Solto, séria. Ele arqueia uma sobrancelha. – “Pode ir para casa. O Craven só vai querer vê-lo amanhã.”

Eu não aguardo por sua resposta.
Meus passos são rápidos quando viro a esquina, traçando o trajeto em minha mente. A menção do protocolo é a assinatura que a Interpol não deixou na mensagem.
A rua 12 é uma rua adjacente a avenida principal, e a supradita casa, tão discreta quanto o lugar em si.
Me aproximo da envernizada porta de madeira.
Suspiro.
Minhas mãos se fecham em punho ao bater.

MADALINA
6 horas antes
“Imaginei que essa reunião só aconteceria amanhã.”
  – É o que eu digo, sentada de frente para o General Hendersson, em seu gabinete, numa das várias salas do quinto anel externo do Pentágono.

“De fato, esse era o plano.” – Murmura, girando uma caneta entre seus dedos. – “Mas houveram questões urgentes que me forçaram a adiantar essa conversa.”

“Questões urgentes... ?”

Ele pousa a caneta em cima da mesa de mogno e cruza as mãos, olhando resolutamente em meus olhos.
Seu uniforme está perfeitamente engomado, sua mesa milimetricamente organizada e seu gabinete limpo com um esmero acima do comum.
Se trata de um homem organizado e extremamente metódico.
Reuniões em cima da hora não parecem fazer parte do seu feitio, o que talvez signifique que essa seja uma exigência direta do secretário.

“Agente Saxe, creio que possa falar francamente com a senhorita.”
 – Ele começa.
“Considera o Pentágono um aliado na sua investigação?”

“Perdão?”

“Eu não costumo repetir perguntas que sei que foram nitidamente ouvidas.” – Responde. – “E também não costumo fazer perguntas que pareçam ser óbvias, a menos que eu tenha razões para duvidar de sua resposta.”

“O que faz o senhor ter dúvidas quanto a minha resposta, então?”

“O que descobriu até o momento sobre Noah Shrader?”

“Muito pouco.” – Digo, e é em parte, uma verdade. – “Não tive tanto tempo para analisar as informações.”

“Eu andei analisando seu histórico, agente.”
  – Murmura.
“Apesar de ser uma novata na Interpol, possui boas impressões da parte de seus superiores, e uma das características dadas por eles, é a sua agilidade em analisar e agrupar informações.”

Me mantenho calada.

“Outra característica, bastante peculiar, usada por seus superiores para descrevê-la é a sua discrição.”
 – Declara.
“Diga-me, agente, a senhorita seria capaz de mentir para preservar um segredo de Estado?”

“Se assim fosse ordenado por meus superiores, sim.” – Digo.

“Confio que seus superiores sejam sensatos o suficiente para enxergar no Pentágono e nas forças policiais deste país um aliado.”
  – Afirma.
“Estamos todos num mesmo objetivo, não é mesmo, agente?”

“É claro, senhor.”

Ele apoia suas costas em sua cadeira, com os olhos ainda em mim.
A porta atrás de nós se abre, e um outro homem com uniforme militar se põe próximo a ela.

“Avise-nos se descobrir algo sobre Noah Shrader.”
  – Diz.
“O soldado irá escoltá-la até a saída.”

Minutos depois de uma caminhada quase fúnebre em direção à saída do prédio, há um táxi a minha espera nos arredores de sua entrada principal.
Eu abro a porta traseira, já imaginando o que vai se seguir.
Alguns metros depois, o agente vestido de taxista se identifica com o distintivo da Interpol.
Ronald Burkov.

“Preciso de um celular.” – Murmuro para ele, com o carro em movimento.

Ele me estende, sem olhar para mim, um celular de modelo antigo, com números importantes salvos.
Ligo para o terceiro número da lista.

“Mogherini”
– Murmuro para o outro lado da linha.
“Agente Saxe. Preciso da sua ajuda.”

“Sabia que me ligaria num momento oportuno.”
– Ele solta, com um tom depreciativo em sua voz profunda.
“Já estou ciente do problema. O Agente Burkov irá levá-la para um hotel. Deve permanecer lá até segunda ordem. Não perca este celular.”