Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

10 de nov de 2016

Sentença (fúria season 3) - Capítulo 61

WILL
Meus olhos doem com a luz repentina, quando eu acordo.
São necessários vários segundos até que as coisas entrem em foco. Minhas pálpebras pesam e cada músculo dói quando começo a mexer meu corpo.

Eu estou num leito de hospital.

Nas articulações dos meus dedos, arranhões deixam manchas vermelhas em volta dos rasos cortes, e marcas arroxeadas se espalham pelos meus braços, pernas e tronco.
Olho para o meu lado esquerdo. Ettori Adriani, um dos policiais do departamento de Nápoles está quase deitado numa poltrona, cochilando.
As memórias retornam à minha mente como numa enxurrada.



Desço lentamente da alta cama, arrancando o tubo de soro – ou qualquer substância para diminuir a dor ou causar sonolência – anexado ao meu braço, arrastando meu corpo cansado até o corredor do hospital.
Eu fui deixado e espancado por Arjean e seus homens na Macedônia. Se estou na Itália, quero saber em que parte dela esse hospital fica.

“Richmond?”
– A voz de Ettori surge atrás de mim, me fazendo parar. Volto meu olhar para ele.
“Vejo que está bem melhor. Bom. Estamos em Nápoles, caso seja isso que quer saber. No hospital militar, a alguns quilômetros do departamento. Já são 11h40 da manhã.”

Volto a me sentar no leito do quarto.
Ettori ainda está com o olhar em mim, e eu pergunto, hesitante:

“Quando me acharam?”

“Hoje, bem cedo.” – Responde. – “César Vaccari sequestrou você?”

“Acredito que sim.”

“Acredita?”

“Ele não falou comigo diretamente.” – Rebato. – “Eu nem sequer o vi lá. Só me levaram pra aquele lugar e me fizeram perguntas.”

“Que tipo de perguntas?”

Suspiro.
Por maior que seja minha amizade com ele, Ettori está aqui como o policial. O policial que Craven deixou para me interrogar assim que eu acordasse.

“Queriam saber sobre a Liza.” – Murmuro, tentando por meus pensamentos em ordem. – “E sobre a Jennifer.”

“E você sabe de algo?”

“Não.” – Afirmo. – “Eu perdi o contato com a Liza faz muito tempo. Mas eu ainda sou o marido dela e pai da Jennifer. Eu deveria saber alguma coisa.”

Ettori se mantém calado por um instante.
Ele está examinando minha expressão, decidindo se deve ou não acreditar em mim.

“Will.” – Ele murmura, por fim usando meu primeiro nome. – “Você sabe que existe um processo aberto e uma acusação de que você foi cúmplice na fuga de Liza Vaccari. E convenhamos, existem vários fatores que respaldam essa acusação.”

“Eu não ajudei a Liza.”
– Minto.
“Eu não fiz isso.”

“A Liza foi auxiliada por alguém que conhecia o funcionamento daquele presídio...”

“Eu não sei quem ajudou a Liza.” – Digo. – “Nós estamos brigados. Eu sou considerado um traidor pela máfia. Se me encontrassem, se ela me encontrasse, eu seria morto.”

“Acha que ela teria a coragem de matar o próprio marido?”

“Essa é sua obrigação como chefe da máfia.” – Declaro. – “Se ela não fizesse isso, perderia a força e a influência como líder. E acredite, ela já fez coisas piores que isso.”

Ele se cala novamente.
Depois de um tempo, ele desvia os olhos de mim, apoia as mãos nas coxas e se levanta.
Sua mão pousa em meu ombro, e eu tenho um vislumbre do amigo Ettori, escondido na roupa de policial e na obrigação da profissão.

“Você receberá alta em breve.”
– Murmura.
“Eu realmente quero acreditar que está falando a verdade, Will. É um bom policial, e um bom amigo. Seria um desperdício vê-lo preso.”

Ele dá outros dois tapinhas em meu ombro e vai embora.
Observo o caminho por onde ele foi durante longos minutos, imaginando que essa é a primeira de muitas explicações que terei de dar.

MADALINA
Eu desço as escadas do hotel rapidamente, me afastando do hall de entrada e me aproximando da avenida movimentada.
Eu atravesso a rua, caminhando resolutamente em direção à cafeteria previamente escolhida; os óculos escuros disfarçam meus olhares de soslaio em busca de espias. Não me resta dúvidas de que estou sendo seguida, de qualquer forma. Como eu fiz questão de deixar claro naquela fatídica reunião, só estou sendo tolerada aqui porque sou a ponte que levará o FBI e o governo americano até Noah Shrader.
E agora que eu de fato descobri a localização do dito cujo, a situação se torna ainda mais delicada.

Espalhados em pontos estratégicos da cafeteria, há quatro agentes da Interpol disfarçados de simples clientes, sendo um deles Hector Habsburg, o agente que vai receber e levar a informação até o departamento de Nápoles, mais especificamente, até a Diana.
Me sento numa das mesinhas externas, a cerca de 3 mesas de distância de Habsburg, que permanece lendo o jornal e tomando um café expresso numa das bonitas e delicadas xícaras brancas do estabelecimento, indiferente à minha entrada. Todos os agentes possuem escuta.

“Transfira a detetive Milazzo para Bogotá ainda hoje.”
– Murmuro no instante em que desvio a cabeça para dentro da cafeteria. No instante seguinte, uma garçonete aparece em meu campo de visão.
“Um cappuccino, por favor.”

A garçonete move a cabeça em afirmação e se embrenha pelas mesas cheias.

“Protocolo azul.”

O protocolo azul é equivalente a uma transferência ‘fantasma’.
Diana será escoltada por uma equipe preparada para esse tipo de transporte, viajará confidencialmente, sob todos os mecanismos acionados para despistar e impedir que órgãos terceiros descubram a viagem ou o destino dela.
É um transporte delicado, que exige uma equipe grande e extrema discrição, além de estratégia e disciplina para evitar vazamentos.
Em alguns minutos, a garçonete volta com o pedido.


“Aqui está, senhora.”
– Ela murmura, pousando a xícara e o pirex em minha mesa.

“Obrigada.”

Enquanto bebo o café, raciocino a localização dos outros três agentes, todos postos para desviar o foco de Habsburg. A Interpol estava ciente das questões envolvendo minha viagem aos EUA e a possível interferência do Pentágono nas investigações, o que me deixa mais tranquila em ativar o protocolo.
Como a ativação dele já era algo previsto, não haverá muitos problemas na formação de equipe.
Eu pago a conta e me levanto, enquanto Habsburg continua bebendo café e comendo algum tipo de doce ou salgado em sua mesa.
Caminho em direção ao hotel pensando que provavelmente terei cerca de duas ou três reuniões até que seja viável minha saída dos EUA. De qualquer forma, terei que revelar alguma coisa, por menor que seja, ao secretário de Defesa.
No hall de entrada, o homem que me escoltou até a sala de reuniões me encontra, tão formal como antes.

“Agente Saxe.”
 – Ele murmura.
“Creio que não estava nos planos, mas a assessoria do secretário de Defesa exigiu uma reunião com a senhorita imediatamente. Queira me acompanhar até o carro.”