Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

8 de nov de 2016

Sentença (fúria season 3) - Capítulo 60

MADALINA
Pouso a maleta – oculta pela bolsa de couro sintético – cuidadosamente em cima da mesinha branca.
Consigo imaginá-la, enquanto passo meu olhar pelo amplo quarto de hotel; preta, com aço prateado dos lados, a maleta de metal exibe um painel com teclas minúsculas no centro, exigindo por uma senha para revelar seu conteúdo.
O quarto, por sua vez, está num andar médio do edifício, próximo o suficiente do Pentágono.
Eu fui escoltada para o hotel mais modestamente do que minha chegada até aqui, e a pasta com informações sobre Noah Shrader está pousada em cima da bolsa. Minha cama, a cinco passos de onde estou, é uma queen size, com lençóis e fronhas num alvo e perfeito branco.
As cortinas, ao leste da cama, em tons de creme, cobrem os janelões e a porta de vidro que dá acesso à sacada.
No fundo, a noroeste, a porta transparente me dá uma visão do banheiro, com banheira e ducha.
Olho para o teto em busca de frestas.
Sempre há a possibilidade de que hajam câmeras plantadas ou escutas.



Remexo e afasto a cama de seu lugar, dando início a minha particular vistoria. Colchão, fronhas, rasgos ou costuras suspeitas nos lençóis, frestas na madeira ou no canto das paredes, cada mínimo detalhe precisa de especial atenção. Essa é uma investigação na qual a presença do Pentágono ou do FBI e companhia não é desejada, e aquela maleta jamais será aberta em solo americano antes que eu tenha a certeza de que estou sozinha.
Eu confiro atrás de quadros, portas, vasos, cortinas, confiro os locais cobertos com papel de parede, apalpando, batendo, observando em busca de qualquer sinal suspeito. O quarto – junto com seu banheiro anexo, são colocados de cabeça para baixo, e após 1 hora, eu me certifico de que não há nada.

Desabo, suada e esgotada, numa das duas graciosas cadeiras que acompanham a mesinha.
Com uma mão, agarro a pasta bege dos Shrader, e com a outra, afasto uma mecha de cabelo que gruda em minha testa.
Pulo os trechos burocráticos.

1.3  Odila Fehr
Nação de origem: Líbia
Data de óbito: 22 (?) de fevereiro de 1991
Consta um mandado de busca expedido em 6 de setembro de 1979 – em 10 de setembro, seu nome foi incluído na lista de observação do FBI. 
Suspeita de crimes de imigração ilegal e espionagem – posteriormente, associação ao terrorismo
Consta na lista de militantes e nomes fortes da Irmandade Muçulmana, organização “raiz” do Al’Jamma (nome simplificado)
Informações abaixo extraídas de depoimentos de réus confessos ligados ao Al’Jamma, com base em acordo de delação
Depoimentos realizados entre 2010 e 2011 (descrição detalhada na pasta 9 do inquérito)

60–70

Viagem ao Canadá – casamento com Ethan Shrader:
Busca de apoio ocidental à Irmandade Muçulmana, ameaçada pelo nacionalismo crescente e enfraquecimento do rei líbio. Perseguição sistemática e desintegração da IM no final da década de 60. Viagem à Líbia. 

70–80 

Reorganização de sobreviventes da IM
Odila como um dos membros mais antigos da Al’Jamma, ainda em fase de formação
Pequenas bases da Al’Jamma começam a se emparelhar ao redor do país
Volta ao Canadá (1979) – mandado de busca

85–90

Aliança Al’Jamma – máfias do sul da Itália
Financiamento e formação de frente armada
1990 – primeiros ataques locais 


1.4  Ethan Shrader
Nação de origem: Canadá 
Data de óbito: 22 (?) de fevereiro de 1991
Não consta mandados de busca ou prisão nos arquivos
Descoberta sua ligação com o Al’Jamma a partir de delações feitas em 2011 por membros antigos do grupo
Considerado amigo íntimo, conselheiro e articulador de Ahmad Abo Jokh, líder do grupo, morto em 2003
Assumiu posição relevante a partir da década de 80–90
Descoberto como um dos mentores do ataque ao centro de treinamento de Derna em 1996 e articulador de uma aliança financeira entre o grupo e a máfia Vaccari em 1997

1.5  Noah Shrader
Nação de origem: Líbia 
Data de óbito: (???) – morte não confirmada
Mandado de prisão expedido na Líbia em 8 de junho de 2001
Mandado de busca e bloqueio de bens expedido em 18 de setembro de 2001
Incluído na lista de maiores procurados pelo governo líbio em 18 de setembro de 2001
Incluído na lista de procurados do FBI em 5 de maio de 2003, após ataque à base de recrutamento militar em Detroit
Incluído na lista de procurados da Interpol em abril do mesmo ano
Desligamento da Al’Jamma no final de 2003, após a morte de Ahmad Abo Jokh e liderança assumida por um de seus homens de confiança. Noah Shrader passou a ser perseguido pela organização desde então. 
Última localização: Venezuela
Atentado a um edifício (2004) onde Noah se mantinha escondido foi responsável por suposta morte, declarada pelo grupo dias depois
Acusações: 

Terrorismo 
Homicídio qualificado 
Ocultação de cadáver 
Organização criminosa
Furto qualificado 
Crime de alta traição nacional

Puxo a maleta cuidadosamente para fora da bolsa, pousando-a no centro da mesa.
Observo o painel e pressiono as teclas.
2719005.
No instante seguinte, o som das travas cedendo sinaliza que o código foi aceito.
No seu interior, forrado por camurça preta, pastas e documentos empilhados fornecem as informações adicionais. Cada um deles, cuidadosamente catalogados e identificados, possui informações sobre os Vaccari, seus negócios, seus aliados, membros da família, inimigos e nomes importantes.
Na página 3 de um dos documentos, o início da resolução do quebra-cabeça.

Jennifer nasceu em 1969, período de desintegração da Irmandade Muçulmana e casou-se com Anthony Vaccari em setembro de 1991, poucos meses depois da morte de seus pais.
Havia um interesse nítido em unir um membro da Al’Jamma com a rica e influente família Vaccari, já que se tratava de um período em que financiamento externo era fundamental para a manutenção do grupo. Entretanto, como se tratava de Jennifer Shrader, alguém com habilidades maiores do que se permitia externalizar, haviam interesses pessoais neste casamento que iam além da simples união familiar e todas as vantagens que surgem com a aliança.
Dadas as informações do diário, o objetivo mais óbvio de Jennifer Vaccari seria descobrir do que se tratava o enigma. Segundo o diário e o depoimento de Liza, Jennifer de fato conseguiu desvendar o enigma, mas dada as informações da investigação e estudos geológicos....
Jennifer Vaccari estava completamente enganada...
Ou estava mentindo.

Algo me diz que a segunda opção, por mais ilógica que pareça, é a opção correta.
Começo a anotar num pedaço de papel...

 2003 – 2004 
Morte de Ahmad Abo Jokh 
Noah se desliga do Al’Jamma
Emparelhamento do governo líbio – anteriormente socialista, com os EUA, torna o governo americano e o Ocidente num alvo para o grupo. Regime capitalista. 
Em 2004, Noah é achado na Venezuela. 

Uma das poucas coisas reveladas por César Vaccari durante a conversa com a Diana, foi a tendência de Noah Shrader a levantar bandeiras políticas/religiosas e aderir a posições extremistas.
O atentado à base de recrutamento em Detroit não foi a mando do Al’Jamma.
Foi a mando das Farc.

Puxo um mapa solto no fundo da pasta bege.
Sinalizado com pontos em vermelho, estão as respectivas localizações de Noah Shrader nos últimos 7 anos.
A localização mais recente se encontra na cidade de San Antonio del Táchira, na fronteira venezuelana, num ponto especialmente controlado pelo que sobrou das Farc.
Poucos quilômetros a diante, do outro lado, está Vila del Rosario, território colombiano repleto de bases militares das Farc.
As Farc é um grupo essencialmente socialista.
Noah Shrader está na Colômbia.

WILL
Já passou das duas da madrugada e eu estou numa exaustiva viagem de carro com Arjean e outros dois homens, logo depois de outra exaustiva viagem aérea.
O carro dá solavancos pela estrada escura e íngreme, e eu não faço ideia de em qual ponto do país eu estou.

“Por que estamos na Macedônia?”
 – Pergunto finalmente a ele, enquanto sinto minhas pálpebras pesarem.

“Porque é o lugar onde o César te traria.”
 – Murmura, tranquilamente. Ao ver meu olhar pousado subitamente sobre ele, ele encolhe os ombros...
“Sim, vamos colocar isso na conta dele. Quem mais teria motivos suficientes pra sequestrar você?”

Minha mente começa a listar as razões pelas quais César me sequestraria.
Na verdade, seria perfeitamente viável que ele fizesse isso muito antes da minha fuga com a Liza. Por mais confuso que isso soe, apesar da conveniência de um sequestro como esse, não é o estilo do César.
Pelo menos, não quando se trata da Liza.
Ele a cerca aos poucos, tomando espaço em pequenas doses, sufocando-a até que ela não tenha mais para onde correr.
Mas a polícia não sabe disso.

Essa é a primeira vez em que tenho a oportunidade de pensar calmamente na noite da fuga. Aquela tentativa de assassinato foi um dos poucos episódios em que César Vaccari não estava agindo como ele mesmo. O momento foi mal pensado, mal calculado, como algo feito no desespero e em cima da hora.
Ele estava preso, mas desde a extradição livrou-se da supervisão da polícia italiana. Seus contatos em território brasileiro obviamente facilitaram sua situação e ele conseguiu o que quis, até o momento. Suas manobras surtiram o resultado esperado. Não há razões para desespero.
O carro para de repente e eu sou quase empurrado para fora.
Ao meu redor, um vasto campo de mato baixo cobrem um cabo que aponta para o Mar Egeu. A paisagem é de uma beleza sombria em meio ao escuro, e a única casa, a alguns metros de nós, com sua pintura branca descascando, contribui com a singularidade da vista.
É como se o mar se tornasse negro ao refletir a escuridão do céu sem estrelas.
Eu me forço a voltar minha atenção de volta a Arjean e seus homens.

“É uma pena que não possa desfrutar da paisagem.”
  – Arjean murmura, num tom que indica que ele, em realidade, não sente nada por isso.

“Por quanto tempo vou ficar aqui?”

Ele abre a porta emperrada com um puxão, e ela faz um rangido horrível.

“Por quanto tempo for necessário.”

A luz é ligada.
A casa, minúscula, possui apenas 3 cômodos; uma sala, cozinha e banheiro. Todos sujos. Cadeiras enferrujadas, crostas de terra e detritos grudados no chão, manchas de mofo nas paredes. Além das cadeiras, não há nada na casa que possa ser chamado de “móvel”.

“Cenário perfeito pra torturas e coisas do tipo...” – Sussurro.

“Exatamente.”
– Arjean murmura, e eu me surpreendo que ele tenha me ouvido.
“Só você que ainda não se encaixa nos termos do cenário.”

Eu abro a boca para rebater, mas de repente, uma dor lancinante surge na minha nuca.
As coisas ao meu redor saem de foco e eu caio, confuso. Minha mão vai até a parte superior da minha nuca e volta com sangue.
Olho para Arjean, mas ao invés de vê-lo, o que aparece em minha visão é um de seus homens com uma grossa barra de ferro em minha direção.
Um novo impacto, e não há mais nada em seguida.