Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

7 de nov de 2016

Sentença (fúria season 3) - Capítulo 59

MADALINA
“Com todo o respeito, Agente Saxe, mas precisamos saber exatamente em que terreno estamos pisando antes de liberar documentos confidenciais do Pentágono para sua investigação.”
    – Baker diz, com seu intencional e conveniente ceticismo, enquanto os outros membros da reunião olham para mim em silenciosa e serena expectativa. Existem nomes do FBI, da Segurança Nacional, e outros nomes do setor “defensivo” dos EUA nessa sala. Todos eles, em comum acordo com todas as palavras do secretário de Defesa.

“O quão importante é Noah Shrader na questão envolvendo as armas nucleares, se é que elas de fato existem...?”

“O inquérito foi aberto exatamente para ter a certeza de que essas bombas existem ou não, e se existem, tornar conhecida a localização delas, sr.Baker.”



“Até onde li nos seus relatórios, agente, todos os exames geológicos deram negativo a qualquer existência de material radioativo, ou qualquer outro componente que faça parte de uma arma nuclear...”

“Os exames geológicos foram realizados nas mansões pertencentes a família Vaccari, de acordo com as informações de Liza Vaccari.”
– Rebato.
“O exame comprovou que de fato não existem bombas lá, mas isso não exclui a possibilidade de que elas estejam em outro lugar.”

“Mas isso revela que Liza Vaccari mentiu em sua declaração.”

“Ou estava enganada.”
 – Murmuro.
“Sr.Baker, estamos numa investigação que não forneceu até o momento nenhum desfecho concreto. E até que isso aconteça, não posso descartar nenhuma alternativa.”

“A informação de que Liza Vaccari fugiu de um presídio de segurança máxima no oeste da Itália é verdadeira?”
 – Adrien Henderson, chefe do Estado-Maior e assessor do secretário, pergunta. Há um tom ácido em sua voz que não me agrada.

“Não acho que a pergunta seja pertinente, General.”

“Permita-me discordar, Agente.” – Declara. – “Liza Vaccari é a informante que gerou a abertura desse inquérito. Qualquer informação sobre suas ações e portanto, suas intenções, são pertinentes nessa discussão.”

A mesa faz silêncio, num impulso implícito para que eu responda.
Eu murmuro, ciente da reação que vai se seguir...

“Sim, General. A informação é verdadeira.”

Um murmúrio presunçoso é compartilhado por todos os membros da reunião.
O General sorri calmamente, vitorioso.

“Creio que sua informante não é alguém que se possa considerar confiável.”
   – Destila. Seu tom agora passou da acidez ao deboche.

“Tem razão, General.” – Murmuro, alto e nítido. – “Concordo plenamente que Liza Vaccari não seja confiável. Nem Liza, nem qualquer outro membro da família Vaccari pode receber esse adjetivo, mas os fatos que giram em torno deles, sim. E até então, era completamente desconhecido para a força-tarefa, e creio eu, para o governo dos Estados Unidos, a ligação de Jennifer Vaccari com aquilo que é chamado entre o clã de “o enigma”. Creio que também o Pentágono não tenha em posse o diário de Jennifer Vaccari que possui insinuações bastante interessantes quanto a existência de armas nucleares. Ouso dizer que os senhores não conhecem os motivos que envolvem o casamento de Jennifer e Anthony Vaccari ou a inclusão do nome de Noah Shrader na lista negra do terrorismo árabe. Por maior que sejam suas informações sobre eles, os senhores não sabem o porquê. E é exatamente por isso que me convidaram até aqui, porque necessitam preencher as lacunas dos seus relatórios.”

Um longo e profundo silêncio se instala no local.
Observo as expressões contrariadas a minha frente, fazendo um lembrete mental para dobrar meu cuidado enquanto estiver em território americano. Se eu já seria monitorada pelo governo durante minha estadia, agora eu serei claramente seguida e vigiada.
Foi um ataque ao orgulho, muito bem sucedido, arriscado inclusive, mas necessário para o momento.
Aproveito o silêncio e continuo...

“Esse inquérito só será encerrado quando eu tiver a certeza de que essas bombas jamais existiram.”
  – Declaro.
“Enquanto isso, nós temos um interesse em comum: Noah Shrader.”

O secretário abre uma gaveta trancada a senha sob o tampo da mesa, com seu olhar fixo em mim.
De dentro, uma pasta de capa bege é puxada e estendida em minha direção. No canto dela, um nome está escrito em letras maiúsculas: Shrader – Al’Jamma.

“Aí está a contribuição do Pentágono para sua investigação, Agente Saxe.”
  – Murmura.
“Espero que seja suficiente. Um agente irá levá-la até suas instalações no hotel.”

WILL
Horas depois, eu me encontro no segundo andar de um simples prédio num bairro remoto de Nova Delhi. O ambiente, decorado precariamente, mas limpo e organizado, foi cedido por duas viúvas, mãe e filha, que receberam uma quantia em dinheiro em troca da ajuda e do silêncio.
Há um pequeno grupo de homens pertencentes aos Vaccari espalhados na sala.
No centro dela, Arjean Jacquard está algemado, sentado num banco de madeira.

“Soltem ele.” – Liza ordena.

Essa é a primeira vez que tenho a oportunidade de vê-la como a líder Vaccari. Séria, calma e firme, com uma grossa casca de razão e ares de superioridade que não permite que seus liderados ultrapassem a linha.

“Eu tenho que avisar que não vim em nome do César.”
  – Arjean murmura enquanto um dos homens afasta as algemas de seus pulsos.

“E por que eu deveria acreditar em você?” – Liza murmura, encostando-se na mesa próxima à uma estreita janela. Seu tom é duro e distante, e eu quase não consigo reconhecê-la.

“Você o conhece mais do que eu, Liza.” – Alega. Então lança um olhar sobre si próprio, como se quisesse reafirmar sua situação. – “Acha que esse é o estilo dele?”

“A que veio então?”

“Bom, eu não vim por você. Vim pelo Richmond.” – Diz, olhando para mim. Liza arqueia uma sobrancelha. – “E vim em nome da Diana.”

Nós nos entreolhamos.
A menção da Diana liga um alerta em minha cabeça. Não há nada que ligue seu nome ao de Arjean Jacquard, pelo menos, não até onde sei sobre ela.

“Não sabe tudo sobre ela, cop.” – Ele diz presunçoso, lendo minha expressão confusa. – “Ela, por exemplo, não te contou que nós fomos casados durante 3 anos. Na verdade, se olharmos juridicamente, somos casados até hoje. Eu entendo que ela tenha feito isso, e espero que você entenda também. A polícia jamais aceitaria a esposa de um homem como eu.”

“Está blefando.” – Solto.

“Por que eu faria isso?” – Rebate, com um sorriso enviesado. – “Estava acorrentado até pouco tempo, no meio de um bando de Vaccaris, não que eu tenha algo pessoal contra vocês, mas os negócios nos ponhem em posições opostas, mas de qualquer forma, eu estou em desvantagem aqui. Sua esposa pode me matar a qualquer momento. Por que eu me colocaria em risco pra nada?!”

“Ainda não descartei o César.” – Liza salienta.

“Eu não sou o cara que César mandaria.”
  – Murmura, dessa vez, com seriedade em seu rosto.
“Eu mexo com dinheiro. Transações, lavagens, números. Eu não gosto de gente, quase nunca sei lidar com meus companheiros de espécie, e o César sabe disso. Se o dedo dele estivesse no meio, não seria eu que estaria aqui.”

“Certo.” – Murmuro, dando um passo em sua direção. – “Digamos que você esteja falando a verdade e a Diana tenha te mandado até aqui. Por que ela te mandou? O que ela quer com isso?”

“Ela quer tirar a acusação de traição e envolvimento na fuga da Liza.”
  – Diz.
“A cumplicidade entre vocês dois me comove. Todos nós sabemos que quando você decidiu fazer isso, abriu uma cova pra sua carreira, mas a Diana quer te livrar. Ela me fez pensar num jeito de montar um álibi que te afaste das acusações, e agora que tenho um plano em mente, preciso que você venha comigo.”

 Eu silencio, olhando fixamente para seu rosto em busca de alguma confirmação de sua sinceridade ou de seu blefe. Liza aguarda calada, e se faz poucos minutos de quietude até que um dos celulares toque.

“É o celular dele, chefe.” – Um dos homens murmura, com o celular tomado de Arjean em mãos.

“É ela.” – Ele diz. – “Aí está sua prova de que estou falando a verdade.”

Eu me apresso e agarro o celular.
Do outro lado da linha, a voz se revela nitidamente, pertencente à Diana.

“Will, vá com ele.” – Ela diz. – “Arjean está falando a verdade, essa é a única chance de você se livrar de uma condenação. Há um mandado de prisão e um processo aberto contra você aqui. Se te pegarem, você vai preso e não vai sair tão cedo...”

“Eu não pretendo voltar.”

“Mas deve.” – Murmura. – “Pense na sua filha. Não há como salvar a Liza de uma condenação, mas você... Ela vai precisar de você quando sair. Vai precisar do pai livre.”

“Como mentiu sobre sua vida por tanto tempo?”

“Isso não importa agora.” – Diz. – “Tenho que desligar. Pense no que eu disse.”

A linha é cortada no instante seguinte.
Liza e Arjean me observam, fixos, cheios de expectativa.
Volto meu olhar para ela, e ela lê a resposta nele. Ela sabe que foi a Diana, e sabe que estou cogitando seu pedido.

“Vá com ele.”
– Liza sussurra.
“Eu vou ficar bem.”

Ela sabe quais são meus motivos para resistir.
Esse é o momento em que nós resolvemos nossos problemas juntos. Foi o que eu disse a ela quase uma hora atrás.

“Faça o que você deve fazer.” – Ela volta a dizer. – “Nós ainda estaremos juntos. Você será mais útil na Itália do que aqui.”

Eu busco sua mão, sentindo o aperto firme e reconfortante.
Ela incentiva com os olhos minha decisão, e eu olho para Arjean.

“Vou com você. É bom que eu não me arrependa disso.”