Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

19 de mai de 2017

Baed - Capítulo 15

Acordo com a voz reverente e tensa de Kinski, o mordomo, em meus ouvidos.
Tensa.
Assim que capto a entonação, com não muita certeza da minha precisão, ainda confusa e sonolenta, forço-me a levantar com rapidez.

O que encontro, ao erguer meus olhos para o quarto, é a imagem de quatro homens encapuzados, com seus olhos descobertos e olhar vivo, fixo em mim.

15 de mai de 2017

Baed - Capítulo 14

O barulho das correntes de ferro em atrito ecoam por todo o galpão.
A alguns metros de mim, Majed se sacode e vibra as correntes de seus pulsos e tornozelos, fazendo ranger a cadeira enferrujada; ele possui um limite, entretanto. As longas correntes estão fincadas na parede, e ele sabe que todo esforço para soltá-las é inútil, então ele apenas grita: 

“Quem são vocês?!” 

Eu me movo em minhas botas macias, gastas o suficiente para que se moldem perfeitamente em meus pés, gerando um farfalhar de som que apenas alguém muito desesperado e alerta poderia ouvir. Dizem que, quando um dos sentidos de uma pessoa é retirado, os outros se tornam mais apurados. 

“Quem está vindo??!”

Os outros, responsáveis pelo estrago no belo rosto de Majed Albandak estão encapuzados, apesar do momento não necessitar mais desse tipo de artifício. Eu não quis participar da parte suja do processo, então estou vindo para finalizar. 
Essa é uma morte onde eu preciso estar presente; uma morte onde a vítima precisa ouvir o som da minha voz. 

Então me aproximo, lenta, deslizando sobre o piso de barro, para finalmente responder sua insistente pergunta…

“Sou eu, Majed.” 

Posso sentir seu corpo gelar. 

Volto a caminhar, desta vez para a cadeira reservada a mim, à sua frente, para contemplar seu rosto confuso e ensanguentado. 
Ele volta-se freneticamente para os lados, tentando me capturar, e abre a boca novamente: 

“Ali?” – Murmura. – “Ali?! Onde você…”

“Estou aqui.” – Volto a falar, já sentada, enquanto ele volta bruscamente seu rosto para a direção do som. 

Há uma faixa de tecido branco cobrindo seus olhos, encharcada de sangue em seus globos oculares. 
Seu corpo fede, e ele soa como um animal estressado, acuado. 

“Há uma coisa nisso tudo que me admira em você.” 
– Digo, antes da enxurrada de impropérios que com certeza se seguiriam. 
“Não é o único dos Albandak que queria me ver morta, mas foi o único que teve coragem para pôr as coisas em ação, ao invés de vomitar uma falsa moral.”

Surpreendentemente, ele não diz nada. 
Eu volto a falar, entretanto. 

“É uma pena, para você, ter perdido esse jogo.” 
– Eu não gosto de vê-lo calado. Não é do feitio de Majed. Ele deveria estar xingando até a quinta geração dos meus antepassados.
“Apenas me diga, como conseguiu o Nicolas?” 

Eu guardei essa pergunta durante anos.
O dia de sua morte me soa tão rápido e confuso que passei a desejar saber o que aconteceu até aquele momento. Nicolas me prometeu uma fuga, e uma possibilidade de negócio para assinar o documento de Majed. E antes? Como eles o acharam? 

Majed não responde. 
Eu aguardo por segundos, antes que um dos encapuzados o golpeie. 
Ele nem sequer demonstra dor. 

“Não é o momento para fazer birra, Majed.” 
 – Sibilo, mas minha voz soa ridícula. 

Ele recebe outros golpes. 
Os novos filetes de sangue que se abrem em sua pele, o baque surdo dos golpes e sua total inexpressão me assustam. 
Aos poucos, eu é quem me torno muda. 

“Olhe nos meus olhos mutilados antes de me matar.” 
  – É o que ele diz, minutos depois. 

Eu me sinto petrificada, num repentino e embaraçoso medo, mas avanço. 
Talvez seja o medo, ou a necessidade de afirmar que não o sinto, o que me faz aceitar seu desafio. Com uma mão na pistola e o olhar fixo em seu rosto, faço sinal para que um dos encapuzados remova a faixa. 
Quando o nó afrouxa, e o tecido escorrega para fora, não encontro globos oculares cobertos por sangue, perfurados ou até mesmo retirados. 
Encontro olhos limpos, intactos e implacáveis. 
Encontro os olhos do meu pai. 

Acordo repentinamente, ofegando.
Fito minhas mãos geladas, com suor acumulado em suas palmas. São necessários longos segundos até que eu assimile que este é meu quarto na mansão Albandak, e o que eu vi é apenas um sonho.
A morte de Majed não me gerou remorso.
Ele nunca me pareceu uma vítima, era um porco ambicioso que não seria capaz apenas de me matar, mas destruir, da forma que lhe fosse conveniente, qualquer pessoa que o impedisse de alcançar seu objetivo. Eu sonho com vítimas. Esta sempre foi a tendência.

Baed - Capítulo 13

Minha mãe não era simpática às religiões abraâmicas¹.
O pouco que sei sobre ela gira em torno de seu casamento não validado com o meu pai, por questões religiosas, e meu polêmico nascimento, considerado por uns legítimo e por outros, a consumação de um pecado abominável.
Caminhando pela gigantesca oficina de acabamento da Alssu Albandak Company, onde profissionais em seus equipamentos de segurança, erguidos por andaimes suspensos, se concentram nos dois navios cargueiros enfileirados na pista aberta, me sinto tentada a teorizar a morte da minha mãe. E se ela foi assassinada, ao invés da história de morte natural que me contaram?
Haveria uma longa lista de suspeitos, e uma dificuldade imensa em descobrir o que aconteceu.
Sinto como se soasse um desrespeito à sua memória, mas não estou disposta a por às claras um trecho de minha vida tão fragmentado e disperso.

Minha mente então transita para Liza Vaccari, repentinamente.
Faz anos desde sua morte e de sua filha. Desde então, nenhuma notícia sequer houve sobre William Richmond. Ele soa como um rosto distante, borrado em minha memória, apesar do relativo pouco tempo.
Liza, por sua vez, aparece em minha visão com muita nitidez. Ela passou a vida inteira tentando esclarecer questões do passado, e a cada sujeira descoberta, afundava num poço de infelicidade e violência que a levou para a morte.
James também conviveu com seus monstros dentro do seio familiar. Depois de dois exemplos tão próximos, eu seria estúpida se não aprendesse.

7 de mai de 2017

Baed - Capítulo 12

Deslizo o bilhete de Shaofeng pela mesa redonda do quarto, horas depois.
Guan fita o pedaço de papel com indiferença, com sua postura e silhueta esguia, sentada num dos bancos, com o longo cabelo preto escorrido sobre o tronco.
Há quem diga que tudo é avaliado com desprezo sob o olhar inexpressivo de Guan Sun-so, a policial chinesa, membro de uma força especial que possui acesso e atuação livre nos países da trinca China-Coreia-Taiwan. Ela, assim como sua equipe, vivem em Taipei há cerca de 3 anos, fazendo monitoração de fronteiras, imigração e questões diplomáticas das embaixadas, a atividade designada para o grupo que reúne policiais, diplomatas, juízes e todo tipo de pessoa que deva estar numa suposta força independente de apoio às potências.
Guan Sun-so, ao contrário do que eu pensei por muito tempo, não é a China.
Ela está sozinha, no meio dos Hansson, por conta própria e clandestina, e eu insisti em não aceitá-la na equipe por causa de minhas desconfianças. Guan é impenetrável. Há sempre uma névoa tão densa ocultando seu interior que ela se torna um agente perigoso. Custou muito tempo e esforço para ganhar minha confiança, e ainda assim, ela não é total.  

“Você tem um bônus; ele é diabético.”
– Murmuro, enquanto Guan lê as breves letras no papel.
“Salman Kapoor, 33 anos, casado, 2 filhos, é o produto daquelas reações de sociedade insatisfeita, político ultranacionalista, pavio curto, expressivo e com inclinação ao populismo. Ele tem ganho popularidade e influência na Índia, entre o povo e entre a articulação política nacional, o que o transforma numa bomba-relógio pros chineses. Além das táticas convencionais de políticos do tipo, ele avança numa amizade alarmante com o Japão, através da comunidade estrangeira no país, o que só agrava o problema. Só para se ter uma noção, a esposa dele é japonesa e refugiada. Shaofeng tem pressa. Kapoor não é tão impulsivo quanto tenta parecer ser, as alianças dele tem provado isso. Faça parecer natural, não dê falsos assassinos. É algo extremamente delicado, ele tem apoio, e se esse apoio ao menos desconfiar que ele foi assassinado, você terá aceso a dinamite. Mais alguma coisa?”

“Vai acompanhar o processo?” – Ela pergunta.

Por mais que minha identidade e meu rosto estejam protegidos, seja pela prudência, seja pelos véus da sharia ou pelo apoio de grandes lideranças, não posso participar da maioria dos serviços diretamente. Entretanto, eu me torno uma força implícita, adquirindo informações e direcionando passos, com raras e esporádicas intervenções diretas.
Quando Guan fala de acompanhar o processo, significa se eu vou ser essa força oculta desta vez.

“Não.”
– Respondo.
“Vou voltar para Abu Dhabi, tenho coisas a resolver lá. Estarei esperando por notícias.”

Nós não funcionamos como uma máfia convencional.
Eu não sou uma espécie de soberana cercada de servos para bancar meus gastos e atender às minhas conveniências. Cada pessoa que faz parte do “remanescente” dos Hansson não entrou por amor a mim ou mesmo ao clã que nos conferiu o nome; cada uma delas está aqui motivada por suas adequações pessoais. Eu sou a líder, isto é fato, mas o que me confere fidelidade não é o amor ou os laços de sangue, e sim o fato de que eu sou a melhor escolha.
Esta tem sido minha vida nesses últimos anos. Lutando para me manter sempre no pódio de melhor escolha, e meu relacionamento com Abu Dhabi é essencial para isso.
Eu dependo dos outros muito mais do que me permito externalizar, no final das contas.

Guan caminha até a porta, erguendo o bilhete sobre a chama do isqueiro, observando o fogo lamber a ponta do papel.
Penso num detalhe que provavelmente já foi notado por ela, mas sinto ser necessário salientar:

“Aproveite a imagem de impulsividade que ele criou sobre si mesmo.”
  – Digo. É muito mais plausível que um homem impulsivo, guiado pela volatilidade de suas emoções, seja descuidado com o próprio quadro clínico. Ela olha para mim com a expressão de quem já havia notado, mas eu completo, ainda assim…
“Esse é o caminho que te levará a um trabalho bem sucedido.”

1 de mai de 2017

Baed - Capítulo 11

Atravesso uma das largas e movimentadas ruas de Taipei, olhando para a graciosa casa de vidro que ocupa parte da calçada.
A calçada por sua vez, soa como um comprido e espaçoso pátio que se expande pela rua adjacente onde, no fim, se ergue o Museu Nacional, um prédio com colunas, que reúne aspectos ocidentais e orientais.
Quanto à simples construção em paredes e teto de vidro, telões com notícias recentes, serviço de chá e bancos acolchoados formam o clima interno, capaz de abrigar com tranquilidade quase 100 pessoas, sem contar os funcionários.

Quando empurro os óculos escuros para minha cabeça, onde o cabelo cresce para além do que é mantido, encontro Ethan Cheng na terceira fileira, fingindo concentração na tela à sua frente numa dramática atuação.
Sento-me ao seu lado, deixando o pacote com o azeite de Shaofeng propositalmente visível.
Ele olha para mim com um sorriso enviesado no rosto.

“Li-ho¹, Jackie.” – Ele diz.

Jackie Muari é minha terceira identidade. Basicamente uma médio empresária da África do Sul.
Afasto da minha mente o fato de que este foi o país onde minha mãe nasceu.

“Tenho um presente para você.”
 – Murmuro, devolvendo o sorriso.

Por causa da minha posição, a imagem de Ali Albandak é protegida.
Publicamente, apenas representantes falam pela empresa, o que torna a criação de múltiplas identidades mais fácil. Ethan Cheng trabalha numa biblioteca próxima daqui, é uma espécie de ‘estudante auto didata’ sem financiamento, exímio colecionador, porém um cidadão comum, alguém que dificilmente penetraria além da teia de mentiras que envolvem a “existência” de Jackie Muari.
Uma médio empresária da gastronomia, dona de uma rede de restaurantes na África do Sul, em constantes viagens de experimentação. Algo comum no fluxo intenso de Taipei. Nada questionável.

Além do mais, eu nunca peço nada a Ethan que vá além do legalmente viável.

Ele observa o interior da sacola de papel, já em seu colo.

“Amigos gentis são sempre valiosos.” – Murmura, numa expressão de agradecimento.

O saquinho de plástico e seu contéudo, anteriormente mergulhado na garrafa de azeite que agora lhe pertence, está suavemente pousado no fundo da minha bolsa.
Passo um olhar de relance na larga tela, cheia de dizeres vibrantes no rodapé.

“Será que teria um tempo para mim?” – Pergunto, fixando meu olhar novamente em suas feições orientais. – “Adoraria passar horas assistindo o noticiário com você, mas estou numa viagem curta e preciso da sua ajuda.”

Ele agarra o copo com chá de cor amarronzada, feito com alguma coisa de efeito relaxante, fervendo, e nós saímos do espaço.

Baed - Capítulo 10

ABU DHABI, 13 DE MAIO DE 2050, 17H25
Eu não me incomodo com o barulho dos meus passos ressonando no piso.
Essa é a ostensiva sala de arte da mansão dos Albandak, uma sala vazia, repleta de quadros nas paredes, e a silhueta de Hayat Albandak é o que estampa o centro do cômodo, metros a minha frente.
Desfaço o hiyab em minha cabeça com uma mão, e quase no mesmo instante, Hayat vira-se para a origem do som produzido.

Seu rosto é a expressão do mais puro espanto.

“Ali” – Ela deixa escapar, numa exclamação abafada.

Eu, por vez, permaneço inabalável.
Não pretendo fingir que não tenho ressentimentos por essa mulher. Ela me vendeu. Me afastando de tudo o que eu conhecia, me jogando em pleno ostracismo por causa de seus problemas pessoais com a minha mãe.
Não tenho a mínima vergonha do nojo que sinto por Hayat, mas meus assuntos passam longe de qualquer acerto de contas que seja esperado de minha parte.

“Tenho só uma pergunta para te fazer, Hayat, e espero que me responda com a mesma objetividade.”
 – Murmuro. Posso sentir o medo exalando dela, como uma pesada parede entre nós duas.
“Quem de vocês estava tentando me matar?”

Ela fica imóvel como uma estátua.
As etapas do plano recentemente traçado se fazem fixas em meus pensamentos como uma linha do tempo.
Em nenhum momento, afasto o meu olhar dela.

“Eu não sei.” – Diz.

“Você mente mal.”

“Por que acha que não fui eu?”

“Porque eu te conheço.” – Respondo. – “Por mais duvidoso que seja seu caráter, você não faria aquilo. Não da forma que aconteceu, pelo menos.”

Desde que Hayat soube que eu estava viva, e com os Vaccari, suas relações comigo tem se baseado no medo.
Uma coisa é vender secretamente uma garota de 14 anos que não oferecia riscos a ninguém. Outra coisa, muito diferente, é tentar matar uma mulher experiente numa listinha considerável de crimes, e que poderia ter aliados escondidos.
Se eu sobrevivesse ao ataque, ela saberia que eu voltaria atrás dela. E que minha retaliação não seria nada agradável.
Hayat não é tão corajosa. E mesmo se ela fosse, agiria de um jeito mais sutil.

“Você está certa.” – Ela murmura, dócil, procrastinando uma resposta clara. – “Eu não tentei matar você.”

“E quem tentou?”
– Insisto.

“Não posso contar.”

Avanço um passo em sua direção.

“Hayat.” – Sibilo, numa voz mais baixa. – “Se quer mesmo ajudar sua família, eu sugiro que mude de ideia. Você sabe que eu não vou parar. Deixe-me acertar as contas com  uma pessoa só, e os Albandak vão encontrar sua tão sonhada paz.”

“Foi Majed.” – A voz de Mohammed, num timbre espantosamente grave e profundo, ecoa por todo o cômodo. Sua alta figura está parada próximo à porta. Ele lança um olhar para mim e completa: - “Majed contratou homens para procurá-la e matá-la.”

“Mohammed.” – Ouço a voz tensa de Hayat ao fundo, como a voz de uma mãe contrariada, mas impotente, enquanto meu olhar continua fixo nele.

Mohammed Albandak é o filho único de Hayat.
Nós crescemos juntos, com uma pequena diferença de idade, e ao contrário do que se pensava, nós nos dávamos bem. Ele não estava lá quando eu fui vendida, mas esteve ao meu lado todo o tempo quando nosso pai morreu.
Ele continua olhando para mim, com o rosto sério, e eu me pergunto como ele reagiu a tudo aquilo. Será que Hayat contou a ele, ou ele descobriu o que aconteceu comigo depois, sozinho? Ele sabe da minha ligação com os Vaccari? Ele sabe que eu me tornei Sidney Basner?

Majed, por sua vez, é irmão de Hayat.
Foi uma surpresa ter Hayat na Itália atrás de mim, quando James me levou até aquela praça; mais do que sua presença, a notícia de que eu me tornei a herdeira total de toda a fortuna Albandak ao invés de Mohammed me deixou em choque.
Ainda que eu seja a filha da primeira esposa do meu pai, eu sou mulher.
A fortuna seria de Mohammed se meu pai e seus aliados não intervissem.
Houve pessoas que me ajudaram, afinal. Não por mim, mas por respeito ao meu pai. Entretanto, as questões financeiras colocam a mim e ao filho de Hayat Albandak em posições opostas.
Ou não?

“Ali está certa, mãe.” – Ele murmura, tirando os olhos de mim. – “Majed pode cuidar-se sozinho. É um homem. Afinal de contas, foi ele quem procurou por isso.”

“É seu tio!” – Ela grita, quase chorando.

“Não vou colocar a família inteira em risco só para livrar o pescoço dele.” – Rebate.

Eu permaneço calada, observando o diálogo entre os dois, estarrecida.
Quando Hayat então cruza a sala, minha mente retorna ao seu plano original.

“Eu não terminei com você.”
– Murmuro, firme novamente. Ela para e volta o seu olhar para mim.

“O que mais você quer?” – Rosna, e há mágoa em sua voz.

Ela não tem motivos para estar magoada. Eu tenho, e estou perfeitamente tranquila.

Posso sentir o olhar de Mohammed pinicando em minha pele, atrás de mim.
Ele não vai gostar do que eu vou dizer, mas não importa. Repito para mim mesma que há algo muito maior a ser feito do que tentar restaurar quaisquer laços com meu meio irmão.

“Eu quero você fora desta casa.”
– Declaro, por fim.
“Amanhã haverá um motorista aguardando por você na saída às 9. Ele vai levá-la até Al Ain, onde você vai morar daqui para frente. Poderá fazer o que quiser, mas esta casa está vetada para você. Eu não quero vê-la novamente.”

Mais um daqueles silêncios sepulcrais.
Segundos depois, eu posso ouvir seus passos se distanciando do cômodo. Mohammed, entretanto, ainda está aqui.

Eu não deveria, mas eu pergunto:

“Não vai protestar a favor da sua mãe?”

“Não.”
 – Responde, com a mesma voz calma e séria de sempre.
“Odeio ter que confessar, mas ela mereceu isso.”

Então ele sabe.
Deve saber. Ele não diria isso se não soubesse.

Volto meu olhar em sua direção, mas ele já não está mais lá. No lugar dele, um Zorn em seu perfeito papel de empregado temporário me espera no hall da mansão.
Eu faço um sinal, e ele me segue com as malas até um dos quartos. Tento me focar novamente.

“Não temos muito tempo, Sidney.”
– É o que ele diz, quando estamos sozinhos.

Baed - Capítulo 9

Abro as portas de vidro do quarto, caminhando pelo extenso convés do navio.
Escolhi o último dos quartos, o mais distante, de frente para a popa; o acesso irrestrito a essa área me fornece a constante visão do extenso Mar Amarelo, e logo depois, o Mar da China Oriental, quando o navio estiver mais próximo do meu destino.
Taiwan.
É sempre interessante visitar o país.
O navio aportará em Taoyuan, a alguns quilômetros de Taipei, a capital; a condição de estabilidade política e democracia torna Taiwan o centro das informações do mundo Ocidental no extremo oriente. O comércio entre os dois polos, separados pelo extenso Pacífico a leste e o Atlântico a oeste, ainda existe, mas com muitas ressalvas. Nem Estados Unidos, e nem China querem estar numa guerra; isso seria caro e inútil. A Ásia, como eles mesmos se chamam com notável ufanismo, deseja minar as forças da potência concorrente no campo econômico e político.
A democracia questionável da China, e de muitas províncias da Coreia, não permite que as informações cheguem para a maioria de uma forma completa. O mesmo não acontece com Taiwan, a enorme bolsa de valores em forma de ilha.
A guerra entre oriente e ocidente não é feita com armas e invasões violentas. A guerra moderna é feita com informação, dinheiro e persuasão midiática.
Nada mais favorável para alguém na minha posição.

“Ali Albandak.”
– Uma voz formal cita meu nome. Um homem com um elegante uniforme tem um telefone em mãos.
“Ligação para a senhora.”

Murmuro um agradecimento e encosto o celular na orelha. Assim que o funcionário fecha a porta, ouço a familiar voz..

“Minha querida senhorita Albandak.”
– Liu Shaofeng, o atual presidente da China, murmura na linha, claramente satisfeito.
“Eu estive falando sobre você hoje. Sobre o quanto você gosta de azeites. Por que não dá uma olhada na segunda gaveta da sua cômoda?”

Corro em direção ao local indicado, encontrando uma bonita garrafa de vidro escuro, espesso, vedada por uma rolha.
No rótulo, a identificação do caríssimo azeite está entre as estampas coloridas e geométricas da marca. Quando consigo puxar a rolha para fora, um saquinho transparente vem preso a um minúsculo gancho, na superfície inferior da tampa.
Envolto no plástico, a salvo da densidade líquida do cheiroso azeite, uma chave e um pedaço de papel.

“Sua curiosidade quanto a chave será satisfeita no próximo Haji¹.”
– Ele murmura, em meio ao meu silêncio.

A chave é pequena e fina, num formato pouco comum.
Abro o bilhete.

“Tenho uma mudança de planos, suponho.” – Murmuro, com os olhos ainda nas letras estampadas.


O bilhete possui um endereço escrito à mão.

New Industrial Town, Bloco 4, Faridabad, Índia.
E um nome.
Salman Kapoor

“Não vou mais incomodá-la.” – Shaofeng diz. – “Me ligue depois para dizer como foi a viagem.”

Ouço o barulho da linha vazia.
Nada suficientemente confidencial é dito nas ligações. Os serviços que o presidente envia são sempre por escrito, escondidos em algum lugar improvável. Não há muito questionamento quanto às suas ordens, é claro, mas sempre há inimigos.
E quando Liu Shaofeng me contata, ele me entrega um nome.
Diferentemente dos outros, existe um destino fixo para todos os seus serviços.

Salman Kapoor estará morto em algumas semanas, e todos pensarão que foi uma morte acidental.

¹Haji: peregrinação em Meca, presente no calendário muçulmano.