Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

1 de mai de 2017

Baed - Capítulo 9

Abro as portas de vidro do quarto, caminhando pelo extenso convés do navio.
Escolhi o último dos quartos, o mais distante, de frente para a popa; o acesso irrestrito a essa área me fornece a constante visão do extenso Mar Amarelo, e logo depois, o Mar da China Oriental, quando o navio estiver mais próximo do meu destino.
Taiwan.
É sempre interessante visitar o país.
O navio aportará em Taoyuan, a alguns quilômetros de Taipei, a capital; a condição de estabilidade política e democracia torna Taiwan o centro das informações do mundo Ocidental no extremo oriente. O comércio entre os dois polos, separados pelo extenso Pacífico a leste e o Atlântico a oeste, ainda existe, mas com muitas ressalvas. Nem Estados Unidos, e nem China querem estar numa guerra; isso seria caro e inútil. A Ásia, como eles mesmos se chamam com notável ufanismo, deseja minar as forças da potência concorrente no campo econômico e político.
A democracia questionável da China, e de muitas províncias da Coreia, não permite que as informações cheguem para a maioria de uma forma completa. O mesmo não acontece com Taiwan, a enorme bolsa de valores em forma de ilha.
A guerra entre oriente e ocidente não é feita com armas e invasões violentas. A guerra moderna é feita com informação, dinheiro e persuasão midiática.
Nada mais favorável para alguém na minha posição.

“Ali Albandak.”
– Uma voz formal cita meu nome. Um homem com um elegante uniforme tem um telefone em mãos.
“Ligação para a senhora.”

Murmuro um agradecimento e encosto o celular na orelha. Assim que o funcionário fecha a porta, ouço a familiar voz..

“Minha querida senhorita Albandak.”
– Liu Shaofeng, o atual presidente da China, murmura na linha, claramente satisfeito.
“Eu estive falando sobre você hoje. Sobre o quanto você gosta de azeites. Por que não dá uma olhada na segunda gaveta da sua cômoda?”

Corro em direção ao local indicado, encontrando uma bonita garrafa de vidro escuro, espesso, vedada por uma rolha.
No rótulo, a identificação do caríssimo azeite está entre as estampas coloridas e geométricas da marca. Quando consigo puxar a rolha para fora, um saquinho transparente vem preso a um minúsculo gancho, na superfície inferior da tampa.
Envolto no plástico, a salvo da densidade líquida do cheiroso azeite, uma chave e um pedaço de papel.

“Sua curiosidade quanto a chave será satisfeita no próximo Haji¹.”
– Ele murmura, em meio ao meu silêncio.

A chave é pequena e fina, num formato pouco comum.
Abro o bilhete.

“Tenho uma mudança de planos, suponho.” – Murmuro, com os olhos ainda nas letras estampadas.


O bilhete possui um endereço escrito à mão.

New Industrial Town, Bloco 4, Faridabad, Índia.
E um nome.
Salman Kapoor

“Não vou mais incomodá-la.” – Shaofeng diz. – “Me ligue depois para dizer como foi a viagem.”

Ouço o barulho da linha vazia.
Nada suficientemente confidencial é dito nas ligações. Os serviços que o presidente envia são sempre por escrito, escondidos em algum lugar improvável. Não há muito questionamento quanto às suas ordens, é claro, mas sempre há inimigos.
E quando Liu Shaofeng me contata, ele me entrega um nome.
Diferentemente dos outros, existe um destino fixo para todos os seus serviços.

Salman Kapoor estará morto em algumas semanas, e todos pensarão que foi uma morte acidental.

¹Haji: peregrinação em Meca, presente no calendário muçulmano.