Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

19 de mai de 2017

Baed - Capítulo 15

Acordo com a voz reverente e tensa de Kinski, o mordomo, em meus ouvidos.
Tensa.
Assim que capto a entonação, com não muita certeza da minha precisão, ainda confusa e sonolenta, forço-me a levantar com rapidez.

O que encontro, ao erguer meus olhos para o quarto, é a imagem de quatro homens encapuzados, com seus olhos descobertos e olhar vivo, fixo em mim.



Talvez esta seja uma continuação do sonho que tive a noite.
Seria uma bela reviravolta, uma bem merecida aos olhos de alguns, que os homens que me ajudaram a matar Majed ficassem contra mim e viessem em meu leito para fazer comigo todas as coisas que os mandei fazer com um parente tão próximo;
Entretanto, por maior que seja a quantidade de tecido preto que cobre suas peles e ocultam suas fisionomias, eu ainda reconheceria um Hansson numa situação como essa.
Para a minha tristeza – ou alegria, dependendo do ponto de vista –, não há conhecidos na paisagem além de Thomas Kinski, e este está imobilizado pelo cano de uma arma encostada em seu crânio, muito provavelmente, com a sua própria arrancada de seu alcance.

Contudo, enquanto minha mente trabalha na tentativa de explicar o que acontece e encontrar uma saída para o problema, um quinto homem entra em meu quarto, com o rosto plenamente descoberto.
Olho para Kinski.

“Seu irmão está bem, senhora.” – Ele diz, lendo a pergunta em meus olhos. – “Ele não estava em casa quando aconteceu.”

“Ali Albandak!”
– O homem supradito murmura com satisfação.
“Teve uma boa noite de sono?”

“Sim.” – Respondo, sem pensar, com acidez na voz e um sorriso no rosto. – “Teria uma bela manhã de sono também, se não fosse interrompida de forma tão descortês.”


“É uma pena.”
– Afirma, esboçando falsa afetação.
“Acredito que as olheiras permanecerão em seu rosto por mais algum tempo.”

“Quem é você?”

“Prometo que sua pergunta será respondida, mas não agora.” – Declara, passando um rápido olhar pelo cômodo. – “Agora, você irá tomar um banho, se trocar e descer conosco. Creio que as circunstâncias são suficientes para indicar que não aceitaremos um não como resposta.”

Contenho um suspiro exasperado.
Os quatro homens restantes carregam pistolas comuns, mas a forma como se organizam não soa inexperiente. Esta é a mansão de uma das famílias mais ricas da Arábia, guarnecida por uma seleta e competente equipe para garantir sua segurança e privacidade. É necessário muito mais que amadores para invadir a casa sem serem notados.
Estou de mãos atadas.

“Se puder sair do meu quarto, farei o que disse.”
  – Ralho finalmente, mantendo a voz no mesmo tom inicial.

“Claro.” – Murmura tranquilamente, fazendo um leve sinal com a cabeça para os homens que o acompanham. Eles levam Kinski com eles quando fecham a porta.

Aguardo por segundos, imóvel, antes de começar.
Minutos depois, uma pantalona preta, camiseta e um hiyab de um tom de cinza muito escuro formam a imagem de Ali Albandak, a presidente da maior empresa naval do Oriente Médio, acompanhando homens desconhecidos até Deus sabe onde.
Nenhuma das pessoas e organizações que passam por minha mente parecem se encaixar na situação. Nenhum deles tem motivos para mandar homens invadirem minha casa pela manhã.
Desço as escadas em direção ao hall principal, encontrando Ameera e Kinski algemados, sentados no comprido vaso quadrado, no centro do espaço, servindo de decoração.
Devem ter encontrado suas armas, é a única coisa que explica o fato de terem pistolas apontadas para suas cabeças, e não para o resto dos empregados.
Entretanto, como soldados treinados para situações de risco, eles aguardam friamente, com seus semblantes tácitos, por um cenário mais oportuno.

“Como estão todos, Rima?”
– Lanço para ela, me forçando a pronunciar seu nome falso. Ameera é tão mais bonito que Rima.

“Ninguém está ferido ou foi agredido, senhora.” – Diz.

Direciono uma análise mais detalhada ao homem de rosto a mostra.
Suas feições são árabes, comuns, mas ele não fala e não age como um nativo.
Há algo em sua voz e expressão que ao mesmo tempo me causa estranheza e familiaridade.

“Não estamos oferecendo resistência.”
– Alego.
“Não é necessário manter meus empregados presos dessa forma.”

Ele dá um passo adiante, estreitando a distância entre nós com um sorriso enviesado.

“Seus empregados…”
– Murmura, com interesse.
“É curioso que uma mulher honesta e inocente como a donzela Ali Albandak tenha empregados particulares armados, com a destreza de agentes chineses.”

E num movimento, uma pulseira de metal é fixada em torno do meu pulso esquerdo. Seu sorriso se alarga à minha reação apática.

“Como deve imaginar, esta pulseira possui controle externo.” – Discursa, orgulhoso. – “Se desobedecer a uma mínima ordem minha daqui para frente, eu apertarei um botão que vai te provocar sensações nada agradáveis. Se corre risco de morte? Corre, minha cara senhorita Albandak, mas sim, vamos soltar seus empregados depois que nós sairmos.”

Ele indica, com o cano da arma, o caminho em direção a garagem e nós dois saímos.
Como imaginei, sou forçada a entrar em meu carro e levá-lo no banco traseiro, com seu olhar fixo em mim, sua pistola descansando em sua coxa e os dedos roçando num botão que provavelmente pode me gerar uma parada cardíaca.
Poucas manhãs tem sido tão agitadas.