Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

15 de mai de 2017

Baed - Capítulo 14

O barulho das correntes de ferro em atrito ecoam por todo o galpão.
A alguns metros de mim, Majed se sacode e vibra as correntes de seus pulsos e tornozelos, fazendo ranger a cadeira enferrujada; ele possui um limite, entretanto. As longas correntes estão fincadas na parede, e ele sabe que todo esforço para soltá-las é inútil, então ele apenas grita: 

“Quem são vocês?!” 

Eu me movo em minhas botas macias, gastas o suficiente para que se moldem perfeitamente em meus pés, gerando um farfalhar de som que apenas alguém muito desesperado e alerta poderia ouvir. Dizem que, quando um dos sentidos de uma pessoa é retirado, os outros se tornam mais apurados. 

“Quem está vindo??!”

Os outros, responsáveis pelo estrago no belo rosto de Majed Albandak estão encapuzados, apesar do momento não necessitar mais desse tipo de artifício. Eu não quis participar da parte suja do processo, então estou vindo para finalizar. 
Essa é uma morte onde eu preciso estar presente; uma morte onde a vítima precisa ouvir o som da minha voz. 

Então me aproximo, lenta, deslizando sobre o piso de barro, para finalmente responder sua insistente pergunta…

“Sou eu, Majed.” 

Posso sentir seu corpo gelar. 

Volto a caminhar, desta vez para a cadeira reservada a mim, à sua frente, para contemplar seu rosto confuso e ensanguentado. 
Ele volta-se freneticamente para os lados, tentando me capturar, e abre a boca novamente: 

“Ali?” – Murmura. – “Ali?! Onde você…”

“Estou aqui.” – Volto a falar, já sentada, enquanto ele volta bruscamente seu rosto para a direção do som. 

Há uma faixa de tecido branco cobrindo seus olhos, encharcada de sangue em seus globos oculares. 
Seu corpo fede, e ele soa como um animal estressado, acuado. 

“Há uma coisa nisso tudo que me admira em você.” 
– Digo, antes da enxurrada de impropérios que com certeza se seguiriam. 
“Não é o único dos Albandak que queria me ver morta, mas foi o único que teve coragem para pôr as coisas em ação, ao invés de vomitar uma falsa moral.”

Surpreendentemente, ele não diz nada. 
Eu volto a falar, entretanto. 

“É uma pena, para você, ter perdido esse jogo.” 
– Eu não gosto de vê-lo calado. Não é do feitio de Majed. Ele deveria estar xingando até a quinta geração dos meus antepassados.
“Apenas me diga, como conseguiu o Nicolas?” 

Eu guardei essa pergunta durante anos.
O dia de sua morte me soa tão rápido e confuso que passei a desejar saber o que aconteceu até aquele momento. Nicolas me prometeu uma fuga, e uma possibilidade de negócio para assinar o documento de Majed. E antes? Como eles o acharam? 

Majed não responde. 
Eu aguardo por segundos, antes que um dos encapuzados o golpeie. 
Ele nem sequer demonstra dor. 

“Não é o momento para fazer birra, Majed.” 
 – Sibilo, mas minha voz soa ridícula. 

Ele recebe outros golpes. 
Os novos filetes de sangue que se abrem em sua pele, o baque surdo dos golpes e sua total inexpressão me assustam. 
Aos poucos, eu é quem me torno muda. 

“Olhe nos meus olhos mutilados antes de me matar.” 
  – É o que ele diz, minutos depois. 

Eu me sinto petrificada, num repentino e embaraçoso medo, mas avanço. 
Talvez seja o medo, ou a necessidade de afirmar que não o sinto, o que me faz aceitar seu desafio. Com uma mão na pistola e o olhar fixo em seu rosto, faço sinal para que um dos encapuzados remova a faixa. 
Quando o nó afrouxa, e o tecido escorrega para fora, não encontro globos oculares cobertos por sangue, perfurados ou até mesmo retirados. 
Encontro olhos limpos, intactos e implacáveis. 
Encontro os olhos do meu pai. 

Acordo repentinamente, ofegando.
Fito minhas mãos geladas, com suor acumulado em suas palmas. São necessários longos segundos até que eu assimile que este é meu quarto na mansão Albandak, e o que eu vi é apenas um sonho.
A morte de Majed não me gerou remorso.
Ele nunca me pareceu uma vítima, era um porco ambicioso que não seria capaz apenas de me matar, mas destruir, da forma que lhe fosse conveniente, qualquer pessoa que o impedisse de alcançar seu objetivo. Eu sonho com vítimas. Esta sempre foi a tendência.



Afasto os lençóis brancos para o lado, pulando da cama king size.
Atrás das finas cortinas que escondem a porta de vidro, o céu começa a ganhar tons esparsos de laranja em sua cor cinza. Outra porta larga de vidro separa o dormitório do banheiro, e eu decido beber a água da torneira ao invés de descer para a cozinha.
Talvez esse sonho seja sobre o meu pai, e não sobre Majed.
São os piores sonhos, os mais dolorosos, e eu odeio tê-los, por ser mais difícil esquecer quando surge o dia.

Minhas mãos ainda estão trêmulas quando torno para a cama, e eu tenho medo de voltar a dormir.
Este foi o antigo quarto do meu pai.
Todas as noites, até o início da minha adolescência, eu abria a porta do quarto oposto e dormia aconchegada e tranquila, um longo e relaxante sono; evitei o meu antigo quarto desde que voltei.
Depois de um longo tempo de tentativas fracassadas, me levanto novamente e abro a porta. Poucos passos à minha frente, e o quarto menor, mas não menos confortável, se revela para mim.
Todos os antigos objetivos foram retirados, e agora ele é impessoal, um insípido quarto cinza, como se ele jamais houvesse pertencido a alguém.
Deito na cama.
O colchão também tem o odor comum dos alvejantes usados em todas as roupas de dormir. A banalidade dos cheiros e decorações deste quarto me tranquiliza, como se com os quadros, fotos e perfumes, minha vida passada desaparecesse, fosse lavada de mim.
Me entrego a sensação, deixando que meus sentidos captem tudo.
Meus olhos se fecham, e eu imagino o cheiro de lavanda invadindo meu nariz, se espalhando, como uma leve névoa por todo meu corpo.
O silêncio profundo relaxa cada músculo do meu corpo, enquanto o tecido macio dos lençóis e travesseiros pousam gentilmente em minha pele.
Assim, o meio externo e todo o caos que o envolve, some.