Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

15 de mai de 2017

Baed - Capítulo 13

Minha mãe não era simpática às religiões abraâmicas¹.
O pouco que sei sobre ela gira em torno de seu casamento não validado com o meu pai, por questões religiosas, e meu polêmico nascimento, considerado por uns legítimo e por outros, a consumação de um pecado abominável.
Caminhando pela gigantesca oficina de acabamento da Alssu Albandak Company, onde profissionais em seus equipamentos de segurança, erguidos por andaimes suspensos, se concentram nos dois navios cargueiros enfileirados na pista aberta, me sinto tentada a teorizar a morte da minha mãe. E se ela foi assassinada, ao invés da história de morte natural que me contaram?
Haveria uma longa lista de suspeitos, e uma dificuldade imensa em descobrir o que aconteceu.
Sinto como se soasse um desrespeito à sua memória, mas não estou disposta a por às claras um trecho de minha vida tão fragmentado e disperso.

Minha mente então transita para Liza Vaccari, repentinamente.
Faz anos desde sua morte e de sua filha. Desde então, nenhuma notícia sequer houve sobre William Richmond. Ele soa como um rosto distante, borrado em minha memória, apesar do relativo pouco tempo.
Liza, por sua vez, aparece em minha visão com muita nitidez. Ela passou a vida inteira tentando esclarecer questões do passado, e a cada sujeira descoberta, afundava num poço de infelicidade e violência que a levou para a morte.
James também conviveu com seus monstros dentro do seio familiar. Depois de dois exemplos tão próximos, eu seria estúpida se não aprendesse.



A melancolia provocada pela lembrança de Liza e James me segue até o escritório de Rashid Nefazati, diretor geral do setor de engenharia naval da empresa, situado – por escolha dele – próximo às imensas pistas de acabamento e teste dos navios construídos. Quando empurro a pesada porta, a visão de seu tronco debruçado sobre os protótipos em miniatura de navios cargueiros ou sondas offshore melhoradas se revela, e seu olhar castanho-escuro me segue com curiosidade até dentro da sala.
Abro um sorriso condescendente.

“Voltou de viagem?” – Ele pergunta, fitando a pasta preta em minhas mãos.

Pouso a dita cuja sobre a mesa.

“Uma contribuição para o crescimento e inovação do seu trabalho.” – Murmuro, arrastando o documento em sua direção. - “Espero que fique satisfeito, vôos distantes para o extremo-oriente não são tão confortáveis.”

Este é o meu presente, um dos constantes agrados que mantém uma das vozes mais influentes da ALSSU fiéis a mim. Nefazati folheia e confere as páginas, com uma animação contida.
Sento-me numa das poltronas da sala.

“Já lhe disse que é uma excelente presidente, Ali?”
 – Murmura, ainda com o olhar nas folhas.

“Essa é uma declaração muito óbvia, querido.”

Todo esse ar blasé, confiante e estável que eu deixo transparecer, é falso.
De uma forma que seria imprudente admitir para qualquer pessoa, sinto-me pisando em ovos, e esse constante destino suspenso me deixa estressada. As noites bem dormidas tem sido artigo de luxo ultimamente.

Nefazati, por sua vez, olha para mim com os olhos brilhantes de entusiasmo, apesar de todos os movimentos de seu corpo evocando indiferença.

“Esse artigo vai ser mandado para uma longa análise.” – Ele diz. – “Estou concentrado no novo projeto que pode sair daqui. Se tudo der certo, Ali, seremos quase independentes da Arábia Saudita, enquanto o país será praticamente dependente de nós.”

A empresa cresceu consideravelmente depois dos meus acordos políticos.
Nefazati é um prazeroso aliado; desde o momento que assumi a presidência da ALSSU, notei sua insatisfação com a forma com que os antigos gestores guiavam a empresa. Ele é um homem dedicado, amante de seu trabalho, ávido por evolução e com alto instinto competitivo. Os antigos presidentes eram homens preguiçosos, corruptos, interessados em manter a empresa num patamar que apenas os mantivesse salvos de uma ruína. Cargos eram entregues através do nepotismo, profissionais competentes eram subaproveitados e até mesmo os acordos políticos eram feitos com desleixo.
Eu sou tão corrupta quanto todos os outros, isso é um fato que ele conhece, mas fiz a empresa crescer em qualidade e extensão três vezes mais que meus antecessores, e isso é tudo o que importa para Rashid.
Saí dos acordos locais e fiz amizade com potências. Adquiri ações e estendi o raio de mercado da ALSSU para o extremo-oriente. Saí da zona de conforto das offshores para a construção de navios cargueiros comprados pela Europa e África Meridional, destruí alguns cargos fantasma e chefes nepotistas e contratei profissionais de alto nível.
Eu detesto a preguiça, afinal, e Rashid Nefazati compartilha desta opinião.

“Essas construções,” – Pergunto, observando os protótipos. – “Fazem parte do projeto?”

“Sim.”
– Diz.
“Eles não serão de fato construídos, pelo menos não do jeito que está aqui, são um teste de como se adaptará o design dos próximos navios com essa nova fonte de combustível. O objetivo inicial é apenas estabelecer propulsão necessária para que eles se desloquem de modo normal e seguro. Estamos analisando materiais que possam substituir alguns dos usados atualmente na construção, mas ainda é tudo muito rústico. Creio que um navio desta linha possa de fato sair do papel num intervalo de 8, 10 anos.”

A porta é aberta repentinamente, puxando nossa atenção para o recém descoberto rosto de Mohammed.
Sua expressão se torna mais tensa quando ele me vê.

“Ali.” – Murmura, num fraco cumprimento. – “Rashid.”

“Estávamos falando daquele projeto, Mohammed.”
 – Nefazati informa.  
“Creio que devemos deixar nossa presidente por dentro das novas ambições da empresa.”

Mohammed se tornou vice-presidente e porta-voz da ALSSU depois que descobri que ele é um aliado.
Nossa relação, apesar disso, não é tão íntima ou confortável do que se espera de irmãos.

“Sim, é claro.”
– Ele diz, com seu típico tom de voz frio e profundo. Então seu olhar se fixa em mim.
“Acredito que voltou para Abu Dhabi faz pouco tempo, estou certo? Não te vi em casa.”

E esse é todo o nosso problema.
Mohammed é talvez o único Albandak que realmente se importa com coisas como justiça e honestidade. Por mais que tente esconder, sua decepção é nítida por saber que eu não sou como ele.
Entretanto, Mohammed respeita minha posição de presidente, e minhas ações para a empresa. É como se, no final, ele se esforçasse o máximo para não levar para o lado pessoal.
Contudo, minhas constantes viagens, e sua desconfiança quanto à procedência das mesmas, soa para ele como algo difícil de se ignorar.

“Sim, cheguei hoje mesmo.” – Respondo, com a mesma polidez. – “Tinha uma reunião com Nefazati, o que me impediu de ir direto para casa.”

“Ficará muito tempo em Abu Dhabi?”

“Ficarei tempo suficiente para que me veja com mais frequência na mesa de jantar.”

Ele move a cabeça num sutil gesto afirmativo.
Sua atenção então se move para Nefazati.

“Esteja no prédio da sede amanhã cedo.” – Ele diz. – “Aquele contato que te falei, estará lá.”

“Que horas?”

“Por volta de umas 9.”

Me levanto da poltrona, entendendo que meus assuntos com Nefazati se foram.
Murmuro uma despedida para ele e Mohammed, e saio da sala, com minha próxima parada programada para a mansão Albandak.
O clima de minha despedida me deixa um gosto amargo na boca.

¹“religiões abraâmicas […]” – Nos países que seguem a sharia, os casamentos só são considerados legítimos se os cônjuges pertencerem à religiões abraâmicas (islamismo, cristianismo, judaísmo, em suma). Caso um dos cônjuges não pertença a religões do nicho, mesmo que o casamento seja registrado por cartório – e alguns Estados o reconheçam como legítimo, ele estará invalidado pela lei religiosa.