Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

7 de mai de 2017

Baed - Capítulo 12

Deslizo o bilhete de Shaofeng pela mesa redonda do quarto, horas depois.
Guan fita o pedaço de papel com indiferença, com sua postura e silhueta esguia, sentada num dos bancos, com o longo cabelo preto escorrido sobre o tronco.
Há quem diga que tudo é avaliado com desprezo sob o olhar inexpressivo de Guan Sun-so, a policial chinesa, membro de uma força especial que possui acesso e atuação livre nos países da trinca China-Coreia-Taiwan. Ela, assim como sua equipe, vivem em Taipei há cerca de 3 anos, fazendo monitoração de fronteiras, imigração e questões diplomáticas das embaixadas, a atividade designada para o grupo que reúne policiais, diplomatas, juízes e todo tipo de pessoa que deva estar numa suposta força independente de apoio às potências.
Guan Sun-so, ao contrário do que eu pensei por muito tempo, não é a China.
Ela está sozinha, no meio dos Hansson, por conta própria e clandestina, e eu insisti em não aceitá-la na equipe por causa de minhas desconfianças. Guan é impenetrável. Há sempre uma névoa tão densa ocultando seu interior que ela se torna um agente perigoso. Custou muito tempo e esforço para ganhar minha confiança, e ainda assim, ela não é total.  

“Você tem um bônus; ele é diabético.”
– Murmuro, enquanto Guan lê as breves letras no papel.
“Salman Kapoor, 33 anos, casado, 2 filhos, é o produto daquelas reações de sociedade insatisfeita, político ultranacionalista, pavio curto, expressivo e com inclinação ao populismo. Ele tem ganho popularidade e influência na Índia, entre o povo e entre a articulação política nacional, o que o transforma numa bomba-relógio pros chineses. Além das táticas convencionais de políticos do tipo, ele avança numa amizade alarmante com o Japão, através da comunidade estrangeira no país, o que só agrava o problema. Só para se ter uma noção, a esposa dele é japonesa e refugiada. Shaofeng tem pressa. Kapoor não é tão impulsivo quanto tenta parecer ser, as alianças dele tem provado isso. Faça parecer natural, não dê falsos assassinos. É algo extremamente delicado, ele tem apoio, e se esse apoio ao menos desconfiar que ele foi assassinado, você terá aceso a dinamite. Mais alguma coisa?”

“Vai acompanhar o processo?” – Ela pergunta.

Por mais que minha identidade e meu rosto estejam protegidos, seja pela prudência, seja pelos véus da sharia ou pelo apoio de grandes lideranças, não posso participar da maioria dos serviços diretamente. Entretanto, eu me torno uma força implícita, adquirindo informações e direcionando passos, com raras e esporádicas intervenções diretas.
Quando Guan fala de acompanhar o processo, significa se eu vou ser essa força oculta desta vez.

“Não.”
– Respondo.
“Vou voltar para Abu Dhabi, tenho coisas a resolver lá. Estarei esperando por notícias.”

Nós não funcionamos como uma máfia convencional.
Eu não sou uma espécie de soberana cercada de servos para bancar meus gastos e atender às minhas conveniências. Cada pessoa que faz parte do “remanescente” dos Hansson não entrou por amor a mim ou mesmo ao clã que nos conferiu o nome; cada uma delas está aqui motivada por suas adequações pessoais. Eu sou a líder, isto é fato, mas o que me confere fidelidade não é o amor ou os laços de sangue, e sim o fato de que eu sou a melhor escolha.
Esta tem sido minha vida nesses últimos anos. Lutando para me manter sempre no pódio de melhor escolha, e meu relacionamento com Abu Dhabi é essencial para isso.
Eu dependo dos outros muito mais do que me permito externalizar, no final das contas.

Guan caminha até a porta, erguendo o bilhete sobre a chama do isqueiro, observando o fogo lamber a ponta do papel.
Penso num detalhe que provavelmente já foi notado por ela, mas sinto ser necessário salientar:

“Aproveite a imagem de impulsividade que ele criou sobre si mesmo.”
  – Digo. É muito mais plausível que um homem impulsivo, guiado pela volatilidade de suas emoções, seja descuidado com o próprio quadro clínico. Ela olha para mim com a expressão de quem já havia notado, mas eu completo, ainda assim…
“Esse é o caminho que te levará a um trabalho bem sucedido.”