Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

1 de mai de 2017

Baed - Capítulo 11

Atravesso uma das largas e movimentadas ruas de Taipei, olhando para a graciosa casa de vidro que ocupa parte da calçada.
A calçada por sua vez, soa como um comprido e espaçoso pátio que se expande pela rua adjacente onde, no fim, se ergue o Museu Nacional, um prédio com colunas, que reúne aspectos ocidentais e orientais.
Quanto à simples construção em paredes e teto de vidro, telões com notícias recentes, serviço de chá e bancos acolchoados formam o clima interno, capaz de abrigar com tranquilidade quase 100 pessoas, sem contar os funcionários.

Quando empurro os óculos escuros para minha cabeça, onde o cabelo cresce para além do que é mantido, encontro Ethan Cheng na terceira fileira, fingindo concentração na tela à sua frente numa dramática atuação.
Sento-me ao seu lado, deixando o pacote com o azeite de Shaofeng propositalmente visível.
Ele olha para mim com um sorriso enviesado no rosto.

“Li-ho¹, Jackie.” – Ele diz.

Jackie Muari é minha terceira identidade. Basicamente uma médio empresária da África do Sul.
Afasto da minha mente o fato de que este foi o país onde minha mãe nasceu.

“Tenho um presente para você.”
 – Murmuro, devolvendo o sorriso.

Por causa da minha posição, a imagem de Ali Albandak é protegida.
Publicamente, apenas representantes falam pela empresa, o que torna a criação de múltiplas identidades mais fácil. Ethan Cheng trabalha numa biblioteca próxima daqui, é uma espécie de ‘estudante auto didata’ sem financiamento, exímio colecionador, porém um cidadão comum, alguém que dificilmente penetraria além da teia de mentiras que envolvem a “existência” de Jackie Muari.
Uma médio empresária da gastronomia, dona de uma rede de restaurantes na África do Sul, em constantes viagens de experimentação. Algo comum no fluxo intenso de Taipei. Nada questionável.

Além do mais, eu nunca peço nada a Ethan que vá além do legalmente viável.

Ele observa o interior da sacola de papel, já em seu colo.

“Amigos gentis são sempre valiosos.” – Murmura, numa expressão de agradecimento.

O saquinho de plástico e seu contéudo, anteriormente mergulhado na garrafa de azeite que agora lhe pertence, está suavemente pousado no fundo da minha bolsa.
Passo um olhar de relance na larga tela, cheia de dizeres vibrantes no rodapé.

“Será que teria um tempo para mim?” – Pergunto, fixando meu olhar novamente em suas feições orientais. – “Adoraria passar horas assistindo o noticiário com você, mas estou numa viagem curta e preciso da sua ajuda.”

Ele agarra o copo com chá de cor amarronzada, feito com alguma coisa de efeito relaxante, fervendo, e nós saímos do espaço.

Há uma imensa quantidade de pessoas nas largas calçadas da rua central; Taipei é provavelmente o lugar mais ocidental no extremo-oriente, e a cor dos anúncios, o tráfego nas ruas e os altos prédios me fazem lembrar cidades que ficam do outro lado do mundo. Ethan, em si, é um exemplo de como cultura ocidental sobrevive aqui, no meio da guerra velada entre os dois lados do globo.
Guerras veladas, sutis, não-oficiais e não necessariamente violentas.
Ao mesmo tempo em que a ideia me gera um djavu, o cenário me soa novo.

“Eu só tenho meia hora de tempo livre.” – Ele diz, enquanto nos embrenhamos na multidão. – “O movimento vai começar a aumentar depois disso, e eu preciso estar na biblioteca. Vai voltar para Joanesburgo hoje mesmo?”

“Não.” – Respondo. – “Tenho um assunto na Europa antes.”

Ele me lança um breve olhar antes de atravessar a rua.

“Como as coisas andam por lá?” – Pergunta.

“Como de costume.” – Digo. – “Berlim agitada e perigosa, e os outros girando em torno dela.”

Ethan é inteligente e esforçado. Essas características o levaram a adquirir um rico acervo de obras, uma biblioteca de relíquias particulares. Estudos, artigos científicos, livros antigos e todo tipo de coisa que alguém como ele poderia conseguir e guardar.
Apesar da minha necessidade clara de arquivos que ele provavelmente possui, Ethan Cheng é um contato que mantenho por afeição pessoal incluída.
Ele é um bom ouvinte, mas alguém aberto, cheio de coisas a ensinar e disposto a aprender.
Quando desejo escapar de minha realidade comum, venho para Taipei e ligo para ele.

Mais afastados das ruas principais, no final de um estreito corredor, um lance de escadas se ergue em nossa frente, com casas retas, retangulares, unidas em aspecto de pilha, em ambos os lados; suas paredes externas são pintadas de um escuro e profundo vermelho, quase vinho, ou com os tons de grafite dos telhados.
Há tantos lustres, de diferentes formas e tamanhos, suspensos nas charmosas varandas das casas, que gostaria internamente que fosse noite.
Ethan me guia até uma das casas completamente pintadas de grafite.

“Nunca veio aqui?” – Pergunta, seguindo meu olhar deslumbrado para o lugar.

Meneio a cabeça numa resposta negativa.

“Bom, há uns bons restaurantes no começo da rua, geralmente eles recebem muita gente.” – Diz. – “Turistas, em especial.”

Ele gira a chave na maçaneta da porta.
Lá dentro, com as luzes já acesas, há dois sofás gastos, uma mesa de centro… e caixas.
Caixas de madeira e papelão repleta de papéis soltos e livros, espalhados por toda a sala. Nas paredes, grandes murais repletos de listas escritas com sua caligrafia.
Tenho a sensação de estar em seu cérebro.

“Desculpa a bagunça.” – Ele diz, pousando a mochila no braço do sofá vermelho. – “Estou tentando encontrar um jeito de arrumar tudo isso. Quer água? É a única coisa que posso oferecer.”

“Não; obrigada.”
– Murmuro, numa vozinha fraca, como um sopro.

Caminho em meio ao amontoado de informações.
Há poucas prateleiras parafusadas às paredes, ainda sem livros. Todo o aspecto da casa parece em reforma, mas há tanto material, arquivos científicos, livros antigos, mapas, que nem sequer sei para onde olhar.
Ethan nunca me trouxe até aqui. Nós conversávamos na biblioteca ou na casa de vidro, horas de História Antiga ou filosofia, mas nada além disso.
Amigos, mas com ressalvas.

“Então,”
– Começa, jogando o copo de chá vazio no lixo.
“O que você precisa?”

No final das contas, por mais extensas que sejam nossas conversas, nunca fomos de fato amigos.
Ele sabe disso.

“Um estudo…” – Murmuro, recuperando o foco. – “Eu não sei o nome, é difícil de encontrar, algo sobre Etanol. O nome do cara que fez o estudo é Benjamin Miller.”

Sempre é necessário agradar alguém. Dar algo em troca.
É uma longa lista, formada por amigos exigindo presentes para manter a amizade.


Longos dez ou quinze minutos depois, o documento está em minhas mãos enquanto desço as escadas.
Em Abu Dhabi, muitos quilômetros distante daqui, esse conjunto de cerca de 50 folhas vai se tornar o presente de alguém.
Eu também ganho presentes, entretanto.

¹Li-ho: "olá", na língua taiwanesa.