Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

1 de mai de 2017

Baed - Capítulo 10

ABU DHABI, 13 DE MAIO DE 2050, 17H25
Eu não me incomodo com o barulho dos meus passos ressonando no piso.
Essa é a ostensiva sala de arte da mansão dos Albandak, uma sala vazia, repleta de quadros nas paredes, e a silhueta de Hayat Albandak é o que estampa o centro do cômodo, metros a minha frente.
Desfaço o hiyab em minha cabeça com uma mão, e quase no mesmo instante, Hayat vira-se para a origem do som produzido.

Seu rosto é a expressão do mais puro espanto.

“Ali” – Ela deixa escapar, numa exclamação abafada.

Eu, por vez, permaneço inabalável.
Não pretendo fingir que não tenho ressentimentos por essa mulher. Ela me vendeu. Me afastando de tudo o que eu conhecia, me jogando em pleno ostracismo por causa de seus problemas pessoais com a minha mãe.
Não tenho a mínima vergonha do nojo que sinto por Hayat, mas meus assuntos passam longe de qualquer acerto de contas que seja esperado de minha parte.

“Tenho só uma pergunta para te fazer, Hayat, e espero que me responda com a mesma objetividade.”
 – Murmuro. Posso sentir o medo exalando dela, como uma pesada parede entre nós duas.
“Quem de vocês estava tentando me matar?”

Ela fica imóvel como uma estátua.
As etapas do plano recentemente traçado se fazem fixas em meus pensamentos como uma linha do tempo.
Em nenhum momento, afasto o meu olhar dela.

“Eu não sei.” – Diz.

“Você mente mal.”

“Por que acha que não fui eu?”

“Porque eu te conheço.” – Respondo. – “Por mais duvidoso que seja seu caráter, você não faria aquilo. Não da forma que aconteceu, pelo menos.”

Desde que Hayat soube que eu estava viva, e com os Vaccari, suas relações comigo tem se baseado no medo.
Uma coisa é vender secretamente uma garota de 14 anos que não oferecia riscos a ninguém. Outra coisa, muito diferente, é tentar matar uma mulher experiente numa listinha considerável de crimes, e que poderia ter aliados escondidos.
Se eu sobrevivesse ao ataque, ela saberia que eu voltaria atrás dela. E que minha retaliação não seria nada agradável.
Hayat não é tão corajosa. E mesmo se ela fosse, agiria de um jeito mais sutil.

“Você está certa.” – Ela murmura, dócil, procrastinando uma resposta clara. – “Eu não tentei matar você.”

“E quem tentou?”
– Insisto.

“Não posso contar.”

Avanço um passo em sua direção.

“Hayat.” – Sibilo, numa voz mais baixa. – “Se quer mesmo ajudar sua família, eu sugiro que mude de ideia. Você sabe que eu não vou parar. Deixe-me acertar as contas com  uma pessoa só, e os Albandak vão encontrar sua tão sonhada paz.”

“Foi Majed.” – A voz de Mohammed, num timbre espantosamente grave e profundo, ecoa por todo o cômodo. Sua alta figura está parada próximo à porta. Ele lança um olhar para mim e completa: - “Majed contratou homens para procurá-la e matá-la.”

“Mohammed.” – Ouço a voz tensa de Hayat ao fundo, como a voz de uma mãe contrariada, mas impotente, enquanto meu olhar continua fixo nele.

Mohammed Albandak é o filho único de Hayat.
Nós crescemos juntos, com uma pequena diferença de idade, e ao contrário do que se pensava, nós nos dávamos bem. Ele não estava lá quando eu fui vendida, mas esteve ao meu lado todo o tempo quando nosso pai morreu.
Ele continua olhando para mim, com o rosto sério, e eu me pergunto como ele reagiu a tudo aquilo. Será que Hayat contou a ele, ou ele descobriu o que aconteceu comigo depois, sozinho? Ele sabe da minha ligação com os Vaccari? Ele sabe que eu me tornei Sidney Basner?

Majed, por sua vez, é irmão de Hayat.
Foi uma surpresa ter Hayat na Itália atrás de mim, quando James me levou até aquela praça; mais do que sua presença, a notícia de que eu me tornei a herdeira total de toda a fortuna Albandak ao invés de Mohammed me deixou em choque.
Ainda que eu seja a filha da primeira esposa do meu pai, eu sou mulher.
A fortuna seria de Mohammed se meu pai e seus aliados não intervissem.
Houve pessoas que me ajudaram, afinal. Não por mim, mas por respeito ao meu pai. Entretanto, as questões financeiras colocam a mim e ao filho de Hayat Albandak em posições opostas.
Ou não?

“Ali está certa, mãe.” – Ele murmura, tirando os olhos de mim. – “Majed pode cuidar-se sozinho. É um homem. Afinal de contas, foi ele quem procurou por isso.”

“É seu tio!” – Ela grita, quase chorando.

“Não vou colocar a família inteira em risco só para livrar o pescoço dele.” – Rebate.

Eu permaneço calada, observando o diálogo entre os dois, estarrecida.
Quando Hayat então cruza a sala, minha mente retorna ao seu plano original.

“Eu não terminei com você.”
– Murmuro, firme novamente. Ela para e volta o seu olhar para mim.

“O que mais você quer?” – Rosna, e há mágoa em sua voz.

Ela não tem motivos para estar magoada. Eu tenho, e estou perfeitamente tranquila.

Posso sentir o olhar de Mohammed pinicando em minha pele, atrás de mim.
Ele não vai gostar do que eu vou dizer, mas não importa. Repito para mim mesma que há algo muito maior a ser feito do que tentar restaurar quaisquer laços com meu meio irmão.

“Eu quero você fora desta casa.”
– Declaro, por fim.
“Amanhã haverá um motorista aguardando por você na saída às 9. Ele vai levá-la até Al Ain, onde você vai morar daqui para frente. Poderá fazer o que quiser, mas esta casa está vetada para você. Eu não quero vê-la novamente.”

Mais um daqueles silêncios sepulcrais.
Segundos depois, eu posso ouvir seus passos se distanciando do cômodo. Mohammed, entretanto, ainda está aqui.

Eu não deveria, mas eu pergunto:

“Não vai protestar a favor da sua mãe?”

“Não.”
 – Responde, com a mesma voz calma e séria de sempre.
“Odeio ter que confessar, mas ela mereceu isso.”

Então ele sabe.
Deve saber. Ele não diria isso se não soubesse.

Volto meu olhar em sua direção, mas ele já não está mais lá. No lugar dele, um Zorn em seu perfeito papel de empregado temporário me espera no hall da mansão.
Eu faço um sinal, e ele me segue com as malas até um dos quartos. Tento me focar novamente.

“Não temos muito tempo, Sidney.”
– É o que ele diz, quando estamos sozinhos.



“Majed Albandak. Esse é o nome.” – Afirmo. – “Preciso que descubra seus passos, seus contatos, seu arsenal. Não tire os olhos dele em momento algum. Depois, mate-o.”

“Devo ligar para o jornalista?”

Afasto as cortinas do quarto com um puxão.
Vinko Matanic, o famoso jornalista croata ligado ao meio financeiro, empresarial. Ele é o ponto dois da minha linha do tempo.

“Ele deve estar lá às 18h20. Nada mais e nada menos que isso.”
  – Digo.
“Assim que eu estiver pronta, vou para a sede. Fale o que tiver que falar, Zorn, mas faça com que ele esteja lá. É urgente. A notícia de que eu estou em Abu Dhabi não vai demorar a se espalhar.”

“E é justamente por isso…” – Ele murmura, tirando algo do cós da calça. Quando ele o estende para mim, noto ser uma pistola carregada. – “Que você vai precisar disto.”

Eu a tomo de suas mãos.

“Escute, Sidney, todo cuidado é pouco agora.” – Diz. – “Amanhã, pela manhã, vão aparecer duas pessoas aqui. Um homem e uma mulher, seus nomes são Thomas Kinski e Rima Ajram, mas vão se apresentar como Werner Helm e Ameera Abboud. Uma será cozinheira chefe, o outro será contratado como mordomo da casa. Eles serão responsáveis não só pela sua segurança, mas também para ajudá-la a manter contato, enfim, serão fiéis a você. Porém, enquanto eles não estiverem aqui e a entrevista não for publicada, você vai estar muito vulnerável, então, seja rápida e cuidadosa. Tenho que ir.”

Mohammed retorna a minha mente.
Desta vez, entretanto, há um objetivo nítido.

“Esteja de olho em Mohammed Albandak também.” – Solto. – “Descubra se ele é um aliado ou um inimigo.”