Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

6 de nov de 2016

Sentença (fúria season 3) - Capítulo 58

MADALINA
Está frio quando chego em Washington.
Enfio minhas mãos geladas, – muito mais pelo nervosismo do que pelo clima – nos bolsos do casaco, enquanto observo, de longe, um carro preto mover-se em minha direção. Estou a pouco mais de 1km do meu destino final, o Pentágono; a existência de uma ameaça nuclear contribuiu significativamente para uma participação mais ativa do governo norte-americano, e quando o terrorista quase-morto Noah Shrader se tornou peça chave da investigação, o Pentágono me convidou para uma visita.
Enquanto isso, do outro lado do Atlântico, o departamento de polícia de Nápoles está um caos.
     Eu narro todos os acontecimentos dos últimos dias em minha própria cabeça, formal e neutra, como se não se tratasse da minha vida. De alguma forma, esse hábito estranho ajuda a me manter nos trilhos, exalando determinação e confiança quando estou prestes a entrar no ninho militar dos Estados Unidos. Eu aguardo o carro se aproximar e parar, pensando em como as coisas devem estar na Itália agora.



“Agente Saxe, bem vinda aos Estados Unidos da América.”
 – Um homem fardado, de aproximadamente 1,90 de altura, murmura sereno e formalmente. Observo a ínsignia de prata em seu uniforme num segundo.
“Sou o Capitão Aiden Wayne, fui resignado para escoltá-la até o Pentágono. O protocolo de segurança exige que a senhora entregue qualquer arma que estiver portando.”

Puxo a 9mm guardada no coldre e estendo a pistola ao oficial.
Ele faz um aceno de aprovação e abre a porta de um dos carros.
Lá dentro, há outros 3 oficiais que completam o grupo de escolta.
     Eu tenho tempo de examinar a cena sentada no banco traseiro enquanto o carro se move alguns quilométricos até o prédio do Pentágono. Há outros dois carros, um à nossa frente e o outro aos fundos, sinalizando para todo um código de segurança que me faz lembrar as circunstâncias que envolvem essa visita.
O que será discutido em alguns minutos se trata de terrorismo e uma ainda possível ameaça nuclear, investigada numa operação que deve ficar distante dos olhos da imprensa. Para o resto do mundo, minha vinda aos EUA faz parte dos esforços para desvendar as ligações dos Vaccari com grupos terroristas do norte da África. Para a Interpol, o Pentágono e a Polícia Federal italiana, as motivações vão muito mais além.
   Noah Shrader está na lista de foragidos do FBI, o que faz dessa a talvez última chance do governo americano de colocar as mãos nele; seus movimentos, especialmente a incapacidade de rastreá-los nos últimos 7 anos pela inteligência internacional torna o irmão caçula de Jennifer Vaccari num alvo valioso para o Pentágono. Como a Interpol e a polícia italiana foram responsáveis pela mais notória investigação a uma organização criminosa dos últimos anos, o governo americano sabe que possuimos informações que podem ser o passaporte para o paradeiro de Noah Shrader. Por isso o tão conveniente convite.
   O carro estaciona na entrada oposta à principal do prédio, e eu passo por uma sessão de detectores de metal logo na entrada. Eu me sinto tensa. Essa vinda não está acontecendo por acaso, e por mais que o governo esteja disposto a ajudar, isso sempre vem com um preço implícito.
Preço esse que nem eu, nem a Interpol, está disposto a pagar.

“Agente Saxe, permita-me acompanhá-la até sua reunião.” – Outro homem se dirige a mim quando estou no saguão. Sua aparência e roupas são formais, milimetricamente organizadas, e ele soa como se houvesse me aguardado no lugar onde está por muito tempo. Olhando para o extremo oposto do local, é possível ver os corredores dos cinco andares se estendendo simetricamente acima de nós.
No chão liso do saguão, a insígnia do Departamento de Defesa dos Estados Unidos está estampada no centro.

“Por que o Capitão Wayne não pode me escoltar?”
– Deixo escapar a pergunta.

“A sala onde a senhorita será levada faz parte de uma área restrita.” – Responde. – “O capitão não tem autorização para acessá-la.”

Ele move a cabeça num sinal de “siga-me” e eu sigo seus passos em direção aos andares.
Nós caminhamos em linha reta até o jardim, no centro do prédio, e eu posso sentir o olhar de oficiais espalhados pelos bancos fincados na grama. O homem a minha frente não parece se importar com a atenção.

“Não é todo dia que recebemos uma agente da Interpol aqui, especialmente uma agente envolvida numa investigação da magnitude em que está a senhorita.”
– Ele murmura para mim, sem olhar para mim, como se pudesse enxergar minha expressão.
“É normal que sua visita desperte a curiosidade dos oficais.”

Eu permaneço em silêncio, e nós alcançamos a outra ponta do jardim.

“Não é uma agente experiente, é, senhorita Saxe?” – Ele volta a falar.

Nós chegamos a um largo elevador.

“Por que diz isso?”

“É muito jovem.” – Murmura, encolhendo os ombros. – “Ouso dizer que não tem mais de 2 anos trabalhando na Interpol.”

As portas se abrem.
Lá dentro, o observo pressionar o botão D-5 no painel.

“É o único que até agora não me forneceu nenhum nome ou informação sobre si próprio.”
– Murmuro.

Ele sorri.

“Eu trabalho no departamento de defesa, Agente Saxe.”
  – Diz.
“É a única coisa que precisa saber sobre mim.”

Ambos silenciamos totalmente em seguida.
As portas se abrem e eu sou guiada pelos corredores externos do quinto e último andar. As janelas de vidro enfileiradas na horizontal iluminam um dos vários labirintos do Pentágono. Pela escassez de pessoas nesse andar, suspeito que eu já esteja na área restrita.
Minutos depois, uma porta de comando eletrônico surge no meu campo de visão, no fim de um dos corredores. O desconhecido puxa um cartão de um dos bolsos de seu terno, pressiona-o contra o leitor e aguarda a porta abrir-se.
Além dela, um espaçoso e iluminado escritório se revela.
Com bandeiras, porta-retratos e insígnias pousada na mesa e nas estantes do local, o escritório aspira a ambiente militar. Há tapetes e um sofá encostado na parede leste da sala. Atrás de mim, uma larga porta branca mantém-se fechada.

“Aguarde aqui.”

Menos de um minuto depois, eu estou dentro da sala de reunião, e o homem desconhecido já desapareceu, como se jamais houvesse existido.

“Agente Saxe”
– Outro homem de terno murmura para mim, com um sorriso e uma mão estendida para mim. Seu rosto, desta vez, é extremamente familiar.
“Joseph Baker, secretário de defesa dos Estados Unidos. É um imenso prazer conhecê-la.”

LIZA
Esfrego a toalha de banho em meu cabelo recém-lavado. Após a escada, na cozinha, Will arruma alguma coisa entre os canos da pia.
Horas depois da partida de Sidney, o ambiente torna-se incrivelmente silencioso. As ruas estão desertas, e o único som nítido é de plástico em atrito com plástico, proveniente do conserto de Will.
Caminho em sua direção, hesitante.
Essa é talvez a única conversa realmente pacífica que tenho com ele em semanas. Por mais desconfortável que eu esteja, não posso fugir disso.
Ele nota minha presença, e ergue os olhos para mim logo quando me encosto no vão da porta.

“Hey.”
 – Ele murmura simplesmente. Eu respondo com um fraco e breve sorriso.
“Como foi as coisas com a Sidney?”

“Ela vai ver a Jennifer.” – Murmuro. Isso prende sua atenção ainda mais. – “Eu escrevi uma carta. Disse que nós dois estamos bem.”

Ele faz um movimento com a cabeça em afirmação.

“Eu queria poder vê-la.” – Solta.

“Eu também.”

Então nós silenciamos.
Will volta a focar sua atenção em seu conserto. Seu rosto está mais contraído do que a concentração exige, e eu sei que ele está pensando na Jennifer. Foram longos meses desde a última vez em que eles se viram, e ele se sente impotente no meio disso tudo.
Culpado, especialmente.
Esse é um sentimento bastante familiar para nós.

“Obrigada.”
– Digo. Ele volta seu olhar para mim, surpreso.
“Obrigada pelo que fez, Will. Sei o quanto se arriscou...”

“Não precisa tentar fazer eu me sentir melhor...”

“Não estou dizendo isso pra te consolar.”
– Rebato.
“Estou dizendo isso porque eu devo dizer. Você arriscou toda uma carreira e a vida para estar aqui. O mínimo que eu posso fazer é te agradecer, depois de tudo.”

Ele arqueia uma sobrancelha, e eu sei que essa reação é pela minha última frase; “depois de tudo...”

“Eu fui injusta.” – Solto. – “E hipócrita também. Realmente, você me escondeu coisas importantes sobre o trabalho e sobre o quanto isso nos afetaria, mas eu escondi várias outras coisas de você. Eu estava com raiva quando fui presa, mas eu não tinha motivos tão plausíveis para estar. Você é um policial, e eu sou uma mafiosa com uma vasta ficha criminal. Estava fazendo o seu trabalho. Colocando a lei acima de suas questões pessoais. É mais honesto que eu, e eu me orgulho disso.”

“Eu não diria que sou tão honesto assim...”

“Mas naquele momento, foi.” – Digo. – “Foi o policial que a força-tarefa precisava. De qualquer forma, eu não tenho o direito de julgá-lo. Eu sou a última pessoa que tem moral para julgar quem quer que seja.”

Ele continua me observando, em silêncio, mesmo depois que eu paro de falar.
Ele ainda é o cara de NY, que trabalhava como detetive particular e se esforçava para entregar um bom trabalho. Ele está mais velho, mais sério e com uma ficha criminal com certeza mais longa, mas onde importa, ele ainda é aquele cara, enquanto eu nem sequer me reconheço mais.
Talvez seja por isso que eu o admire. Que eu o ame.

“O que acha que o César vai fazer agora?”
– Ele pergunta, repentinamente, com o olhar de volta aos canos. Eu pisco várias vezes, confusa. Num segundo atrás, ele estava olhando para mim, preso em cada palavra.

“Will...” – Deixo escapar, decepcionada.

Ele finalmente se levanta e se aproxima de mim.
Quando estamos suficientemente próximos, ele segura meu rosto com ambas as mãos e diz, terno...

“Vamos resolver nossos problemas externos primeiro, está bem?”
 – Murmura. Seu olhar busca o meu e eu concordo com a cabeça.
“Agora se concentre e me diga o que César pretende fazer. ”

Eu abro a minha boca, mas o som do toque do celular se apressa.
Nós nos afastamos e eu atendo a chamada, receosa.
Ele continua com seu olhar fixo em mim...

“Chefe, tem um cara aqui querendo falar com você.”
 – Ouço.
“O nome dele é Arjean Jacquard. Ele quer o Richmond também.”