Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

20 de set de 2016

Sentença (fúria season 3) - Capítulo 57

LIZA
Querida Jennifer, 

Eu e seu pai estamos bem. Nós sentimos sua falta todos os dias. 

Paro minha caneta, observando as palavras escritas em silêncio.
A ponta manchada de tinta suja a folha branca, e eu penso em apagar o “querida” por soar artificial demais. Quase todas as cartas são iniciadas com “querido” ou “querida”. É clichê ao ponto da palavra perder seu sentido.

Jennifer, 

Eu e seu pai estamos bem. Nós sentimos sua falta todos os dias. 

Eu tento colocar todos os meus sentimentos no papel, fazê-la realista a tal ponto que ela possa se sentir confortada com isso, mas as palavras simplesmente não surgem. É um emaranhado confuso de sensações e emoções abstratas que não consigo por na carta.

Jennifer, 

Eu e seu pai estamos bem. Nós sentimos sua falta todos os dias. Acredite quando digo que gostaria de estar com você, mas não posso. 

Arranco a folha e amasso, como da última vez.
Não gostei de como saiu a última frase.

Jennifer, 

Eu e seu pai estamos bem. Nós sentimos sua falta todos os dias. Acredite quando digo que o que eu mais quero é estar com você, mas não posso. Quero que esteja bem, e viva. Não suportaria se algo de ruim lhe acontecesse. 

As imagens dos últimos meses retornam a minha mente como num filme.
Meu corpo está exausto, e eu começo a pensar no porquê estou prosseguindo. Por Jennifer, provavelmente. E por Will, ouso admitir. Não posso permitir que eles herdem uma guerra que é exclusivamente minha.

[...] Sei que pode estar sem paciência, mas apenas me deixe tentar resolver as coisas. Me deixe tentar construir uma realidade melhor para você. Quero que sua felicidade seja permanente, como a minha jamais foi. Quero que tenha paz, Jennifer. Eu te amo demais para permitir que tenha uma vida como a minha. Você merece mais do que pude te dar até agora. Apenas tenha paciência. As coisas estarão melhores quando você sair. 

De sua mãe, que muito te ama. 

Liza

Dobro a carta com cuidado, fitando-a com minha visão embaçada pelas lágrimas. Pisco várias vezes e enxugo as lágrimas com as mãos, rápida e desajeitada. Quando caminho para sala, o único indício de choro é a vermelhidão no meu nariz.
 Sidney fita meu rosto na saída da casa, e sorri quando lhe estendo o papel dobrado.

“Se ela me escrever de volta,” – Pigarreio, tentando limpar a voz. – “Você ou alguém me traz.”

“Pode deixar.” – É o que ela responde, antes de entrar no carro.

Então observo, impotente, no vão de uma casa que desconheço, num lugar que igualmente desconheço, o carro simples de Sidney distanciar-se.
Olho para sombra de Will, calado e ocupado, na cozinha, movendo-se de um lado para o outro, carregando e soltando coisas com a expressão concentrada.
Por aqui, ainda há questões a serem resolvidas.

DIANA
Posso ver a cabeleira de Arjean assim que piso no bar, de costas, algumas cadeiras a minha frente.
O bar fica do outro lado da cidade, e já faz cerca de meia hora desde minha ligação. Ele não ofereceu muita resistência em vir, como eu esperava, e quanto mais me aproximo, mais posso ver seus dedos tamborilando sobre a mesa.
Ele ergue os olhos para mim quando entro em seu campo de visão, e me segue com eles até eu me sentar em sua frente.

“Um pouco estranho me chamar no horário do seu expediente.”
– Ele murmura, observando a ponta exposta do distintivo escondido pela blusa.
“Ainda mais, num local público.”

“Estou especialmente inclinada a correr riscos hoje.”

Ele arqueia uma sobrancelha, mas não diz nada.

“Devo supor que a essa altura você já sabe o que está acontecendo.” – Continuo.

“Se está se referindo a moça Vaccari, sei.”

“Não somente a ela.” – Digo. – “Will está desaparecido.”

“Reconciliação à vista...”

“Estou falando sério, Arjean.” – Ralho.

“E quem disse que não estou?”
  – Murmura, com um sorriso enviesado.
“Will provavelmente se reconciliou com ela e o resto dos Vaccari, o que é uma notícia não muito boa para o pessoal da investigação. Acabaram de perder seu informante, e ele acabou de perder um distintivo.”

“Não perdeu.”
– Solto. Agora sou eu quem sorrio.

Uma garçonete se aproxima da nossa mesa e Arjean suprime uma resposta.
Ela tem um pequeno caderno de anotações, e enquanto ela se refere diretamente a Arjean, ele mantém os olhos fixos em mim.

“Vou querer uma cerveja.” – Pede.

A moça finalmente olha para mim.

“Tem café?”
– Pergunto. Ela me encara com estranheza.

“Tem.” – Responde com hesitação.

“Eu quero. Sem leite, pouco açúcar.”

Depois de outro olhar confuso, ela vai embora.
Arjean olha rapidamente para o ambiente a nossa volta. O bar está quase vazio, e possui uma decoração em vermelho e amarelo.

“Acho que não entendi o que disse antes.”
 – Murmura. Seu tom de voz é cada vez mais baixo.

“Eu disse que Will não perdeu seu distintivo,” – Começo. – “Porque você se certificará de que ele ficará livre de qualquer acusação.”

“Como?!”

“Durante todos os anos do nosso fatídico casamento, nunca te pedi favor algum.” – Afirmo. – “Acho que é hora de mudar um pouco as coisas.”

Ele me encara, em silêncio, incrédulo.
Depois de segundo de total espanto, ele murmura, lenta e arrastadamente...

“Diana, não posso fazer isso.” – Diz. – “Não há forma de conseguir que ele seja inocentado, ele é marido da Liza, está desaparecido e provavelmente está com ela...”

“Sei que vai conseguir encontrar um jeito.”

“Mas, Diana, eu...”

“Arjean, você não tem escolha.” – Declaro. – “Ou acha que vim aqui te pedir isso sem ter nada? Acha que vim pedir a você isso como alguém pede para emprestar uma caneta?”

“Como assim?”

“Tenho provas contra você.” – Solto. – “Provas que revelam não somente seus negócios ilícitos, mas sua identidade. É como eu disse antes, eu estou disposta a me arriscar, e você tem muito a perder. Não é um simples pedido. Eu estou realmente disposta a entregá-lo se não fizer isso.”

Seu rosto passa da completa incredulidade, para o mais claro aborrecimento.
Ele se inclina sobre a mesa.

“Está me ameaçando?!”

“E se eu estivesse?”

“Não posso acreditar, Diana.” – Murmura. – “Não posso acreditar que está ameaçando me entregar para a polícia por causa do seu amiguinho. Está fazendo tudo isso por causa do Richmond! O que deu em você?!”

“Eu já deveria ter te entregado há muito tempo, e você sabe disso.”

“Se você me entregar, vai perder o distintivo.” – Solta. – “Todos vão saber que está casada comigo, que seu sobrenome é na verdade Jacquard e que você escondeu de todos a minha e a sua identidade. Não vai me entregar porque se eu cair, você cai junto. Está blefando.”

“Não estou.”
 – Declaro firmemente.
“Eu perderia o distintivo, provavelmente pegaria uns 3 anos de prisão, no máximo, 8, mas e você?! Perderia todo o seu dinheiro, todo o seu anonimato, perderia contatos, aliados, seu negócio de lavagem de dinheiro iria por água abaixo, assim como sua frágil e lucrativa amizade com César Vaccari. Você tem muito mais a perder do que eu, então por que se negar a fazer um pequeno serviço?”

“Eu poderia matá-la.” – Ele afirma, abertamente contrariado, e eu abro um presunçoso sorriso. – “Agora mesmo.”

“Tão brilhantemente como matou Kvitova.” – Sussurro.

Então, novamente, ele me encara, incrédulo.

“Foi bem fácil descobrir.” – Solto, encolhendo os ombros. – “O que só prova que não é bom no ramo.”

“Para onde foi sua honestidade?!”

Ele diz estupefato, e eu fico séria de repente.
Seu tom, por mais incrédulo, não soa tão pesado quanto a própria pergunta em si. Ela me lembra de que estamos falando sério. Me envia um lembrete de que não devo falar da vida ou da morte de outras pessoas de forma tão trivial.
Ele nota minha súbita mudança de postura, inclusive.

“É um caso extremo.” – Murmuro, depois de instantes em silêncio. – “Sei que não tenho sido tão honesta quanto deveria. Eu só preciso da sua ajuda. Dessa vez. Só dessa vez.”

Arjean também tornou-se sério.
Ele examina meu rosto durante longos segundos, como se fitasse individualmente, gravasse cada parte da minha expressão. Então, finalmente, ele também murmura, e há respeito em sua voz...

“Se importa realmente com ele, não é?”

Eu não respondo a sua pergunta, mas não fico em silêncio.

“Só precisa achá-lo, montar um álibe, alguma coisa que o impeça de ser condenado...”

“Faria o mesmo por mim?”
 – Ele interrompe.
“Se arriscaria da mesma forma?”

“Já me arrisquei mais que isso, no passado.”

“Mas e agora?” – Insiste. – “Será que tenho ainda alguma parcela da consideração que tem por Will?”

“Will é meu amigo.”

“E o que eu sou?”

Fico calada.
Nós permanecemos durante um longo tempo fitando um ao outro. Ele tenta capturar a resposta em meus olhos e eu tenho encontrar uma forma digna de mudar de assunto. Por fim, é a garçonete com nossos pedidos que se encarrega em quebrar o momento.
Nós murmuramos fracamente um ‘obrigado’ quase em uníssono, e ela vai embora. Tomo um grande gole do café quente, e ele queima parte da minha língua.
Arjean é quem se apressa a quebrar o silêncio.

“Cuidarei disso.” – Ele diz. – “Essa coisa com Will. Não tem mais do que se preocupar.”

Então ele pega a cerveja e sai, deixando uma quantidade de dinheiro sobre a mesa.
Observo o valor. 30 euros.
Fito o perfil de seu rosto quando ele já está na rua, meus olhos fixos em seu maxilar travado.
Arjean se move rápido e ágil, e eu continuo observando o caminho no qual ele seguiu, mesmo depois que ele virou a esquina e desapareceu da minha visão.
Então, a vibração no bolso da minha calça puxa minha atenção para a nova mensagem aberta na tela do meu celular.

Vou para os EUA. Caso NS. Já estou no avião.
Desculpa não ter te avisado antes. 

Madalina