Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

15 de set de 2016

Sentença (fúria season 3) - Capítulo 56

DIANA
Quando paro o carro a poucos metros do departamento, observo uma aglomeração estranha que se forma na entrada.
O sol fraco ilumina a manhã fria de uma quarta-feira, e eu arrumo os óculos escuros em meu rosto com a ponta do indicador. Meus olhos estão inchados pelo sono, mas meu corpo começa a dar sinais de atividade ao notar que o turbilhão de pessoas são na verdade jornalistas, e por alguma razão, a imprensa está batendo na nossa porta.
Praguejo em voz baixa enquanto abro a porta do carro.



  Meus passos na calçada são hesitantes, minha cabeça está quase baixa e eu insisto na tarefa impossível de não chamar atenção. Em poucos instantes, homens e mulheres armados com microfones e câmeras correm na minha direção em busca de alguma palavra.

“Detetive Milazzo!” – Os primeiros clamores ecoam na minha direção. – “Pode conversar conosco?!”

Permaneço calada e acelero os passos.

“Detetive Milazzo!”

“O que a força tarefa fará sobre o insidente envolvendo Liza Vaccari?!”

“O delegado Craven pretende dar uma declaração pública sobre o ocorrido?!”

“Detetive!”

Subo correndo os poucos degraus e empurro a porta de entrada, sendo protegida por outros policiais que bloqueiam a passagem dos jornalistas.
Aqui dentro, o clima não é tão diferente.

“Bragatti!”
– Chamo seu nome em meio ao turbilhão de policiais e funcionários andando de um lado para o outro. Ele para e caminha na minha direção.

“O que aconteceu?” – Pergunto, quando ele se aproxima. – “Por que a imprensa está aqui? Estão falando da Liza e eu...”

“A Liza fugiu.” – Ele interrompe. – “Essa madrugada, ela e todas as detentas que estavam com ela fugiram da prisão.”

Emudeço.
Liza foi enviada para um presídio de segurança máxima que abriga cerca de 100 detentas, deixadas em celas solitárias. É um número pequeno, por que se trata das mulheres mais perigosas do estado e inclusive, do país.

“Se eu fosse você, iria para a sala do Craven.”
– Ele sugere.
“É a única que ele receberia no momento.”

Observo ele se afastar e aceito seu conselho.
Independente do que aconteça, e de quais provas sejam mostradas a favor dele, está claro que Will será culpado pelo que aconteceu. Ele conhece o funcionamento do presídio. É marido da Liza. Tem uma filha com ela.
É o bode espiatório perfeito.

Quando entro, lenta e silenciosa, na sala de Craven, eu penso que não há como saber se é melhor que Will esteja aqui ou não. Ele está sentado, com o telefone fixo na orelha, e uma expressão nada amigável.
Espero, encostada à porta, ele encerrar sua conversa.

“Sim?” – Murmura. – “Desculpe, eu não entendi.”

Surge um instante de silêncio.

“Mas senhor, não há como resolver um caso como esse tão rápido e...”

Outro instante de silêncio. Ele fecha os olhos como se tentasse conter a raiva.

“Certo.” – Diz, por fim. – “Sim, senhor, é claro. Farei isso.”

Segundos depois, o telefone é posto no gancho.
Observo Craven esfregar as mãos no rosto nervosamente. Então, ele começa a dizer para si mesmo, como se eu não estivesse na sala...

“Aquele filho da mãe...” – Resmunga. – “Maldito Will. Maldita imprensa. Malditos Vaccari.”

Continuo quieta.
Ele se levanta e caminha pela sala, nervoso, como um animal enjaulado.

“Diana”
– Ele diz, finalmente, depois de longos instantes em silêncio.
“Pelo amor de Deus, me diga que você foi na casa dele e o encontrou lá, dormindo, como se nada estivesse acontecendo.”

Eu não respondo.

“Diga que ele está aqui, em Nápoles, diga que eu não preciso acionar metade do departamento e a Interpol para ir atrás dele.”

“Eu não sei onde ele está.” – Começo, mas me apresso em completar: – “Mas isso não significa necessariamente que ele tenha algum envolvimento na fuga da Liza.”

Craven solta um riso sem humor.

“Nem você consegue se convencer disso, não é? Vejo em sua voz.” – Rebate. – “Só está dizendo isso para defender seu amigo, o que é uma atitude bem anti-profissional da sua parte, por sinal.”

“Não pode negar que está sem provas.” – Lanço. – “Pode ser meu amigo, mas isso não muda o fato de que você não tem nada que prove que ele está envolvido....”

“Eu tenho evidências suficientes para expedir um mandado de prisão agora contra ele, Diana!” – Vocifera. – “Ninguém neste país me questionaria por essa decisão! Acho inclusive que estão exigindo que eu faça isso, e eu estou seriamente pensando no caso.”

“Craven, por favor.”
  – Suplico.
“Por favor, apenas espere. Espere por algum tempo, ele pode aparecer, não tome uma decisão...”

“Se ele não aparecer em duas horas, é o que eu vou fazer.”
  – Ele sibila, olhando fixamente para mim, irredutível.
“Esse é meu acordo, Diana. Vou esperar apenas por duas horas, nada mais do que isso.”

“Certo.” – Respondo. – “Vou atrás dele, se me permite.”

Porém, quando eu saio de sua sala, meu objetivo não está em procurar por Will.
Eu caminho em direção à saída dos fundos do departamento, resoluta, empurrando a porta velha e sentindo o choque térmico proveniente do frio exterior, tão contrastante ao tenso calor do ambiente interno.
Não pretendo usar carro algum.
Meus pés se movem com rapidez na calçada que me leva ao final do quarteirão; a cada passo, mais distante do turbilhão de jornalistas, policiais, civis...
Minutos depois, a 1 km do departamento, uma caixa pequena me é entregue no balcão da loja, contendo um celular de modelo antigo e custo baixo.
Segundos depois, um número mais do que conhecido por mim se forma na tela, aos poucos, conforme os digitos são discados...

“Alô?”
 – Murmuro, ao ouvir sua respiração do outro lado da linha.
“Arjean?”

LIZA
São quase 10 da manhã, e as coisas estão acontecendo rápido demais.
A mão quente e estável de Will se mantém em minha cintura quando descemos os degraus do avião, e eu lanço o olhar sobre o ambiente ao redor.
É uma pista de pouso bem cuidada, cercada por uma mata igualmente bem mantida. Ao oeste, uma espécie de bosque cuidadosamente plantado tem baobás de Madagascar espalhados, imensos e imponentes. Ao leste, vários metros distante de onde estamos, um imenso casarão branco se ergue, com o aspecto de uma mansão oriental antiga.
Olho para Will, ainda aturdida.

“Onde estamos?”

“Nova Delhi, na Índia.” – Ele responde, com um fraco sorriso. Então completa, como se me observasse o tempo todo... – “A mansão pertence a um amigo de Sidney, que cedeu gentilmente sua pista de voo para nós.”

Arqueio uma sobrancelha ao sarcasmo perceptível quando ele diz “gentilmente”.
Will volta a me guiar para fora do avião, e um funcionário elegantemente vestido nos espera próximo a um Porsche preto.
O ambiente transpira dinheiro e extravagância.

“Senhores.”
– Ele murmura, com uma reverência.
“Há uma considerável distância entre a pista e a mansão. Permita-me que eu os leve mais confortavelmente até lá.”

Ele se apressa a abrir a porta para nós.
O carro percorre a distância de quase um quilômetro em poucos minutos, preenchidos por momentâneos olhares entre mim e Will. Conforme nos afastamos do bosque, as escadas que levam à entrada da construção se revelam na paisagem, brancas, sem uma mancha sequer.
Toda a área da mansão é cercada e guarnecida por seguranças particulares, e o bosque, assim como a pista de pouso são de acesso restrito.
O funcionário bem vestido nos guia em todo o percurso até uma larga porta lateral, que descubro dar acesso direto à principal sala de estar, ao invés do hall de entrada.

Lá dentro, a visão de Sidney, sentada displicentemente num dos enormes sofás, me toma de surpresa.

“Eu só estou fazendo isso pela grande consideração que tenho por sua digníssima família, em especial por seu pai, Ali.”
  – Diz um homem de estatura média e meia idade, caminhando de um lado para o outro num terno branco.
“Ele era um homem honesto, justo, leal, que...”

“Que era bem diferente de você, Ozsan.”
 – Ela interrompe, num tom de desprezo.
“Poupe-me do seu discurso moralista. Só está fazendo isso por causa da dívida que contraiu de meu pai que vale praticamente a sua casa. Como eu sou a herdeira e dona de tudo o que pertenceu a meu pai, posso cobrar essa dívida a qualquer momento.”

“Bom, sim, claro, mas não é necessário...”

“Liza!”
– Ela exclama, ignorando abertamente o protesto do homem desconhecido. Ela se dirige a mim num belo e longo vestido preto, de duas modestas fendas, e alças. Bonita, mas bem diferente da Sidney convencional.

“Fico feliz que tenham chegado.” – Ela continua, incluindo Will com o termo no plural e um olhar amigável em sua direção. – “Espero que tenha sido bem recebida.”

“Fui.” – É a única resposta que solto.

“Ótimo.”

Seu olhar para no tal Ozsan, e ele pigarreia.

“Bom, é...” – Ele hesita. – “Bem-vinda, senhora. Eu sou Ravi Ozsan e é um prazer recebê-la. Recebê-los, quero dizer.”

“Bom, ele é um velho amigo de meu pai e cedeu prontamente sua casa para sua vinda.”
  – Sidney diz, ainda olhando para ele. Há algo de divertido na nota de sarcasmo em sua voz.

Então, como se sentisse o dever de se dirigir individualmente a Will, ela assume uma expressão mais séria e foca seu olhar nele.

“Fico feliz que tenha vindo, Will.” – Murmura. – “Faço questão de que seja bem servido enquanto estiver aqui dentro.”

Há uma espécie de mensagem nessa simples frase.
Nas entrelinhas, Sidney está dizendo que ele faz parte disso. Depois de tudo, ele agora faz parte dos Vaccari.
Depois de sacrificar sua cabeça, ele tem sua confiança com o grupo estabelecida.

“Bom, sei que acabou de chegar, mas precisamos conversar.”
– Ela diz para mim, quebrando o instante.
“Ozsan, emprestaria seu escritório para nós, não é?”

“É, eu não sei se...”

“Obrigada, querido.” – Ela interrompe, já me guiando para o escritório. – “Sempre tão gentil.”

Eu não tenho tempo de enxergar seu rosto contrariado.
Minha mente se enche de imagens da última vez que vi Sidney quando a porta atrás de nós é fechada.
Ela era o oposto do que se mostra agora, mas no fundo as diferenças entre esta mulher segura e a mulher abatida no velório de James não são tão grandes assim.
Ela se recuperou, é claro. Ergueu-se e empurrou a dor para um canto escuro e afastado de si mesma, onde várias outras lembranças ruins estão guardadas. Lembranças envolvendo sua vida quando ela ainda era “Ali”.

“Como está se sentindo?”
– Ela pergunta, ainda de pé na porta.

“Confusa.” – Confesso. – “Ainda não consegui processar tudo.”

Sidney concorda com um movimento na cabeça.

“Não se parece com a Sidney convencional.” – Comento, acenando para suas roupas.

“Não estou num lugar convencional.” – Responde.

Solto um fraco riso.

“Não vou demorar muito aqui, suponho.”  – Murmuro.

“Pode ter toda essa casa megalomaníaca pra você se quiser,” – Encolhe os ombros. – “mas não é bom que fique por muito tempo. Não confio em Ozsan, e esse lugar tem visibilidade excessiva.”

Concordo com a cabeça.
Então a pergunta que me acompanha até em sonhos é feita por mim...

“Como está Jennifer?”

“Bem.” – Responde. – “Continua no bunker, sã e salva.”

“Seria muito ruim vê-la?”

“Seria péssimo.”
– Sidney declara.
“Chamaria a atenção para você e para ela. Não, deve continuar em Nova Delhi até quando não puder mais permanecer aqui. Pode confiar, Liza, ela está segura.”

“Não é de sua segurança que me preocupo.”
– Solto.
“Sei que está segura. Aquele bunker está guarnecido dia e noite e aquela porta tem entrada restrita. Mas ela está sozinha. Sozinha naquele lugar faz quase dois meses, só na presença de capangas, sem ter companhia... Ela pode estar segura, Sidney, mas não está bem.”

“Por que não escreve pra ela?”

A pergunta me toma de surpresa.
Nunca escrevi cartas, nem sequer na infância. Nunca tive uma razão ou jeito para isso.

“Não vou ficar muito tempo na Índia.” – Sidney continua, sentando-se na poltrona ao meu lado. – “Vou viajar ainda hoje e eu posso entregar pessoalmente sua carta, se quiser escrevê-la. Tem todo o resto da manhã para fazer isso.”

A ideia de Sidney, entre todos os outros, entregando pessoalmente a carta de Jennifer me é reconfortante.
Depois de James, ela é a única pessoa a quem Jennifer conhecia e gostava.

“Jen gosta de você.”
– A frase escapa, num sorriso de alívio. Sidney sorri de volta.

“Eu também gosto dela.”

Calado através da dívida e da consciência de que está lidando com líderes Hansson e Vaccari, Ravi Ozsan nos observa sair de sua mansão, quieto e impotente, minutos depois.
A casa para onde somos levados por Sidney é bem mais modesta e afastada do centro da cidade, uma casa simples de dois andares numa rua pavimentada, residencial, muito parecida com pequenas avenidas de São Paulo, ou Rio, ou Salvador.
Há uma sacada no primeiro andar, e a pintura branca descasca no canto das paredes.
O carro usado por Sidney já não é luxuoso como o último, e nossas roupas são mais modestas.
Lanço um último olhar sobre a rua pouco movimentada, antes de abrir a porta.
Esta é minha atual realidade agora.