Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

27 de ago de 2016

Sentença (fúria season 3) - Capítulo 55

LIZA
O ruído de vozes e passos zunem nos meus ouvidos como numa nevoa, distante e confusa.
Não sei em qual estágio do sono ou “quase-sono” estou ou o quanto ele afeta meus sentidos, mas consigo ouvir nitidamente quando a porta da minha cela é aberta. Eu estou deitada na áspera e rígida cama da cabine, e não há nada além do breu que envolve o local quando abro meus olhos.
Entretanto, consigo sentir nitidamente quando uma mão quente pousa suavemente em meu braço.



“Liza” – Uma voz sussurra meu nome com afeição e urgência.

É a voz de Will.
Volto-me para a direção do som num sobressalto.

“Temos que ir.”
– Ele acrescenta.

Pisco várias vezes na intenção de enxergar seu rosto, mas só consigo ouvir sua voz. Meus sentidos se apuram aos poucos, e de repente a névoa barulhenta se transforma num som claro, muito próximo, como se várias vozes e passos se misturassem numa multidão.

“O que está acontecendo?” – Pergunto.

Essa não é a única pergunta que pretendo fazer, mas é a única que consegue escapar pelos meus lábios.

“Não faça perguntas.” – Ele diz. – “Só me siga.”

Então sua mão se entrelaça à minha e ele me impulsiona para frente, para a saída da cela.
Toda essa breve conversa me parece um sonho, mas quando saio de minha cabine e lanço o primeiro olhar para trás, a correria e frenesi das detentas é uma visão tão real que destrói minhas dúvidas.
Todas as celas do corredor estão abertas, e as detentas correm com seus uniformes numa única direção, oposta à direção por onde Will me guia, esbarrando-se umas às outras e, por vezes, rindo de sua própria histeria.
Eu estou correndo, tentando acompanhar o ritmo de Will, que me puxa com urgência para longe da multidão. Ele está vestido com o uniforme de um dos guardas do presídio, armado, com um boné preto que esconde parte de seu rosto. Nós descemos uma pequena escadaria às pressas, e uma das portas de saída começam a se erguer em nossa direção.
A escadaria dá acesso ao corredor do terreo, igualmente repleto de detentas que esbarram violentamente seus braços e ombros em mim. Eu cambaleio, confusa, olhando para todas as direções e tentando entender para onde estou indo.

“Por que estamos correndo na direção oposta?” – Lanço para ele, mas minha voz se perde no barulho externo.

Minha voz, e meu grito que ressona logo em seguida.
Algo como uma agulha mergulha na pele do meu pescoço por dois segundos, e eu olho para trás, encontrando uma das detentas com uma seringa, afastando-se a passos largos. A dor aguda se esvai tão rapidamente como veio, mas minha visão embota repentinamente, e sinto como se meu sangue se tornasse água.
Will agarra minha cintura antes que eu caia.
De repente, eu já sou incapaz de firmar meus pés no chão, e Will me arrasta, quase me carregando, em direção à saída.

O vento frio atinge meu rosto, e a mudança de temperatura é meu único sinal de que estou fora.
Eu já estou no colo de Will quando ele corre em direção a algum lugar.
A porta de um carro é aberta, e minhas pálpebras pesam, como se o sono de minutos atrás exigisse retorno. Will me pousa com cuidado nos bancos de trás, e a maciez do assento é a última coisa que consigo sentir quando a realidade a minha volta desaparece.
Não há mais nada em seguida.

WILL
Observo um dos médicos examinar Liza, desacordada, numa das cabines do avião.
Tudo estava perfeitamente bem até aquela detenta. No meio da correria, só pude ouvir seu grito abafado quando a desconhecida pressionou a seringa em seu pescoço, num movimento tão rápido e certeiro que não pude evitar que acontecesse.
Desde o início da consulta, o médico não disse absolutamente nada sobre seu estado de saúde. Faz cerca de meia hora desde que decolamos da pista de pouso.

“Ela vai sobreviver.” – Ele diz, finalmente. – “A quantidade de veneno introduzida em sua corrente sanguínea é pequena demais para que cause a morte. Provavelmente a quantidade na seringa era maior, mas o agressor não teve tempo de enjetar tudo. O máximo que pode acontecer são vômitos quando ela acordar.”

“E quando ela vai acordar?” – Pergunto, apreensivo.

“Dentro de algumas horas.” – Responde. – “De qualquer forma, injetei um antídoto que vai minimizar os impactos do veneno no corpo. Ela vai ficar bem. Se ela vomitar mais de uma vez, deixo-a no soro.”

Observo o céu pela janela do avião, imaginando o alvoroço que se seguirá quando a notícia da fuga chegar até o departamento. Eu acabo de jogar minha carreira no lixo, serei procurado pela polícia – se é que já não estou – e perderei o distintivo.
Entretanto, permitir que Liza fosse morta no presídio, sabendo que eu poderia fazer algo para impedir, seria a morte. A culpa me corroeria dia e noite.

Por sorte, os hackers de Sidney conseguiram invadir os computadores do presídio, controlar o software e mudar os comandos. Foi um negócio caro e apressado, e uma onda de alívio me toma toda vez que noto, como se fosse a primeira vez, que o risco foi deixado para trás.
Liza já foi retirada da prisão, já está fora da Itália e a manutenção de sua vida está garantida ao menos pelas próximas semanas. É o suficiente, por hora.

“O avião fará uma parada em Dubai, onde vamos despachar o médico.”
  – O piloto me diz, assim que sai da cabine de comando.
“Depois vai seguir pra Nova Delhi, onde vocês vão ficar. A casa vai ter um celular e armas; esse vai ser o único celular que vão poder usar.”

Segundo conversas, seu nome é Luigi e ele é alguma espécie de “motorista aéreo” de confiança dos Vaccari. Suas atividades e movimentações com a máfia são muito discretas, portanto seu nome geralmente passa longe das investigações contra o grupo.
O ceticismo quanto a mim diminuiu consideravelmente depois da fuga. Tecnicamente, eu cumpri com o plano sem muitos imprevistos, e sujei minhas mãos para ajudar a Liza.
Ainda assim, o clima entre mim e os Vaccari está longe de ser amigável.

   Apesar dos laços cortados com a polícia e a investigação, eu não deixo de reparar em como as coisas funcionam aqui dentro. A rapidez com a qual conseguiram um bom e caro jato, a facilidade com que transitam em zonas aereas de diferentes países, com uma pista de pouso a sua disposição não somente na Itália, mas também em Dubai e Nova Delhi, me faz ter uma ideia muito mais nítida e realista do poder e influência da máfia.
Os Vaccari não serão destruídos com a prisão – ou a morte, de Liza ou César.
Por mais que soe óbvio, a consciência do fato só me atinge verdadeiramente agora.

As imagens da noite anterior retornam à minha mente.
O guarda asfixiado. Eu, vestindo suas roupas e caminhando até o presídio.
A rua estava silenciosa e eu ouvia nitidamente o som dos meus batimentos, zunindo nos meus ouvidos como baques ocos e ritimados. A alguns metros de mim, a entrada do presídio estava vazia durante o breve período da troca. A essa altura, os vigias das torres já haviam sido derrubados, mas eu não me atrevia a olhar para cima e conferir. Meu olhar estava firme, no prédio que se estendia a minha frente, e meus passos apressados moviam-se para o portão de entrada.
O primeiro suspiro de alívio ocorreu quando eu já estava dentro do presídio.
Aqui, as torres e o universo exterior não podiam interferir, mas sempre havia o risco de cruzar com funcionários internos. Meus passos permaneceram firmes no corredor e eu evitei as câmeras. Eu estava vestido de guarda; capturar meu rosto era a única coisa com o que me preocupar.
Alarmes desativados, a voz clara e neutra de Sidney me informa pelo fone.
Segundo suspiro aliviado.
Conseguir desativar os alarmes era sinal de que o controle do software já estava em suas mãos.
Os corredores estavam desertos, mas era impossível me livrar da sensação de olhos invisíveis me vigiando. Havia câmeras em todos os cantos. Além do risco com o meu rosto, eu tinha que me comportar como um guarda qualquer se comportaria.
Primeiro bloco – térreo.
O corredor está repleto de portas de ferro maciço, controladas por trancas eletrônicas que abrem e fecham cerca de 6 celas solitárias, em cada lado. Um vão no teto coberto por grades metálicas me dá uma visão do andar de cima.
Liza está no segundo bloco. Cela 19.
Entretanto, não há mais o que esperar.

“Abram as celas.” – Sussurro no minúsculo microfone preso à gola da camisa.
   
O clarão proveniente das janelas do avião puxa minha atenção de volta à realidade presente.
Eu não tenho noção de quanto tempo estive sentado, ou se dormi durante o período de inércia.
Olho para o relógio: 05h59.
Não vai demorar muito tempo para pousar.

“Will?”

A voz confusa e hesitante de Liza soa, de repente, na cabine.