Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

22 de ago de 2016

Sentença (fúria season 3) - Capítulo 54

WILL
Observo Sidney abrir um grosso cadeado envolvo em pesadas correntes de ferro.
O que se ergue a minha frente é um enorme portão de metal, que provavelmente dá acesso a uma garagem ou um galpão. A pintura em tinta a óleo, preta, está desbotada em vários pontos, e este é um local que facilmente passa despercebido.
Após remover ruidosamente o punhado de correntes, suas mãos empurram o portão para o lado direito. Em seu interior, sucata e pouca iluminação é o que se revela para mim.
Nós caminhamos pelo chão de terra quando ela volta a fechar os portões, e durante o curto percurso eu preciso me desviar de barras enferrujadas e entulho espalhado no chão. No fundo, um buraco no teto permite que alguns raios de luz natural iluminem o espaço, enquanto não há nenhuma lâmpada ligada.
Nenhuma lâmpada ligada e nenhum sinal de companhia.

É um lugar abandonado, aos pedaços, e um corpo poderia ser escondido aqui facilmente.
Um vago temor começa, aos poucos, a tomar conta de mim.

“Não acredito que você trouxe um traidor até aqui.”
 – Uma voz áspera e masculina soa no espaço repentinamente. Em meio a penumbra, um vulto se move e caminha em minha direção.

Segundos depois, descubro que se trata de um deles.
Trata-se de um homem alto, robusto, com uma imensa cicatriz no rosto e um aspecto de poucos amigos.
Ainda pior do que sua figura, é o som de várias armas sendo destravadas atrás de mim.

“E eu não acredito que está questionando minhas ações, Er.”
– Sidney rebate, devolvendo a acidez.
“Abaixem as armas.”

“E se ele contar tudo depois?”

“Ele não vai.” – Ela afirma, resoluta. – “O assunto é do interesse dele.”

“Vamos lá, Sidney....” – Ele continua. – “Me deixe ensinar umas lições a ele.”

Ela caminha em sua direção com o queixo erguido.
Eu não ouso mover-me um único centímetro de onde estou.

“Se continuar questionando minhas ordens, quem vai levar uma lição aqui é você.” – Sibila.

E por incrível que pareça, esse homem, dois palmos maior que ela, recua.
Ela lança um olhar duro para trás e eu ouço o barulho suave de armas sendo abaixadas de uma vez só.
Sidney Basner deve ser um nome realmente respeitado dentro do “clã”.

“Então....”
 – Ela começa, assim que se certifica de que todos obedeceram ao seu comando.
“Will me pediu para trazê-lo até aqui. Ele tem algo a nos dizer.”

“O policialzinho agora quer nos dar ordens....” – Uma voz atrás de mim sussurra, e antes que as risadas começem, Sidney lança outro olhar carregado em sua direção.

O local volta a se silenciar.

“O resgate da Liza vai acontecer logo depois da meia-noite.”
   – Começo.
“Eu vou precisar de um carro... E um avião.”

O som das vozes protestando chegam aos meus ouvidos no instante seguinte.
Dessa vez, eu não espero pela repreensão de Sidney.

“Querem resgatar a Liza ou não?!” – Lanço, minha voz suficientemente alta para sobrepor as outras.

“Não precisamos de você, cop.”
 – Er, o homem a quem Sidney intimidou há minutos atrás, dispara, ácido.

“Sim, precisam.” – Rebato, olhando fixamente para seus olhos. – “Sua necessidade é a única coisa que te impede de atirar em mim.”

O som das vozes cessam, então.
Er tenta encontrar argumentos para me rebater, mas não há como. A única coisa que pode demonstrar que estou errado é uma bala no meu peito. E isso não vai acontecer.
Ele olha para Sidney, apreensivo, mas ela permanece calada. Seu olhar é de advertência.

“O avião irá levar a mim e a Liza até um esconderijo, fora do país.” – Murmuro. – “O carro deve estar estacionado a poucos metros da saída do presídio, e eu vou precisar de um hacker.”

“Posso levá-los para a Índia, tenho contatos lá.” – Sidney diz. – “Por que um hacker?”

“Todo o sistema de segurança do presídio é controlado por computadores.” – Começo. – “Tirando os portões de entrada e saída, todas as celas e alarmes são controlados por um software. Se invadirem os computadores do presídio, terá acesso às trancas de todas as celas e o alarme.”

“Certo. Qual é o plano?”

“Há uma troca de guardas na entrada do presídio às 0hrs.” – Digo. – “Vou me vestir de um dos guardas, terei acesso às chaves do portão de entrada e saída, entrarei no presídio e darei a ordem. Quero 3 snapers em prédios próximos às três torres de vigia. Haverá um intervalo de 5 minutos entre a troca de guardas; nesse intervalo, os policiais das torres de vigia devem ser mortos.”

Não há mais um único som. Acabo que capturar a atenção absoluta do grupo.

“Ainda durante a troca de guardas, os alarmes devem ser desativados.”
– Continuo.
“Vou me enfiltrar entre os novos guardas e entrarei no presídio. Lá dentro, vou dar a ordem. Quando eu der, todas as celas devem ser destrancadas. Todas. Isso é tudo o que precisam fazer.”

“E se não conseguirmos ter acesso ao software?” – Sidney pergunta.

“Vocês precisam.”
– Respondo.
“Se isso não acontecer, Liza estará morta na manhã seguinte.”

DIANA
“Jennifer Vaccari é o verdadeiro enigma.”
   – Mumuro para Saxe, ao entrar na sala.

Ela não demonstra a mínima reação, sentada numa das cadeiras, analisando folhas presas a uma pasta cinza. Quando olho de soslaio para o conteúdo dos papéis, a única coisa que consigo enxergar com nitidez são gráficos.
Seus olhos estão fixos, e ela está completamente absorta.

“Madalina?” – Chamo. Ela demora pouco mais que o normal para olhar para mim.

“Não há bombas.” – Ela diz. – “Não existe bomba alguma nas mansões Vaccari. Pelo menos é isso que diz o relatório.”

“Esse é resultado final do exame?”

“Sim.”
– Responde.
“O exame não encontrou nenhum vestígio de qualquer tipo de metal que faça parte da composição de uma bomba de fissão ou fusão nuclear, nem sequer da capsula dela. Eu estou lendo isso há horas e não consigo entender... Por que todo esse alvoroço por algo que nem existe?”

“Talvez exista em algum outro lugar...”

“Então por que Jennifer Vaccari deu uma informação falsa a própria filha? Por que ela criou tudo isso? Por que ela deu indícios no diário e na carta do cofre de que sabia, ou ao menos revelaria a localização da bomba?”

“Esse é o ponto, Saxe.”
 – Digo, puxando uma cadeira atrás de mim.
“Eu conversei com César e o vi reagir de uma forma que nunca tinha visto antes quando o assunto era a Jennifer. Ela é como um pesadelo para ele, e eu desconfio que parte disso seja pelo fato de que ela era imprevisível. Não sabemos nada sobre essa mulher e suas motivações, e pelo visto o César também não. Ela é o enigma. Descobri-la é a única forma de achar respostas.”

“Ela era uma terrorista, ao que tudo indica.”

“Não era.” – Rebato. – “Segundo César, ela nunca aderiu a ideologia e só aceitou participar disso porque lhe era conveniente. A questão é: conveniente para que? O que ela queria se casando com Anthony e escrevendo esse diário? Qual era seu objetivo?”

Saxe deixa escapar um suspiro cansado.
Ela apoia as costas na cadeira e esfrega o rosto com as duas mãos. Eu observo, pacientemente, até que seu instante de silêncio cesse.

“Essa operação vai ser mais perigosa do que eu imaginava.”
  – Diz.
“Vamos desenterrar Noah Shrader. É a única pessoa que temos.”

“Noah Shrader não está morto?”

“Ninguém tem certeza disso. Ele está desaparecido há anos.”
 – Ela murmura.

Seu olhar transparece o cansaço, a preocupação e a incerteza que nos aguarda pelas próximas semanas. Então a expressão de seu rosto, abstrata e volúvel, se transforma, gradativamente, numa frase...

“Vamos ter que caçar um fantasma.”