Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

13 de jul de 2016

Sentença (fúria season 3) - Capítulo 50

WILL
Eu assisto, da galeria externa, ao segundo interrogatório da Liza.
Nenhum policial próximo a mim ou a ela foi escolhido para escoltá-la e interrogá-la, o que coloca todo esse processo num clima extremamente formal. Sinto os olhares cortantes na minha direção enquanto cruzo os braços, de pé, ouvindo a enxurrada de perguntas e ignorando o fato de que minha presença não é bem-vinda aqui.

Desde que ela foi presa, meus serviços foram descartados e eu passei a ser visto por mais da metade do departamento como uma ameaça a continuidade da investigação. Eu não os culpo, entretanto. Talvez eu seja isso mesmo.

“Como descobriu sobre o tal ‘’enigma’’?”
– O interrogador solta. Arqueio uma sobrancelha à ironia captada em sua voz.

“Minha mãe.” – Ela responde, sua voz livre de qualquer emoção. – “Havia pistas em seu diário que levaram até as palavras-chave.”

“Até onde eu sei, se tratavam de palavras desconexas, não muito explicativas.” – Diz. – “Como conseguiu descobrir do que se tratava?”

Ela hesita alguns segundos antes de responder.
Eu estava tentando descobrir se havia algum tipo de plano formado. Minha visita a ela, apesar de não haver sanado minhas dúvidas, foi válida, de alguma forma. Eu pretendia arrancar algo, nem que fosse apenas uma expressão facial que me dissesse que há um plano em curso. Ela me soou perdida, quase conformada; agora, assistindo a forma como se comporta no interrogatório, tenho uma certeza maior de que as ideias não estão muito claras em sua cabeça.
Ela está revelando o enigma para a polícia para proteger as pessoas do César. Não posso negar que desviar o foco da Jennifer e de seu sequestro também faz parte de sua motivação.
Ela não está sendo a Liza Vaccari, líder de uma mafia, e a constatação disso é um alívio para mim.
Nesse interrogatório, em especial, ela está sendo apenas... Liza.
Sem sobrenome, passado, crimes, interesses sórdidos.

“Eu não sei bem....” – Ela murmura. – “Só... Quero dizer, só surgiram imagens na minha mente, eu não sei explicar. Só sei que eu li aquilo e de repente, eu sabia.”

É a vez do interrogador arquear sua sobrancelha.
A notícia do enigma foi recebida com preocupação e ceticismo por parte de muitas pessoas. Ninguém sabe muito bem como reagir quando alguém diz que existem bombas de hidrogênio escondidas. É surreal, um empreendimento caro, praticamente impossível, mas apesar disso, não se pode dar as costas e simplesmente descartar a possibilidade. Até que se prove o contrário, sempre há a chance de que essas bombas realmente existam.
E se elas existirem, não podem ficar um segundo nas mãos do César.

“Como acha que sua mãe sabia disso?”

“Não faço ideia.” – Responde, e eu sinto a pura e genuína sinceridade em sua voz.

“Não faz ideia de muitas coisas, Vaccari.” – Ralha.

“E mesmo assim insistem em me interrogar.”

“Vamos falar de sua filha.” – Ele declara. Contenho o impulso de expirar forte e audível. – “Onde ela está?”

Ela se cala.
Seu olhar permanece fixo no rosto do policial, altivo.
Ele aguarda por alguns segundos antes de dizer?

“Não vai responder minha pergunta?”

“Tenho direito a isso.”

Ele solta um riso nervoso e impaciente.

“Senhora Vaccari” – Ele sibila, inclinando-se na mesa. – “Não sei se ainda notou, mas as coisas não estão indo bem para você. Sugiro que comece a colaborar antes que sua situação piore ainda mais.”

“Já colaborei o suficiente informando sobre o enigma.”

“Um enigma que nem sabemos se é de fato real...” – Rosna.

“Ninguém viu essas bombas, exceto pela minha mãe, talvez.”
– Ela declara, levantando nitidamente a voz.
“Ninguém sabe se elas realmente existem ou não, mas conhecer a possibilidade já é um bom começo.”

“Liza Vaccari, vou perguntar pela última vez...”
– Sibila.
“Onde está Jennifer Richmond?”

Ouvir meu último nome libera uma descarga de adrenalina em meu corpo.
É como se eu estivesse oculto, ignorável no meio de tudo isso, e o meu simples sobrenome me retirasse da penumbra.
Os olhares hostis na sala pinicam como agulhas na minha pele.

Ele aguarda, irritado, insatisfeito e impotente enquanto Liza cruza os braços e se cala.
Se passa segundos de silêncio absoluto até que ele não suporte e quebre a bolha...

“Vai se arrepender por isso.” – Sussurra.

Essa é sua última frase antes de sair a passos largos da sala.

DIANA
Ainda estou fechando a mensagem no meu celular quando entro no departamento.
O barulho das vozes é tão familiar que nem sequer levanto a cabeça para examinar o ambiente. Meus pés movem-se rapidamente até a sala indicada por Craven no SMS quase que recém-enviado.
Quando abro a porta, tamanho o meu espanto, é encontrar Madalina Saxe sentada no canto da mesa tingida de branco, analisando um monte de papeis com o cenho franzido.
Há um pacote aberto de balinhas jogado em meio a papelada e ela gira uma delas na boca. Seu olhar não demora a me encontrar.

“Que bom que está aqui.”
– Diz, como que aliviada.
“Eu estava precisando de você nesse momento. Joguei os membros da família de Liza Vaccari, mãe, pai, irmã, avós, enfim... Há muitas fichas a se analisar. Quando você acha que acabou, surge mais um dado a ser examinado.”

“Do que está falando?”
– Pergunto. Ela me encara, imóvel, e pestaneja como se não acreditasse no que ouviu.
“Craven me mandou uma mensagem me mandando vir a esta sala, eu pensei que ele estaria aqui.”

É uma sala abafada e desagradável, com uma mesa desproporcionalmente grande e armários de ferro empoeirados.
Como quase tudo aqui, o piso, anteriormente branco, tornou-se de um cinza encardido e há teias de aranha nos cantos das paredes. Há um notebook aberto em cima da mesa, provavelmente pertencente a Saxe.
E eu nem sequer sabia que ela estava de volta a Itália.

“Craven não te contou?”
 – Saxe solta.
“Está comigo numa nova investigação. Liza Vaccari revelou que tem bombas nucleares escondidas em mansões Vaccari, e agora temos que descobrir se isso é mesmo verdade.”

“O quê?!”

“Isso mesmo, querida.”
  – Murmura, voltando-se para sua cadeira, na cabeceira da mesa. Então ela lança um olhar depreciativo na minha direção, como quem assiste a alguém prestes a perder sua vida social, e afirma...
“Se eu fosse você, compraria um café forte para as próximas horas.”