Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

26 de jul de 2016

Sentença (fúria season 3) - Capítulo 53

WILL
Meus pés batem violentamente contra o chão, numa série de sincronizados baques.
São quase 5 da manhã e está amanhecendo, e eu aproveito o momento de temporária paz para correr. Eu presto muita atenção em meus passos, em sequências cada vez mais rápidas, ouvindo o som dos meus tênis se chocando contra o solo, em intervalos perfeitos.
Fecho os olhos por um segundo, e sinto o vento frio chicotear meu rosto.
Um pé após o outro.
Em absoluta sincronia. Estável.



Faz dias desde a audiência de César Vaccari e vários outros em que as mansões Vaccari são inspecionadas atrás das bombas. A investigação ainda está sob controle, Liza ainda está presa e a Jennifer ainda está escondida.
A atividade saudável e calculada de correr me faz sonhar com a estabilidade. Como se tudo a minha volta estivesse no lugar onde sempre esteve. Como se ao voltar para casa, eu encontraria Liza e Jennifer para o café da manhã.
Mas ao invés do bonito sonho que se forma na minha mente a cada metro percorrido, quando eu voltar para casa, daqui a 1 hora, encontrarei minha pistola pronta para ser posta no coldre.
A via por onde corro está vazia e silenciosa, como se a cidade ainda não houvesse acordado.
Sinto o suor escorrer por meu tronco e paro minutos depois, conferindo o horário na tela do celular.
5:15.
Ainda há um bom tempo.

“Will?”
– Uma voz assustadoramente familiar soa atrás de mim. Me viro num sobressalto, encontrando os olhos castanhos de Sidney Basner.

Só então noto onde estou.
Este é um corredor adjacente à via principal, cercado por paredes de edifícios e estabelecimentos. As muralhas de concreto bloqueiam um pouco da luminosidade e é um local geralmente deserto.
Ela está exatamente como da última vez que a vi. Roupa escura, cabelos curtos.
O olhar atento, sob alerta.

“O que faz aqui?” – Solto, na defensiva.

“Precisamos conversar.” – Ela diz.

“Conversar sobre o que?”

“Sobre a Liza.”

“Não tenho nada a conversar sobre ela, ou sobre qualquer outra pessoa com você.”
   – Murmuro, pronto para encerrar aquele encontro.

“Eu não estaria aqui se não fosse importante.” – Seu tom aumenta de volume. – “Se tem alguma consideração por ela, vai querer saber o que tenho a dizer.”

Deixo escapar um suspiro cansado.
Passo o olhar ao redor do corredor em busca de sinais de companhia, mas aparentemente estamos sozinhos. É como se ela própria houvesse brotado do solo, sem aviso.
Ela me observa por segundos, quieta, até ter certeza de que estou disposto a ouvi-la.

“César vai tentar matá-la.”
– Ela afirma, capturando, por fim, minha completa atenção.
“E será hoje, durante a madrugada. Alguém dentro do presídio terá acesso a sua cela e matará a Liza com uma seringa de veneno. A menos que ela não esteja na prisão, vai ser impossível impedir que isso aconteça.”

“Como sabe disso?”

“Não importa.” – Murmura, descartando minhas palavras com um gesto. – “O que interessa é o fato de que a Liza precisa ser tirada da prisão ainda essa noite, e eu não posso fazer isso sem você.”

Durante todos esses anos, eu me mantive longe de qualquer ligação com a máfia.
Sabiam quem eu era e o que eu representava, mas eu não me envolvia em seus assuntos, e eles não se envolviam nos meus. Era uma relação delicada, porém, pacífica, até a investigação.
Eu sou um traidor, um inimigo para a máfia, mas aqui está Sidney Basner pedindo minha ajuda.
Ou tudo isso é uma armadilha, ou Liza corre mesmo o risco de ser morta.
E no momento, eu não posso pagar para ver.

“Sei que tem um grupo te esperando em algum lugar dessa cidade.”
  – Respondo, finalmente.
“Quero que me leve até ele.”

MADALINA
Bato a porta do carro, ainda bocejando.
É um dia frio, mas ensolarado, e eu acabo de chegar ao departamento ainda mais cansada do que ontem, apesar das horas de sono.
Um relatório detalhado sobre Noah Shrader e seus últimos passos até o desaparecimento foi enviado pela sede da Interpol na tarde de ontem. Todos os esforços da força tarefa estão direcionados em desvendar este caso o mais rápido possível, antes que apareçam maiores consequências. Minha vida passou a resumir-se a essa investigação. Não há nem o que contar quando meus amigos me ligam para saber como estou.

“Agente Saxe!”

Uma voz ecoa na minha direção assim que piso o meio fio. Olho para o lado esquerdo e um homem de camisa, blazer e jeans surrado caminha a passos rápidos na minha direção.
Afasto os óculos escuros para coçar os olhos inchados pela noite mal dormida.

“Agente Saxe, que bom que te encontrei aqui.” – Ele diz, meio ofegante, assim que se aproxima. – “Eu sou Daniel Gothe, da equipe que examinou as mansões Vaccari.”

“Claro.” – Murmuro. – “Prazer, Daniel. Presumo que há novidades sobre o exame.”

“Sim, o relatório está pronto.”
– Ele solta, me estendendo uma pasta cinza.
“Todas as mansões, inclusive as que pertencem a César Vaccari foram examinadas. Cada uma das inspeções estão detalhadas no relatório, mas eu devo adiantar que os resultados não são muito satisfatórios, a depender do ponto de vista.”

“Como assim?”

“Não foi encontrado nenhum vestígio de plutônio, urânio ou lítio, materiais que compõem a cápsula de uma bomba de hidrogênio.” – Afirma. – “Aliás, nem sequer outros metais pesados foram detectados em todo o terreno dessas mansões.”

“Então quer dizer que não existe bomba nenhuma?”

“Não posso dizer exatamente isso.” – Diz. – “Há uma investigação em curso e ela deve continuar mesmo com esses resultados. Não há bombas nas fundações dessas mansões, mas isso não exclui a possibilidade de que haja em outro lugar. Os Vaccari possuem outros patrimônios além dessas mansões, certo?”

“Certo.”
– Murmuro.

“Bom, de qualquer forma, espero que isso seja útil para o inquérito.”

“Com certeza será, Daniel.” – Digo. – “Muito obrigada.”

Ele move a cabeça num gesto de afirmação e se afasta, caminhando pela mesma direção de onde veio.
Olho para o relatório.
É uma pasta de um cinza escuro, sem graça, e não há nada escrito em sua frente. As chances de que essas bombas realmente existam acabam de se resumir a quase zero.
Entretanto, isso não responde sequer a menor das perguntas.