Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

26 de jul de 2016

Sentença (fúria season 3) - Capítulo 52

LIZA
Eu estou algemada, sentada numa cadeira fria de metal, aguardando por alguém numa sala vazia e escura.
O carcereiro apareceu na minha cela, minutos antes, me dizendo que eu seria visitada por um advogado. Não foram ditos nomes, nem quem o contratou, e eu fui arrastada até aqui, onde permaneço sozinha por vários minutos.
Desde a prisão, eu mergulhei num estado de inércia quase absoluta. Eu sou arrastada para banhos de sol e interrogatórios sem dizer uma palavra, e quando sou jogada de volta a minha cela, apenas mergulho em longas horas de sono. Não tenho contato com ninguém além dos policiais que me interrogam, os policiais que me escoltam e o carcereiro, e não me interesso em aumentar essa lista.
Quanto menos contato com outras pessoas eu tiver, melhor.
Na verdade, eu estaria bem feliz em permanecer pelos próximos meses sem acordar por uma hora sequer.



A porta da sala se abre.
Um homem dois palmos mais alto que eu, vestido num fino terno, penteado e barbeado caminha na minha direção. Devido à luz fraca, não consigo ver seu rosto com nitidez.
Noto seu andar, entretanto. Tranquilo e seguro, como se estivesse em casa. Familiar também.
Ele abre um dos botões do terno e se senta na cadeira a minha frente, mais próximo da luminária acesa.
A luz fraca então foca em seu rosto, e eu tento conter o sobressalto.
O homem que sorri para mim, satisfeito e confiante, é Nico.

“Olá, Liza.”
– Ele murmura, sua voz carregada de escárnio.

“Nicolas?!” – Deixo escapar, me esforçando para manter a voz baixa. – “O que faz aqui?! Como conseguiu entrar?!”

“Um diploma e uma boa aparência te abre portas, minha querida.”
  – Murmura.
“Não poderia deixar de oferecer meus serviços a um Vaccari, quando necessita.”

“Até onde sei, nenhum de vocês foi visitar o César.”
  – Digo, num tom de falso aborrecimento. Ele torce a boca.

“Aquele bastardo nunca foi um Vaccari de verdade.” – Solta. – “Trouxe um presentinho pra você.”

Ele me estende uma caneta simples.
Uma falsa caneta, na verdade. Ao invés de um pino cheio de tinta, a ponta da caneta esconde uma lâmina afiada.

“Sei que só vai usar se for necessário.” – Diz.

“Como estão as coisas lá fora?”

“Todos estão escondidos, como você deixou.” – Responde. – “O bunker da Jennifer continua sendo guarnecido e a polícia está ocupada demais revirando as mansões Vaccari para ir atrás de qualquer um de nós.”

“Ótimo.” – Murmuro.

Ele me mede por alguns instantes, calado.
Nicolas é o líder de um dos grupos que foram formados com a divisão. Provavelmente o grupo que ainda está na Itália.
Ele é vários anos mais novo que eu, bonito e cheio de energia, mas incrivelmente parecido com o César em alguns pontos. Olhar para seus olhos e cabelos escuros me faz lembrar o Alex.
Desvio o olhar com a lembrança.

“Por que revelou o enigma?” – Ele pergunta, finalmente. O humor desaparece completamente de sua voz.

“Para despistar a polícia.” – Murmuro. Minha voz sai ridiculamente robótica.
“O real motivo, Liza.”

“Tenho medo do que o César fará se achar as bombas.” – Admito.

“E o que você acha que ele fará?” – Pergunta.

Sua voz é suave, mas firme e sincera.
Nicolas acredita que eu sei muito mais sobre o César do que me dou conta, e eu concordo em alguns momentos, em outros, me mantenho em dúvida.
Por alguma razão, eu sinto que o César não quer negociar as bombas em troca de poder.

“Ele vai detoná-las.”
 – Confesso.
“Mesmo que isso lhe custe sua própria vida.”

DIANA
Dois policais me escoltam até a sala onde César aguarda, algemado, pela minha visita.
Este é um pavilhão separado da prisão propriamente dita, mas dentro das delimitações do presídio. Não há celas por aqui, mas o edifício é tão bem guarnecido quanto o resto.
Miranda cancelou sua viagem a Alemanha ontem, e ao invés de desembarcar em Munique, ela desembarcou em Roma, onde está prestes a entrar em algum tipo de reunião diplomática. A notícia do pedido de extradição de César Vaccari já chegou às autoridades brasileiras, e o processo se iniciou faz alguns dias.
O ar sai em fortes rajadas do meu nariz, enquanto meus pés avançam em direção a sala.
Me foi concedida uma espécie de licença especial para que eu entrasse neste edifício com um celular, que será usado para confirmar a presença de Miranda Safroncik na negociação. Uma porta de ferro maciço é aberta e César não esboça a mínima reação ao me ver entrar.
Há pontas de pelo que se espalham por seu queixo e parte do pescoço, e ele carrega olheiras. Apesar da aparência cansada, seu olhar permanece firme e atento, tão contrastante a sua expressão descuidada.

“Não vou negar que fiquei surpreso pela visita.”
  – Diz, assim que a porta se fecha atrás de nós.
“Pensei que depois daquela audiência, eu seria esquecido para todo sempre.”

“Não é meu desejo estar aqui.” – Murmuro.

“Não tenho a menor dúvida quanto a isso.” – Responde. – “O que me faz pensar que se está aqui, é porque necessita de algo.”

“Nós necessitamos de algo.” – Rebato. Minhas mãos se cruzam, pousadas na mesa. – “E se tudo correr bem, no final desta conversa teremos nossas necessidades sanadas.”

“E o que eu necessito?” – Solta, com um sorriso enviesado.

“Necessita de uma extradição.” – Murmuro. – “E eu necessito saber quem é Jennifer Vaccari.”

Sua expressão muda à menção desse nome.
Do conforto e absoluta tranquilidade, seu queixo trava e ele fica rígido em sua cadeira.
Bom sinal.

“Não pode me conseguir a extradição.”

“Tem razão.” – Murmuro. – “Mas eu conheço alguém que pode.”

“Quem?”

“Miranda Safroncik.” – Digo. – “Ela está especialmente inclinada a facilitar sua vida em troca da sua colaboração.”

“Certo.” – Murmura. – “E o que exatamente você quer saber?”

Arqueio uma sobrancelha.
Ele não esboçou o mínimo ceticismo quanto a menção de Safroncik.

“Acredita em mim?” – Solto.

“Você não sabe mentir.” – Ele encolhe os ombros. – “Tem o rosto transparente demais para isso.”

“Eu menti o tempo todo em sua casa.”

Ele sorri.

“Há uma diferença entre a atuação e a mentira.” – Diz. – “Você pode mentir quando está fingindo ser outra pessoa, mas não pode mentir quando está sendo a Diana. E você está sendo a Diana agora. Por isso consigo ler suas emoções tão facilmente.”

Desvio o olhar com sua análise.
A consciência do quanto ele me analisa me desconcerta, e eu vasculho o real assunto desta conversa. Não posso manter o foco em mim, e sim na Jennifer. Ela é o que importa.

“O que você sabe sobre a Jennifer Vaccari?”

“Ela é provavelmente a pessoa mais inteligente que já conheci.” – Murmura. – “Eu não a conheci totalmente. Não sei se existiu alguém que o fez.”

“Ela era uma terrorista?”

“Não.” – Diz. – “Seu irmão era. Ela nunca compartilhou dos ideais dele, mas isso nunca a impediu de trabalhar para eles.”

“Então ela trabalhava para o mesmo grupo de terrorista que o irmão...”

“Em parte.” – Diz. – “Ela fazia seus serviços, casou com Anthony quando exigiram, mas nunca foi leal a nenhum deles. Nunca aderiu à ideologia. Nunca teve nenhuma ideologia, nunca foi fiel a quem quer que seja e nunca gostou de ninguém. Jennifer era um camaleão. Podia se passar pelo mais radical dos militantes se isso lhe conviesse. Se converteria a qualquer religião se isso lhe fosse útil e defenderia qualquer ideologia se isso ajudasse seus objetivos.”

“E quais eram seus objetivos?”

“Eu não sei.” – Ele suspira. – “Acredito que ninguém saiba.”

“Você não acreditava que ela era uma Amélia, então.”

“A santa que ela fez a Liza acreditar? Não.” – Solta. Há uma nota de repulsa em sua voz. – “As vezes eu penso que era nisso que ela queria transformar a Liza; na mocinha do diário. Não sei porque. Ela não contava com a Rachael, de qualquer forma.”

“Como ela descobriu sobre as bombas?”

“Eu não sei.” – Diz. – “Só sei que eu a flagrei numa das sessões de hipnose com a filha. Pois é, a Liza só sabe desse enigma porque a mãe lhe revelou o maldito segredinho por hipnose. Eu odeio a forma como ela tentou vingar a morte da mãe, como se ela fosse uma santa, um anjo...”

“Por que a odeia tanto?”

Ele não responde.
É assustadora a forma como ele se remexe na cadeira, perturbado. Ele abaixa a cabeça e apoia os cotovelos em cima da mesa. Sua voz é carregada de raiva, repulsa, nojo, rancor.
Pela primeira vez, há emoção nele. Ele é retirado de sua zona de conforto, de sua indiferença e inércia.
Enxergar César Vaccari, tão tranquilo e seguro há minutos, atualmente neste estado, é assustador demais para que eu diga algo.

“Olha, eu não sei muito sobre ela.”
   – Murmura, depois de instantes em silêncio. Seu esforço em manter-se estável é nítido.
“Não sei como posso ajudar, porque todas as suas ações parecem desconexas demais pra mim. Eu não sei o que ela queria com tudo isso e provavelmente nunca vou saber porque ela está morta. É isso. Não há mais nada que eu possa falar.”

César aperta o botão vermelho na parede ao lado e no minuto seguinte policiais o levam de volta a sua cela.
Eu sou incapaz de mover um músculo.
Toda sua explosão de emoções faz vir a tona uma desconfiança remota, que acaba por se tornar uma certeza;
Desvendar Jennifer Vaccari e seus objetivos acaba por ser o verdadeiro enigma.